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Junta-se agora a este jornal Henrique Borné, consultor em assuntos europeus e faz parte do painel do programa "Café Europa", da Rádio Observador. Henrique, bom dia. Bem-vindo. Estes resultados da primeira volta confirmam, portanto, um país muito dividido e também, Henrique, uma erosão daquilo que eram os partidos tradicionais em França.
Bom dia. Eu julgo que há aqui duas notas que são muito importantes. Primeira, um país que continua dividido, isto é, continua porque os resultados em termos de quem vai à segunda volta não são substancialmente diferentes daqueles de há cinco anos, e, portanto, um país muito dividido. E mais uma vez este ciclo de aflição, alívio, espera-se. Isto é, as eleições francesas, temos andado em ciclos de aflição com o resultado da extrema-direita e depois tem sido alívio. Desta vez, uma preocupação acrescida, porque a erosão dos partidos do centro, que é real, à esquerda, teve como efeito, não sei se direto, porque o Partido Socialista francês ou candidato do Partido Socialista francês teve um péssimo resultado, mas nas anteriores também não tinham tido propriamente um resultado muito bom. Mas a verdade é que as candidaturas do Partido Socialista francês e da direita conservadora tradicional, os Republicanos, têm um resultado que equivale ao desaparecimento, praticamente. Mas dizia, o outro problema é que à esquerda, o que cresce é a extrema-esquerda, é Jean-Luc Mélenchon. E para não termos hesitações, por que estamos a chamar extrema-esquerda neste contexto? Enfim, há tudo o que ele tem dito, mas a verdade é que é o único candidato relevante que não declara apoio a Macron. Portanto, todos os candidatos, da candidata socialista à candidata dos Republicanos, portanto, a direita conservadora, declararam imediatamente apoio a Macron, e Jean-Luc Mélenchon, tal como fez há cinco anos, só que então não estava em terceiro lugar e desta vez está, não declara apoio a Macron. Diz que espera que nem um voto vá para Le Pen, mas não declara. Ora, onde é que eu vejo aqui um problema acrescido? É que desta vez a campanha se fez à volta de temas mais econômicos, onde a proximidade entre Mélenchon e Le Pen é maior. Isto é, quando a discussão era à volta de temas como a imigração, os direitos individuais, a ecologia, as divergências entre os dois eram totais. Mas agora que estamos em questões mais fundamentais, como o modelo econômico, a presença ou não na NATO, a reação à guerra na Ucrânia, aí eles estão mais próximos e, portanto, há o perigo real de alguns eleitores de Mélenchon se tornarem eleitores de Le Pen.
Muito rapidamente. Há, de facto, a possibilidade de Marine Le Pen vencer a segunda volta?
Não é impossível. Nós temos, para já, uma vacina nos últimos anos. Aliás, mais do que uma, que é Trump e o Brexit, que foram dois resultados que as sondagens não tinham previsto e que, se quiser, não só não tinham sido previstas, como parece que foi uma mistura entre as sondagens e o desejo da análise. E, portanto, há aqui o risco de se repetir o mesmo erro. Outra nota que é preocupante é o peso do eleitorado jovem no resultado dos candidatos às extremas. E, portanto, não é impossível.
Vamos ver, faltam 15 dias. Henrique Borné, muito obrigada pela análise.