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Senti que ainda tinha tanta coisa para fazer e senti que aquele era o fim. Houve um dos internamentos que recebi um testamento vital, onde tinha de fazer escolhas: se queria ser reanimado, se acontecesse alguma coisa, se as pessoas me podiam visitar, ou se queria doar os meus órgãos para a ciência. Lembro-me quando chegou a folha, que é um documento completamente normal, não consegui preenchê-lo, não consegui assinar. Senti muito medo só daquele papel com aquele testamento. Sou o Henrique Costa, tenho 23 anos, tenho esclerose sistémica difusa e fiz o transplante cardíaco há um ano. Em novembro de 2020, vou para Londres. Estava lá a estudar. Entretanto, quando num dos regressos a casa para vir de férias, em maio de 2021, se não me engano, a minha mãe olha para mim e diz-me: "Tu não estás bem, tu não estás normal. Estavas com as mãos muito inchadas e estava com uma cor muito branca". Estava diferente do que eu tinha ido para lá. Fui diagnosticado com a doença, a esclerose sistémica difusa. Era uma doença autoimune que podia ser controlada e ia tudo correr bem. Entretanto, regresso a Londres, quando de volta a Londres, houve um dia que eu acordei e sentia que tinha corrido a maratona. Ou seja, eu não fiquei o dia todo sentado num sofá como se eu estivesse cansado, mesmo muito cansado. Nunca me tinha acontecido. Entretanto, fui ao hospital e assim fiquei lá. Foi o meu primeiro internamento longo de um mês em Londres, porque perceberam logo que havia algo que não estava bem com a parte cardíaca. A doença afetou o coração, criou uma fibrose no miocárdio, no músculo cardíaco. Ou seja, o coração estava a fazer um esforço ainda maior para bater. Deixo de conseguir, por exemplo, subir escadas, um lance de escadas. Entretanto, deixa de ser um lance de escadas, já não consigo andar nem 100 metros que fico exausto. Passo por isso, 50 metros e até que já não consigo andar de todo. Às vezes até só o fato de me colocar em pé, já me sentia fatigado, até que tive que andar de cadeira de rodas. Com isto, para tentarem travar a doença, como foi uma evolução muito rápida da doença a afetar o coração e estes sintomas sempre a agravarem, tentaram fazer um autotransplante de medula, que fiz em agosto de 22. A solução para a doença foi o autotransplante. Depois, a parte cardíaca foi o transplante. Para mim, acho que a mais marcante de todas e o momento mais marcante de todos nestes últimos quatro anos, foi o transplante em 25 de junho de 2023, que passo de um estado em que não tenho qualquer esperança na vida, por assim dizer. Para mim, sabia que ainda não tinha terminado, mas estava a caminhar para lá. Abrir os olhos e ver, afinal, ainda tenho muita vida à minha frente e muitas coisas que ainda posso fazer e que ainda não acabou. Ao receber o novo coração, foi quase que um sentimento nostálgico de há três ou quatro anos. Eu não tinha esta sensação de sentir que podia fazer as coisas normalmente, conseguir andar, conseguir levantar-me. Parecia que andava num estado de sobrevivência e passei a viver. Estes quatro anos fizeram-me perceber que a vida tem que ser mesmo aproveitada, não com irresponsabilidade, mas tem de se aproveitar e dar o valor enquanto se está cá, porque quando se está próximo de se perder, dá-se muito valor ao que se viveu. Quando olho para o Henrique de agora, sinto que sou uma pessoa que agora dá muito mais valor às pessoas que estão à minha volta, porque realmente quando se está nestas fases de aperto, maior aperto, numa fase em que a pessoa está mais perdida, as pessoas que estão à nossa volta são realmente um grande suporte para continuarmos a fazer o caminho. A minha mãe esteve sempre muito perto de mim para me ajudar mentalmente, apesar de eu saber que ela sofreu muito, porque a parte dos pais também é muito importante e sei que sofreram muito. A minha namorada, que sempre foi uma pessoa que esteve muito próxima quando eu tive estas fases mais em baixo. Portanto, aprendi a dar muito valor às pessoas que estão à minha volta e estou agradecido para sempre pelas coisas que fizeram comigo.
O Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis.