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Antes do enfarte, eu pensava que era saudável, por isso não ia ao médico, não fazia exames. Não tinha a mínima ideia de qual era o meu estado de saúde, ao contrário do que pensava. O que se revelou que eu tinha? Tinha o colesterol alto, tinha peso a mais, apesar de fazer muito exercício. E isso é fatal. O colesterol alto é fatal. Chamo-me Frederico Sacramento, tenho 60 anos. Tive um enfarte do miocárdio durante uma corrida de trail em setembro de 2023 e estou em reabilitação. Eu sempre fiz desporto, sempre me senti muito saudável, forte, capaz de aguentar muito. E praticava corrida de trail, que é uma corrida de montanha muito exigente, muitas horas a correr, a andar e a subir. Fui a uma prova de trail ao pé de Tomar, o Trail dos Templários, e cerca dos 5 km comecei a sentir uma dor no peito e pensava que era no esterno. Comecei a alongar, era uma dor estranha, e continuei a correr, sempre com aquela dor. Depois a dor foi se intensificando e comecei a vomitar. Sentia dores nas costas também e achei aquilo tudo muito estranho. Me passou pela cabeça que pudesse ser um enfarte, só que sempre ouvi dizer que o enfarte doía o braço esquerdo e como não doía o braço esquerdo, pus de parte essa hipótese. Até que decidi desistir aos 10 km, que era o primeiro abastecimento. As pessoas começaram a perguntar se eu estava mal, e eu fui sempre dizendo: "Isso já passa". Por isso, eu nunca pedi socorro. Houve pessoas que foram mais assertivas, digamos assim: "Você não está bem, tem que se fazer qualquer coisa". Chegaram os socorristas, entrei na ambulância dos bombeiros, em muito mau estado já, deitei-me na maca, e eles começaram a socorrer-me. Só quando eu vi a urgência nos gestos e na cara dos socorristas é que percebi que estava mal. Só nessa altura é que eu comecei a pensar que podia mesmo morrer. Quando eu senti que não ia morrer foi quando chegámos a Leiria e estava lá o cardiologista cá fora, já à espera da ambulância. E ele me disse: "Frederico, vamos tratar de si, você vai ficar bem". E foi um alívio muito grande. Subimos para uma sala muito sofisticada, onde ele me fez um cateterismo e ao fim de 45 minutos estava salvo. Um dos impactos que o enfarte teve, muito grande em mim, foi uma crise de identidade. Eu sempre tinha feito desporto e de repente custava-me subir umas escadas e isso teve um impacto muito grande, ao nível emocional e psicológico, porque de repente não sabia quem era. Quem sou eu? Eu sou isto, eu agora vou ser isto? Isto não sou eu. Em Leiria, o cardiologista disse-me que em Lisboa havia um centro de reabilitação cardiovascular na Universidade de Lisboa e ele recomendou que eu fizesse essa reabilitação. Quando saí do hospital de Leiria, voltei para Lisboa e fiquei à espera de uma consulta. Eu tive o enfarte dia 17 de setembro de 2023 e só comecei a reabilitação em janeiro de 2024. Passaram quatro meses. Nesse período, senti-me muito desamparado, sem saber o que fazer. Eu estava medicado, mas de resto, sem informação. Há três fases de reabilitação cardíaca. A primeira fase é a intervenção através do cateterismo. A segunda fase, que eu fiz no Pulido Valente, é uma fase ainda muito cuidadosa, em que se começa com respiração, que é muito importante a pessoa aprender a respirar bem e exercitar os músculos da respiração, o diafragma, tudo isso. Exercícios de respiração, alguns exercícios com pesos, porque é importante reforçar toda a estrutura que ajuda a respiração e que ajuda o coração a funcionar. Também com o passar dos dias, esse nível de esforço vai aumentando, sempre muito controlado. Eu fazia exercícios um bocadinho mais exigentes, porque é sempre de acordo com as possibilidades de cada um, com a lesão que cada um tem. Mas eu tinha sempre a ideia de ir para o CRECUL, o Centro de Reabilitação Cardiovascular da Universidade de Lisboa, que tinha ouvido falar em Leiria. E consegui entrar em abril de 2024, há cerca de um ano. Em Portugal, há muito poucos recursos como este, do Centro de Reabilitação Cardiovascular da Universidade de Lisboa, que funciona no estado universitário. Há muito poucas pessoas que tenham tido enfarte em Portugal, que tenham a sorte de ter acesso a esta reabilitação. Por isso, sinto que tenho muita sorte, nomeadamente por viver em Lisboa, porque noutras partes do país não há acesso a este tipo de reabilitação. No ano passado, na sequência do meu progresso na reabilitação, comecei a sentir melhor, comecei a correr cada vez mais. Perguntei lá no CRECUL se eles achavam que eu podia participar numa corrida. E então no dia 10 de junho de 2024, participei na Corrida de Santo António, ali na zona de Belém. E foi incrível. Eu nunca tinha corrido de forma muito controlada, eu nunca tinha corrido de forma controlada, por isso deu-me imenso prazer não ir cansado e ir muito descontraído, a um ritmo muito levezinho, porque o que eu queria era fazer uma corrida de 10 km e chegar ao fim. Isso foi muito importante. E nessa altura senti uma gratidão imensa a todo o pessoal, esses profissionais de saúde incríveis que me acompanharam desde a primeira hora, desde os socorristas até ao pessoal da reabilitação do CRECUL.

O Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis.