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A sorte que eu tive é quando a médica vem de férias, por acaso perguntou: "E aquela paciente que eu enviei para exames complementares?" E quando ela olha para os exames e percebe que há um AVC isquêmico e que não há acompanhamento nenhum, nem uma aspirina para o coração, nem nada para baixar o colesterol, e que eu estava naquela situação de bomba-relógio, eu naquele momento podia ter tido um AVC enorme e não estar aqui hoje. Chamo-me Celmira Macedo, tenho 55 anos, sou professora e empreendedora social, e já tive dois AVCs. Era uma sexta-feira à noite, estava a preparar as coisas para levar no dia seguinte para Salamanca, que é onde eu fiz o doutoramento, e de repente fiquei com uma dor de cabeça insuportável. Vi tudo negro e comecei a dizer disparates. Eu queria dizer a uma amiga minha, que estava lá comigo: "Socorro! Ajuda-me, não me estou a sentir bem". E acho que dizia coisas como "sapato" ou não sei o quê, e ela a olhar para mim. Ela diz-me depois que eu fiquei muito branca. Aquilo foi muito breve, mas a mim pareceu-me uma eternidade. Marco numa neurologista e quando chego lá, com estes sintomas, esta dor de cabeça que não desaparecia e esta estranheza, eu falava com as pessoas de forma estranha, eu sentia-me completamente estranha, eu sentia-me sem forças. E ela dizia: "Já sei, está com uma depressão". E eu dizia: "Mas eu não estou com uma depressão. Eu não me sinto deprimida, não estou deprimida, só me sinto assim depois deste episódio". "Não, tenho a certeza que está com uma depressão". Fui a Lisboa e fui fazer uma ressonância magnética, e o diagnóstico foi que eu tinha tido um AVC, um pequeno foco hemorrágico. "Não, não é nada, faça a sua vida normal, exercício físico, não tem sobrepeso. Portanto, aquilo deve ter sido uma coisinha de nada. Esqueça isso". E eu esqueci. Eu estava a fazer o lançamento de um livro sobre precisamente a parentalidade positiva na deficiência, e no dia seguinte, eu começo com umas dores tremendas no abdômen e fui ao HPP de Cascais às 04:00, coisa que valha. E foi-me diagnosticada uma septicemia, ou seja, eu tive um rebentamento de um quisto no ovário. Estive o dia inteiro no hospital, fui operada e ninguém sabia muito bem o que é que estava a acontecer, e depois, quando eu acordei, é que me disseram que efetivamente tinha-me rebentado um quisto no ovário e três dias depois eu perguntei se podia vir para casa, porque eu estava em Cascais e trabalho. E disseram: "Pode ir para casa, mas ao pequeno sinal de indisposição, tem que ir ao médico". E eu estava a ir para Trás os Montes e senti um esticão no braço esquerdo e sentia o braço, hoje sei que é encortiçado. E o que eu fiz? Telefonei para a Saúde 24. A enfermeira do outro lado não percebeu nada do que eu estava a dizer, porque ela disse-me: "Imediatamente vá para o primeiro hospital que encontrar". E o primeiro hospital que encontrei foi o Hospital de Chaves. E saio de lá com diagnóstico de AVC isquêmico. E fico cinco dias internada. Nesses cinco dias, curiosamente, não vi um médico, não foi um médico àquele quarto. A médica que me recebeu no primeiro dia, recebeu-me, fez o que tinha que fazer, mandou-me fazer exames e foi de férias. Cinco dias depois, alguém me dá alta e eu vou para casa. Quando eu estou a chegar a casa, o meu telefone toca, e era essa médica, que disse: "Vá comprar estes medicamentos, porque tem o colesterol a 350, tem as tensões a 18, tem mais não sei quê". Ou seja, eu tinha um conjunto de características e tive um AVC, efetivamente. "Portanto, por favor, vá à procura de soluções". E isto caiu-me tudo em cima outra vez. Eu pego em todos os relatórios que tinha e venho ao Porto, a um hospital privado, e entrego ao médico tudo o que tinha, e ele imediatamente reencaminha-me para o Hospital de Santo António. Ele era o diretor do serviço de neurologia do Hospital de Santo António, reencaminha-me para o Santo António e eu começo no Santo António a fazer uma bateria de exames e chego à conclusão que eu tinha um foramen oval patente, ou seja, uma fissura nas paredes internas do coração, que de alguma forma misturavam o sangue arterial e o venoso, e que poderia ser catalisador, efetivamente, de eu ter aquele AVC ou mais. É no Hospital de Santo António, quatro anos depois do primeiro AVC, quase um ano depois do segundo, que eu sou bem diagnosticada, que começo a fazer medicação certa, que faço todos os exames para o coração e que efetivamente descubro que tenho este problema de coração. Passado logo um ano, faço o encerramento desse FOP. Em 2017, coloco um registador de eventos cardíacos, porque eu tinha nesses intervalos algumas arritmias que poderiam ser, mais uma vez, potenciadoras de AVCs, e desde aí até agora, que continuo com o registador de eventos cardíacos, que tem uma maquininha, um botão que eu carrego quando me sinto mal, e essa informação vai para o Santo António e de seis em seis meses eu vou ao Hospital de Santo António para ver se está tudo bem, se é preciso fazer mais alguma coisa ou se não é. Se eu não tenho vindo para o Porto fazer este diagnóstico com o professor doutor Manuel Correia, provavelmente eu já tinha tido um AVC e não estaria aqui hoje. Porque eu continuava naquela vida, sem indicação nenhuma, sem um diagnóstico sério, sem saber que tinha, de facto, um problema cardíaco, que já tinha nascido com ele. Eu tenho a sensação que as pessoas olham para mim e quando eu digo: "Eu já tive dois AVCs, eu não posso fazer isto, eu não posso fazer aquilo." Porque os meus sintomas são internos. Eu tenho dor de cabeça crônica, eu tenho zumbido crônico, eu perdi 60% da audição, eu não tenho força no meu lado esquerdo, comparado com o meu lado direito. Eu não me lembro de algumas pessoas, de algumas coisas e de alguns nomes de pessoas. E isto é invisível. Isto é invisível e às vezes é mais castrador e dói mais do que se eu tivesse ficado, não queria, mas com uma situação que fosse visível, porque se fosse visível, provavelmente as pessoas iam respeitar-me mais. Eu sempre achei, sempre disse que não ia ter filhos, mas quando me disseram que eu não podia ter filhos por causa disto, eu nunca gostei que me dissessem, porque a vida ensinou-me, da forma mais dura, enquanto mulher, que ninguém tem que me dizer o que eu não posso fazer ou o que eu posso fazer. Eu decido o que eu posso fazer. Mas houve uma altura que alguém me disse: "Podes, só que podes morrer." Isso acho que foi o momento mais duro de todo este processo. O "Arterial" é uma parceria d'"O Observador" com a Novartis.