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Seja muito bem-vindo à edição de quente e frio para esta quinta-feira, 5 de novembro, e já cá tenho comigo a Filomena Martins. Olá, Filomena.

Olá, Nelson.

Parece que a chuva está mesmo a chegar e o Atlântico parece que quer mandar-nos com tudo que tem. Primeiro vamos aos avisos amarelos já em vigor. Onde é que vai chover, afinal?

A chuva regressa já amanhã, sexta-feira, e os avisos amarelos do IPMA estão em quase todos os distritos do litoral. Portanto, Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa e Setúbal. Acima de Setúbal, tudo o que é litoral amarelo. São avisos associados à chuva, no fim de semana em que depois desta sexta-feira, várias frentes atlânticas vão atravessar Portugal. A primeira chega esta sexta, com chuva, muita chuva, sobretudo no Norte e Centro, onde vai ser intensa e também no litoral. No sábado continua esta instabilidade com novas frentes mais trovoadas e o Sul pode ser aquele que vai ficar mais ao lado. Passar um pouco mais ao lado. Nesta primeira fase. Porque o que preocupa os meteorologistas é o que pode acontecer a partir de domingo.

Estamos a falar duma depressão profunda que até pode vir a ter nome, que será a Bruna, caso aconteça, e vai mesmo atingir Portugal?

Talvez venhamos a ouvir falar muito desta tempestade nos próximos dias. Para já, há uma distinção importante, a depressão não recebeu oficialmente este nome, o IPMA fez questão de esclarecer isto esta quinta-feira. Bruna é o próximo nome da lista das depressões, a Ovea, de grande impacto, e será esse o nome se o sistema cumprir os critérios necessários, que normalmente partem do vento primeiro e da chuva depois. O que aparece nos modelos é uma vasta região depressionária no Atlântico, com um núcleo que poderá atingir uma pressão ali nos 990 hPa, com vários centros secundários. Portanto, é uma grande depressão. E posso dizer que, por exemplo, o IPMA espanhol, chamemos-lhe assim, o AEMET, já tem um aviso para esta grande intensidade de chuva e ventos e já avisou as pessoas para o que pode vir esta tempestade. E, portanto, entre domingo e terça-feira, esta circulação traz chuva persistente, forte, vento intenso e agitação marítima. Só há uma pequena incerteza, mas que é fundamental, que é o trajeto da depressão. Se o centro ficar mais afastado da costa, os efeitos serão obviamente diferentes do que se a depressão se aproximar da Península Ibérica. Portanto, não podemos anunciar a chegada da tempestade Bruna. Podemos dizer que os modelos apontam pra uma depressão potencialmente muito importante e que poderá vir a chamar-se Bruna, que é o mais certo.

Olha, pelo que percebi, a situação fica pior domingo e segunda-feira?

É aqui que a situação potencialmente se complica. Todos os modelos estão a acompanhar esta formação e evolução também de uma outra depressão no Atlântico, virá outra a seguir, a oeste da Península Ibérica, dependendo da trajetória, esta pode se também aproximar ou não entre domingo e terça-feira, e também traz chuva forte, vento intenso e agitação marítima. E as duas até podem fazer aquela estranha dança de que falámos ontem, que é o efeito Fujiwara. O modelo europeu mostra sinais de vento invulgarmente forte para esta época do ano em algumas regiões. Há diferenças importantes entre as simulações e quanto à localização e profundidade da depressão. Mas há um sinal comum, que é o agravamento do tempo, só que não sabemos ainda onde é que vão ser os efeitos mais fortes. Se a depressão ficar mais a oeste, Portugal pode receber muita chuva sem sofrer muito com os ventos mais intensos, se se aproximar mais da costa, o risco de vento forte e de chuva ainda mais intensa aumenta.

Mas estamos a falar de muita chuva ou de muita chuva?

Muita chuva, potencialmente muita chuva. É talvez a informação mais importante para os próximos dias. Quer o modelo europeu, quer o canadiano, estão a desenhar acumulados de chuva muito elevadas até 15 de novembro. Em algumas regiões, sobretudo do Norte e Centro, vão ultrapassar ou podem ultrapassar os 100 a 150 mm em pontos isolados. Há valores que vão até aos 300 mm. Isto é muita chuva. E exigem prudência, porque representam chuva acumulada ao fim de vários dias, não é aquilo que vai cair numa única tempestade, e os máximos locais podem mudar bastante de uma atualização pra outra. E há um risco que começa mesmo a destacar-se, que várias frentes atravessem sucessivamente as mesmas regiões, deixando os solos cada vez mais úmidos, mais saturados, e aumentando depois a possibilidade, obviamente, de inundações e de subidas rápidas de rios e de ribeiras. Ou seja, mesmo que nenhuma frente isolada seja extraordinária, a soma delas todas pode tornar-se problemática.

Bom, no Atlântico temos esses sistemas depressionários, mas pode vir também aí um ciclone?

Também. Há cenários de evolução desses sistemas depressionários no Atlântico que levantam a possibilidade de um se desenvolver com estas características tropicais ou subtropicais. É preciso separar as coisas, uma depressão profunda não é um ciclone tropical e uma possibilidade apresentada por alguns modelos não mostra que esteja confirmado este ciclone a caminho de Portugal. Mas é mais um sistema a vigiar, sobretudo pela forma também como pode interagir com as outras depressões e com a circulação atmosférica no Atlântico e com o rio atmosférico que vai alimentar estas depressões.

Bom, com tantos fenômenos destes, sabemos quantas depressões estão a caminho?

Não, não é possível contá-las com segurança, mas os centros de depressões que vêm afetar Portugal, os modelos mostram uma sucessão delas, algumas mais profundas, outras mais secundárias, todas com frentes e extensas faixas de precipitação. A circulação atmosférica mudou por completo. Agora as depressões têm condições para se deslocarem e influenciarem o tempo nesta região. E apetece dizer que não há nada realmente no Atlântico que não venha na nossa direção, depressões, frentes, possíveis sistemas ciclônicos e rios atmosféricos. Se vão chegar mesmo todos eles a Portugal ainda não sabemos, mas percebe-se a mudança do que estamos a viver.

Esse seria o pior dos cenários. Vamos às ilhas, porque foram elas que começaram a ter os primeiros avisos. Como é que estão nesta altura?

Há avisos amarelos para chuva na Madeira no sábado e depois junta-se-lhe o vento com rajadas entre os 90 e os 110 km/h. Os Açores também estão com avisos amarelos para chuva, porque estes sistemas atlânticos vão passar primeiro pelas ilhas e depois é que chegam cá.

Nos últimos dias, tivemos noites muito frias. Como é que vamos estar de frio, afinal, além de toda esta chuva?

Isso é boa notícia. As noites vão ficar mais quentinhas. Em Braga, por exemplo, a temperatura mínima passa de 2 °C nesta quinta-feira pra 13 °C na segunda-feira. Somam mais 11 °C. Em Viana do Castelo, a subida é de 4 °C pra 14 °C, no Porto, 6 °C para cerca de 15 °C e noutras cidades do Norte e do Centro, que foram as mais frias, a tendência é a mesma. E os dias também vão continuar muito amenos na próxima semana, apesar da chuva, do vento e das nuvens, possa fazer com que a sensação térmica não seja tão quente como as temperaturas.

Já estamos um bocadinho habituados a quando fica mais nublado, as temperaturas ficam mais amenas. Mas como é que isto acontece exatamente?

As depressões atlânticas podem favorecer sempre a entrada de ventos de sudoeste, portanto, ventos ali da zona das Caraíbas, fizemos o desvio. E eles transportam ar marítimo, que normalmente é muito quente e muito úmido, e entre domingo e terça-feira existe a possibilidade de um rio atmosférico, que vem lá do Atlântico subtropical, e esse transporte de vapor d'água coincide com as frentes e com a subida do ar sobre as montanhas. Portanto, há mais chuva, mais intensa, mais persistente, mas esse vento também traz noites quentinhas e dias amenos e ao mesmo tempo pode alimentar esse episódio de chuva forte. Isso leva-nos ao fenômeno de hoje e já percebes por quê.

Vamos a ele, tem um nome estranho, os abregos.

Abregos.

Abregos. São ventos que aquecem as noites e trazem chuva. O que é que são estes ventos, afinal?

Abrego é um nome tradicional dado ao vento de sudoeste. São estes ventos que vêm ali da zona das Caraíbas e que chegam normalmente carregados de umidade e associados a tempo chuvoso. Não é uma tempestade, nem um fenômeno meteorológico extraordinário, é um vento conhecido há séculos na Península Ibérica e é muito importante durante o outono e o inverno. E tem uma característica curiosa: pode trazer as temperaturas mais altas precisamente nos dias em que o tempo vai estar pior.

É estranho, porque associamos o Atlântico a frio.

A nortadas.

A nortadas também. Como é que ele aquece estas noites nos próximos dias?

Porque a temperatura não depende apenas do céu estar limpo e de haver sol. Quando o vento sopra de sudoeste, deste lado das Caraíbas, às vezes é aquele vento úmido e quente, e transporta para Portugal uma massa de ar marítimo mais quente do que aquela que estava sobre o território. Além disso, as nuvens, e era aqui que perguntavas, funcionam como uma espécie de cobertor, reduzem a perda de calor da superfície durante a noite. O calor não se evapora tanto pela atmosfera.

Uma espécie de efeito estufa.

Exatamente. E o vento mistura o ar das camadas mais baixas da atmosfera e dificulta o arrefecimento junto ao solo. E o resultado é que as temperaturas mínimas podem subir muito, mesmo sem qualquer aumento significativo nas máximas. É precisamente isso que os modelos estão a prever para os próximos dias, que são mínimas muito próximas das máximas. Chega a haver 16 °C de mínima e 18 °C máxima, por exemplo, nos próximos dias.

O oceano é feito de água, é por isso que estes ventos trazem tanta chuva?

Sim, porque o ar que chega do oceano contém vapor de água, mesmo os rios atmosféricos trazem esse vapor de água. Quanto mais quente for o ar, maior é a quantidade de vapor de água que pode conter antes de atingir a saturação e fazer chuva. Quando esse ar úmido encontra uma frente atmosférica, é forçado a subir. Ao subir, arrefece, o vapor condensa e há nuvens e chuva. Nas regiões montanhosas é a mesma coisa, o ar é obrigado a subir nas encostas, o que pode intensificar a chuva nas zonas mais expostas ao vento. Portanto, em determinadas situações, é por isso que no norte e centro há mais chuva, porque esse vapor de água é obrigado a subir a parte montanhosa do norte e do centro.

E vamos à curiosidade de hoje: o satélite que caiu na Terra, mas não onde se esperava. Afinal, há um satélite da NASA que caiu?

Sim, era aquele que já tínhamos falado aqui, o Swift. Não é da Taylor Swift, mas é o Swift, da NASA.

É o Swift aquilo de limpar o chão, se calhar.

Sim, talvez. Entrou na atmosfera terrestre ontem, quarta-feira, 4 de novembro, depois de quase 22 anos no espaço. E a reentrada aconteceu numa região diferente daquela que algumas previsões anteriores tinham indicado. A zona apontava para a Argentina e a reentrada foi a norte da ilha de Sumatra, na Indonésia, perto de uma cidade, Medan.

Bem, nem sequer é próximo do que estava previsto. Mas eles não conseguem saber exatamente onde o satélite vai cair?

Essa é uma das partes mais interessantes dessa história. Mesmo quando os cientistas conhecem a órbita de um satélite, e era o caso, é difícil prever com antecedência o local exato da reentrada, porque à medida que desce, o satélite encontra camadas cada vez mais densas da atmosfera, o atrito aumenta e a velocidade orbital diminui. Mas a densidade da atmosfera varia muito, nomeadamente por causa da atividade solar, e pequenas diferenças na velocidade ou no momento da reentrada traduzem-se depois em milhares de quilômetros de diferença na superfície terrestre. Como o satélite se desloca a vários quilômetros por segundo, um erro de poucos minutos pode mudar completamente a região prevista.

E o que é que acontece a estes destroços?

A maior parte da estrutura de um satélite costuma desintegrar-se e arder durante a reentrada. Algumas peças maiores, mais resistentes, podem sobreviver e atingir quer o mar, quer o solo. No caso do Swift, para já não há confirmação de grandes destroços recuperados, nem notícias de feridos ou danos associados à reentrada. Ele era do tamanho de um autocarro. Isso não significa que seja impossível algum fragmento ter chegado à superfície. Para já, não foi confirmada a recuperação de nenhuma peça grande.

Pra que servia este satélite Swift?

O Swift era um telescópio espacial. Foi lançado pela NASA em 2004 para estudar alguns dos fenômenos mais violentos do universo, explosões de raios gama, que podem estar associados ao colapso de estrelas muito maciças ou à fusão de objetos extremamente densos. E é aqui que está a última curiosidade. A missão tinha sido inicialmente concebida pra durar cerca de dois anos e acabou por durar 22 no espaço. Portanto, duas décadas a observar explosões cósmicas a distâncias enormes e a viagem terminou com uma entrada espetacular na atmosfera terrestre.

Estava cansadote também. Vinte e dois anos, já tinha terminado a sua missão há tanto tempo.

Estava velhinho.

A queda do satélite Swift no fecho do "Quente e Frio" com a Filomena Martins. Amanhã regressamos para falar de meteorologia.