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Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.

Eu sou o Sérgio José Pinto.

E nós hoje vamos falar sobre o cerco econômico dos Estados Unidos ao Irã, sobre a ruptura das negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá. Mas antes, Sérgio, temos Portugal, é assim o que nós havemos de fazer. Nesta última semana, toda a gente se indignou de um lado e do outro com o tema do futuro das pensões. Parece haver uma enorme dificuldade em falar calmamente sobre este tema. Não sei se o fato dos reformados representarem a maior fatia do eleitorado português e de nas últimas legislativas, 37% das pessoas com mais de 65 anos terem votado na AD, 40% no PS, 10% no Chega e depois o resto nos partidos mais pequenos, não sei se isso terá alguma coisa a ver com esta dificuldade em falar sobre o assunto. Não sei que tu, que ainda estás muito longe de te reformares.

Não digas uma coisa dessa.

Que és um jovem.

Eu já estou como os prisioneiros que têm na cela uns pauzinhos que vão riscando.

Mas agora vais precisar de muitos pauzinhos, porque a cada ano que passa a reforma é mais tardia, portanto aguenta. Tu que estás longe disso, como é que tens olhado pra isto? Friamente?

Em primeiro lugar, acho que as considerações que tu fizeste são apropriadas, mas não se aplicam só a Portugal. A pirâmide demográfica situou um bloco enorme de eleitores no topo, os mais idosos, os pensionistas, e portanto, isso é algo que tem que ser tido em consideração.

Aliás, em Inglaterra, é uma das grandes polêmicas hoje em dia por causa do chamado triple lock. Houve um governo que decidiu que haveria uma tripla garantia no aumento das pensões, portanto, estariam sempre a subir ou pela inflação ou pela média dos salários, ou sempre pelo menos 2,5%. Ficou aquilo tudo preso a essa garantia e hoje em dia em Inglaterra há muita gente a dizer que os pensionistas estão a tomar conta da economia e a esvaziar a economia.

É interessante que o triple lock tem uma história. O triple lock foi uma tentativa de atenuar o fato das pensões inglesas serem significativamente mais baixas. O sistema inglês é um sistema menos generoso e provavelmente também menos pesado na parte contributiva, e gerou um diferencial das pensões em relação ao que são praticados na generalidade dos países comparáveis e portanto foi inventada essa solução pra tentar garantir que as pensões pelo menos iam subindo. O problema é que, por outras razões, o Reino Unido está a enfrentar um conjunto de dificuldades econômicas, nós aqui já falamos muitas vezes, e quando a economia não funciona, não é só o sistema de pensões que entra em dificuldades, mas também é. Portanto, o problema do triple lock é a economia inglesa ter um desempenho medíocre de há muitos anos a esta parte, e experimentar resolver os problemas, em vez de mudar as políticas, mudar os primeiros-ministros. E portanto, é uma solução que já foi testada lá, felizmente ainda não foi testada cá. Nós ainda conseguimos manter uma certa estabilidade política.

Sim, mais ou menos.

E é engraçado como lá, mesmo dentro do mesmo partido, se encontram alternativas políticas completamente diferentes. É uma coisa absolutamente extraordinária, não é?

Sim, radicalmente diferente.

Radicalmente diferente.

Não muda só o nome.

Agora vamos experimentar a Truss, que era opositora do Brexit e uma all-nation conservadora. Portanto, uma conservadora de centro. Vai-se embora. Agora vem esta jovem, que não me lembro do nome.

Liz Truss.

Liz Truss, que vai arrebentar com o sistema financeiro. Também não correu bem. E portanto, isto dentro de um partido, é uma coisa espantosa. Outra coisa que eu também acho que vale a pena dizer sobre este estudo, aliás, um amigo meu recomendou-me vivamente a leitura das 76 páginas do estudo. Se tivesse juízo-

E é teu amigo.

Meu amigo. Se tivesse juízo, tinha ido ler a imprensa especializada com um crivo crítico credível e que me facilitaria a digestão deste documento, que é francamente hermético para os não iniciados. E outro dado que é importante é que foi logo direitinho pra gaveta. Não sei se te deste conta, que por mais hermético que seja, primeiro, o resultado final é hermético, mas mesmo hermético, na gaveta, afastado do olhar, é que ele está bem. Nós temos dificuldades com a Segurança Social, há vários aspectos que têm a ver com mau funcionamento, pouca transparência da arquitetura do nosso modelo, mas que não o impugnam diretamente, mas que dificultam a compreensão, por exemplo, do seu estado de saúde. Das transferências daqui pra ali. A eterna história da Caixa Geral de Apresentações.

Certo.

Toda gente percebe que a Caixa Geral de Apresentações tem um grande déficit porque está a pagar pensões e deixou de receber contribuições.

Exato. Não entra dinheiro, só sai.

Alguém que experimente isso em casa. Mas pronto O sistema acusa as dificuldades que a generalidade dos sistemas europeus acusam. Muito pior que nós estão os franceses.

Porque aí é que um político querer aumentar a idade da reforma é o caminho mais rápido para o cadafalso.

Isso eu acompanho as coisas em França e realmente eu não consigo compreender. Ultrapassa-me. Como é que não é possível num país culto, informado, atento, muito politizado, como é que não é possível um debate sereno sobre o sistema de pensões e a total inviabilidade da idade da reforma? Eu não sei qual seria a idade da reforma compatível com a sustentabilidade do modelo francês. Meio evidente. Agora, persistirem nesta idade da reforma, lá conseguiram baixar um bocadinho para certos casos. Mas quer dizer, como é que não é possível um debate? A vida política democrática assenta na capacidade de podermos participar, aprofundar questões coletivas e sobre elas formar uma opinião. Lá não é possível. Os governos praticamente só são viabilizados no Parlamento se jurarem a pés juntos que não mexerão nas reformas.

Que não sobem a idade da reforma.

Que não sobem a idade da reforma, quando a verdade é que a França continua com um déficit de pelo menos 5% ao ano, com 117% de peso da dívida no Produto. De facto, qual é a saída para isto?

Sim, e há governos que caem uns atrás dos outros por causa disso.

Os governos caem por causa disso, porque de repente alguém percebe onde é que está, enfim, não será o único, mas um problema central que também explica a carga fiscal. A França não pode aumentar os impostos. A França já é comparável aos países nórdicos nos tempos da alta social-democracia. Aliás, é o estado mais ou menos em que também nós estamos, com uma carga fiscal elevadíssima, mas felizmente ainda há dinheiro para fazer fundos sobre anos.

Lá em França é pior, porque cá fizemos uma reforma que faz com que a idade da reforma vá aumentando conforme uma série de fatores. Acho que só reduziu ligeiramente quando foi da pandemia, precisamente por causa do aumento de mortalidade, infelizmente.

Aumento de mortalidade.

Mas nós cá conseguimos implementar isso. Lá, nem sequer nessa fase estão. Lá é um nível de loucura muito superior, mas cá nós também temos uma grande dificuldade em sequer falar sobre isto.

Mas vamos lá ver, quando o nosso miraculoso e exemplar fator de sustentabilidade nos conduzir à situação em que as nossas reformas são 40% daquilo que foi o nosso salário.

Certo.

O que é que vamos para a rua celebrar a saúde do nosso sistema de Segurança Social? Ou vamos apedrejar a Segurança Social por nos ter reduzido à indigência? De nada serve privar as pessoas, o esforço dos trabalhadores e o esforço das empresas a fazerem as transferências mensais para a Segurança Social, quando se constata que a Segurança Social não consegue gerar aquilo. Eu digo isto e não sou a favor de um sistema 100% capitalização.

É tipo traga o alcatrão e pedras.

É que é mesmo alcatrão e pedras. Alcatrão de direita. Fico todo de direita da cabeça aos pés. Mas, de facto, se o retorno daqueles descontos investido numa casita, que é o que fazem as pessoas no sul da Europa e em Portugal também, que é como não têm confiança nos mercados financeiros, por muitas e boas razões, como a União Europeia nunca mais constrói um mercado financeiro europeu no qual as pessoas possam com confiança investir.

Com confiança e com diversidade.

Investir não é elas, é através de instituições, de preferência, não sendo bancos, uma vez que os bancos largamente vivem das comissões que cobram pelas operações que fazem, portanto, gostam muito de fazer operações, mas uma instituição de crédito que faça o investimento nos mercados financeiros a longo prazo, a pensar no futuro das pessoas, com uma componente de risco e de segurança ponderada por gente que sabe o que está a fazer. Não é eu e tu irmos agora decidir o que vamos fazer com o que sobrou depois de irmos ao supermercado. Não, é alguém que sabe o que está a fazer. E se constatarem que ou comprando a casa ou investindo nos mercados financeiros, têm um retorno incomparavelmente superior ao sistema de pensões, mais o fator de sustentabilidade, que é uma espécie de foice, que todos os anos lamina uma parcela do nosso retorno ao fim de 40 anos. As pessoas começam a voltar-se contra o sistema. Qual é a necessidade? O nosso sistema conceptualmente é bom, não há nenhuma razão para termos um sistema diferente. Acho que podíamos ter sistemas de incentivos à poupança privada, onerando menos esse tipo de investimentos de capital, até um certo limite. Não é agora um ricalhaço que tem vários milhões, diz: "Agora vou aqui investir na minha reforma, vou pôr aqui 50 milhões." Não é isso. É uma coisa direcionada para as famílias. Mas por que não se arriscam um pouco mais? E os hermeneutas que perceberam 100% das 70 páginas também devem implementar as soluções adequadas pra que o sistema seja mais transparente, mais viável, porque toda gente vive aterrorizada com o fator de sustentabilidade.

Sim, esse é um dos pontos que me deixa perplexo aqui e noutras áreas em que se fala em reformas. Mas neste caso, para mim é evidentíssimo. Ouvimos dizer: não assustem as pessoas com esta conversa sobre as pensões ou com a conversa sobre eventuais reformas no sistema. O meu ponto é: mas há alguma coisa que assuste mais do que nós já temos, que é a idade em que tu te reformas aumenta cada vez mais e a reforma que tu vais efetivamente receber diminui cada vez mais? Há alguma coisa mais assustadora do que isto? Acho que qualquer medida como essas que tu falaste e como as que foram também faladas sobre o grupo de trabalho, qualquer dessas propostas é sair do susto, acho eu, é dar uma esperança, pra ser poético, uma luz de esperança às pessoas, porque o que nós temos agora é uma certeza de que vamos ter um triste fim de vida.

Calma, também não é caso pra entrarmos nesse estado terminal de angústia.

Obrigado, Sérgio. Obrigado por tirares.

O meu papel também é tranquilizar-te.

É verdade, está no contrato.

Mas realmente o sistema tem que ser reformado e temos que realmente criar condições, agindo. O sistema de Segurança Social não pode ser dissociado do desempenho da economia. Nós temos é que pensar que economia queremos ter, é evidente. Imagine-se, uma das coisas interessantes que vem neste estudo é: o sistema articula mal com as novas formas de trabalho. As pessoas, o autoemprego, atividades que são difíceis de tipificar. O sistema está mal adaptado a uma realidade que é cada vez mais significativa na economia. E, portanto, há várias coisas que podem e devem ser feitas. Acho que deve ser feito de uma forma tranquila. Os partidos têm que ser capazes de partir de um ponto de vista não ideológico, ortodoxo, quadrado, tipo informação em quadrado, debater a Segurança Social e os outros, informação em redondo, debater a Segurança Social. E outros: vamos a informação em triângulo. Não é possível debater nada assim. Depois vão fazer uma gritaria pro Plenário da Assembleia da República pra explicitarem a sua profunda indignação com qualquer tentativa de mexer no que está. E as coisas lá se vão arrastando. Por exemplo, o governo, excelente iniciativa, olha aqui um elogio ao governo, mandou fazer este estudo. No estudo detectaram aqui aspetos suscetíveis de incendiar o Plenário da Assembleia da República. Então pronto, lá marchou ele pra gaveta número 52, onde ficará a aboborar até que um futuro governo mande fazer outro estudo.

Vamos deixar as pessoas respirarem um pouquinho. Eu sei que estão a precisar, voltamos já. Havendo-se volta ao Realpolitik, Sérgio, continuamos com os Estados Unidos a não conseguirem resolver a guerra no Irão, agora estão a ameaçar com um dia D econômico. Portanto, agora já não é uma questão militar, acham que vão resolver isto pela economia, sanções, estão a ameaçar qualquer país que tenha relações econômicas com o Irão, de terem consequências catastróficas em um Armagedão pra quem fizer isso, imagino a China muito preocupada.

Deve ser o caso do Canadá.

Exato, já vamos ao Canadá. Temos aqui mais um episódio desta guerra. Me fez lembrar um pouquinho a phony war, a guerra falsa, que foi no início da Segunda Guerra Mundial, houve ali um período de largos meses em que não se passava nada militarmente.

Em francês, drôle de guerre.

Exato. E que aquilo não acontecia nada no terreno.

Aconteceu uma grande incursão militar francesa pelo território alemão e depois marcha atrás e regresso à França.

Também faz lembrar um bocadinho o que se passa ali. Nós estamos na phony war no Irão. Será que todo este conflito no Irão é, todo ele, uma phony war? O que tu esperas disto?

Não, isto não é nada uma phony war, isto é uma guerra a sério, é uma guerra quente, como se diz. E esta tentativa de asfixia econômica do Irão é guerra. A guerra faz-se por vários meios. Esta é uma tentativa de reverter a situação no plano estritamente militar, que culminou numa derrota dos Estados Unidos, pela sua incapacidade de alcançar um que fosse dos vários objetivos que se propôs com esta iniciativa Nós vamos lendo que Trump se queixa que foi enganado por Netanyahu. Os fracassos têm sempre...

Sim, teria sempre de haver algum culpado que não ele.

Sim, tinha que haver algum culpado. E a solução agora, pelos vistos, é flagelar a população civil, porque quando estamos a falar de soluções deste tipo, estamos a falar de privar a população civil de medicamentos, de alimentos, de coisas essenciais. O que vai fracassar, diga-se de passagem, porque os Estados Unidos conseguiram construir uma coisa que não existia, que é uma aliança tácita entre a China, a Rússia e o Irã. E dificilmente, enquanto a China, a Rússia e o Irã decidirem sustentar o esforço de guerra e dar apoio militar e apoio humanitário ao Irã, estas tentativas vão todas fracassar. O Irã continua a controlar o Estreito de Ormuz e também já fez um aviso, que é qualquer país na região que colabore no bloqueio econômico será alvo legítimo. Considera que a guerra econômica e a guerra militar são fundamentalmente a mesma coisa. Aliás, agora ameaçou o Azerbaijão. Agora apareceu o Azerbaijão, entra em cena. Ameaçaram bombardear os oleodutos do Azerbaijão, por acaso são decisivos também para o aprovisionamento de petróleo da Europa. O Azerbaijão fica a saber. E aqueles países todos. Vamos lá ver. As pessoas talvez não tenham uma compreensão exata. A maior parte daqueles países são heranças da era colonial. Não é verdade? Em alguns já começa a notar-se um sentimento nacional, já um certo nacionalismo, mas não há um sentimento nacional nas populações. Há um panarabismo, há a ideia de que nós somos todos árabes. E curiosamente, também agora há uma certa diluição daquela ideia de que xiitas e sunitas são inconciliáveis. Agora há uma aproximação e a noção de que não somos todos árabes, mas somos todos muçulmanos. Como toda a gente sabe, os persas não são árabes. Aqueles países, com exceção da Arábia Saudita, que terá uns 20 milhões de habitantes, aqueles países têm um milhão, dois milhões, 400 mil habitantes, são coisas ínfimas. Se o Irã se dedica a implodir, a rebentar com as infraestruturas de dessalinização, as infraestruturas energéticas, aquilo volta a ser o que sempre foi: um deserto inabitável.

Com tribos.

Um deserto inabitável.

Uma estrutura tribal.

O único país que verdadeiramente tem a possibilidade de fazer outro país destruir uma civilização e reconduzi-lo à Idade da Pedra é o Irã. Só que o Irão tem jogado um jogo de escalada com os Estados Unidos, assente numa proporcionalidade. Se vocês fizerem isto, ficam a saber que a resposta será aquela. Tem uma capacidade balística que ninguém contesta. E já estão demasiados países envolvidos neste cenário terrível. E a indiferença do presidente Trump em relação às consequências para aqueles países, países que estavam a tentar diversificar as suas economias, dependerem menos da monocultura do petróleo, investir no turismo, investir em mercados financeiros, em atrair capitais. Porque o petróleo é um recurso que tanto pode tornar-se mais ou menos obsoleto ou menos valioso, menos necessário, ou simplesmente esgotar-se. Estes países têm que encontrar modelos e foram casos de sucesso. Nós conhecemos os casos de sucesso do Médio Oriente. Eu li há dias algum lugar que o avô de alguns destes reis, xeiques ou não sei o quê, viviam em tendas com uma lâmpada. É preciso ter alguma admiração pelo que foi possível fazer. Com os muitos erros e os fanatismos, o abismo, os salafitas, enfim, o que foi possível fazer naqueles territórios. O Irão neste momento. A Arábia Saudita meteu-se numa guerra com o Iémen. É um Vietname da Arábia Saudita. Está a correr que é uma maravilha. Agora os iemenitas bombardeiam a seu bel-prazer e podem fechar o Mar Vermelho, que é um dos pontos de saída do petróleo da Arábia Saudita, que vem através de um oleoduto desde o Golfo até ao Mar Vermelho. Já estão a bombardear as instalações portuárias e a tentar fechar a exportação de petróleo por ali. O Irão controla o Golfo Pérsico e diz: "Se não podemos exportar o nosso petróleo, ninguém pode." Tendo em conta que eles é que controlam o Golfo Pérsico. Agora ameaça o Azerbaijão. E no meio disto tudo, no meio deste impasse, os estados da região sempre confiaram que o problema da segurança estava resolvido. Nós temos aqui este entendimento com os Estados Unidos.

Certo.

Não há transações nenhumas em petróleo que não sejam pagas em dólares. Eles montam aqui as bases deles, sabe-se lá em que estado é que estarão essas bases, imagino que não estejam na perfeição E esta é uma solução que acabou. E, portanto, os Estados da região agora têm que resolver sozinhos o problema da arquitetura de segurança da região. E nós já vimos esta semana uma coisa muito interessante, que foi o entendimento entre o Paquistão, a Turquia e a Arábia Saudita para criarem não bem uma aliança, mas uma entente econômica e militar.

Certo.

No dia em que para este grupo entrar o Irã, está feita a nova arquitetura de segurança na região. Serão eles os responsáveis pela segurança na região. E o papel dos Estados Unidos deixa de existir, deixa de ser viável, útil. Os statelets, como dizem, os pequenos países do Golfo, vão perceber que têm toda a vantagem em estar integrados na arquitetura da região sob o patrocínio turco, paquistanês e da Arábia Saudita, e também do Irão, e nenhuma vantagem em estar. Mas o problema é que eles vão continuar a querer só transacionar o petróleo em dólares?

Claro, por que eles hão de estar dependentes do voto de um agricultor num Estado rural dos Estados Unidos? Por que hão de estar dependentes daquilo que os eleitores americanos decidem fazer? Se querem continuar a eleger presidentes na linha de Donald Trump, vão estar dependentes disso? Não vão, realmente. Agora, esta ameaça do dia D econômica, só pra voltar um pouquinho a isso, é mais uma bravata. Porque não é propriamente como se o Irão não estivesse sujeito a sanções. O Irão está sujeito a sanções violentíssimas há muito tempo. E depois esta ameaça, pra valer a sério, em primeiro lugar, tem que assustar a China. A China vai ser condicionada por uma ameaça feita no Twitter por Donald Trump?

Basta dizer que os petroleiros chineses entram e saem do Golfo do Ormuz como se nada se passasse.

Claro, certo. E não são transformados num Estado vassalo de Donald Trump, era o que mais faltava. O problema é que algumas pessoas nos Estados Unidos e fora, o Boris Johnson deu uma conferência agora em que diz o óbvio, que a maneira de mudar o estado de coisas no Irão era internamente, não era externamente, era através de uma sublevação interna que mudasse o regime, que a aposta devia ter sido essa, não foi. E essa aposta é cada vez mais difícil, porque tem havido relatos na imprensa internacional nas últimas semanas de que, para os guardas revolucionários, portanto, para a espinha dorsal do regime, estas negociações não são um passo pra paz, são um passo pra guerra. Eles estão convencidos de que tudo isto é uma enorme armadilha, que os Estados Unidos também não querem a paz, e eles também não querem, e, portanto, o regime está a preparar-se pra uma escalada da guerra.

Eu poria isso de outra maneira. Os iranianos não confiam nos americanos. Convém esclarecer que estavam todos em negociações na Suíça e de repente toda a elite política iraniana foi liquidada.

Sim, no início da guerra.

Convém esclarecer que existe um progresso muito importante, que foi o famoso memorando de entendimento assinado entre Estados Unidos e o Irão, que os Estados Unidos incumpriu imediatamente. Portanto, o Irão não confia nos Estados Unidos. O Churchill tinha uma frase maravilhosa sobre os Estados Unidos, dizia o seguinte: "Os Estados Unidos descobrem sempre a melhor solução depois de testarem todas as outras." E esta é a situação em que estão os Estados Unidos. Os Estados Unidos, não. Os Estados Unidos é um país admirável e maravilhoso e eu sou um incondicional admirador dos Estados Unidos. Agora, esta administração Trump, de fato, está a acelerar um processo histórico de degradação da potência hegemônica. Portanto, aquele mundo unipolar é um mundo que está a derreter-se diante dos nossos olhos, contemplando a impotência americana, a impotência militar, diante de um país que há décadas que é selvaticamente vítima de sanções. E nós no Ocidente temos ideias muito caricaturais sobre o Irão. Esta ideia de que é uma teocracia, mas não é uma teocracia como nós às vezes concebemos. Hoje o Irão é fundamentalmente um regime nacionalista. Qual é a mundividência dos iranianos? Não é que estão numa guerra santa contra o Satã americano. Os iranianos consideram que fomos humilhados e convertidos num satélite dos Estados Unidos nos anos do Xá. E a nossa revolução foi um levantamento nacional pela independência e pela recuperação de dignidade desta grande potência milenar que é a Pérsia. E o Irão hoje é, acima de tudo, um país nacionalista. É um país nacionalista. Toda a gente sabe que é um país que não tem uma compreensão dos direitos humanos como nós temos.

Está a ser simpático.

E a China tem?

Claro, com certeza.

Quer dizer, vamos continuar no Ocidente a bombardear os países que não têm uma forma de viver e não adotam as nossas regras e instituições. Só bombardeamos os que têm armamento nuclear.

Não, certo.

O Irão está a ser empurrado pro armamento nuclear.

Pra ser justo, no Irão havia a ameaça de o regime conseguir obter uma arma nuclear e há uma diferença grande do Irão em relação à China, que o Irão é um Estado Que provoca tumulto, que tenta provocar instabilidade em toda a região com os seus braços, com o Hezbollah, com os seus braços armados, as suas milícias, que ele apoia em todo lado e tenta desestabilizar.

É verdade, mas pela frente encontra a Madre Teresa de Calcutá chamada regime Netanyahu. São os pacifistas peripatéticos que circulam pela região com um braço ao pescoço, apelando à paz e à concórdia.

Em vez de irmos pra Israel, vamos sair daí, senão ficamos nisso até o fim.

O problema está muito relacionado com Israel.

Está totalmente, mas não queres falar do Canadá, esse país admirável. Não queres? Quero, é claro que quero.

Já reparaste que o Canadá ainda não decidiu se vende ou não vende alguma coisa ao Irão, ou se compra, não sei, e já está a levar com tarifas de 50%?

Sim, no Canadá as negociações comerciais também ruíram, segundo os canadianos, porque obviamente os americanos não são de confiança, começaram a introduzir exigências absurdas à última hora.

Eles são claramente feitos com os aiatolás.

Estás a imaginar o Carney. Mas o Wall Street Journal, que não é um jornal anti-Trump, pelo contrário, o Wall Street Journal chamou novamente esta guerra comercial de a guerra mais estúpida de sempre.

Mas como é que chegamos ao ponto em que para sermos rigorosos temos que utilizar este tipo de linguagem? Isto é uma estupidez. Mas como é que isso é possível?

Mas de facto o Wall Street Journal tem escrito de forma muito colorida sobre isto.

Um jornal contido e sóbrio.

Certo. E que defende uma série de políticas econômicas do Donald Trump, apoiou no início a guerra no Irão, apoiou a ação na Venezuela, só pras pessoas terem isto. Não estamos a falar de um jornal esquerdista e anti-Trump. E eles fizeram outro editorial que começava com: "Lá vai ele outra vez." A propósito disto do Canadá. Lá vai ele outra vez. E a explicar que uma das empresas mais afetadas por esta nova guerra comercial das tarifas é a Ford.

Pois é.

Que vai levar com um buraco.

É toda a indústria automóvel.

Toda a indústria automóvel. Eles apesar de tudo chamam a atenção pra uma coisa interessante, é que no que diz respeito a automóveis, partes de automóveis, etc, Donald Trump disse que as tarifas de 50% iam entrar em vigor em 1 de janeiro. Portanto, o que eles dizem é: dizer que é em 1 de janeiro é o mesmo que dizer nunca. De qualquer maneira, estamos outra vez nisto, como eles diriam.

O Canadá não pode depender economicamente, porque isso é uma ameaça à sua segurança nacional, não pode depender tanto do mercado americano. E, portanto, vai ter que diversificar mercados.

Tem vindo a fazer isso ao longo do último ano.

Tem vindo a fazer isso. O Canadá vai pagar um preço elevadíssimo por esta dificuldade em aceder ao mercado americano, e em não ceder a Trump. Eu devo dizer que tenho uma admiração gigante. Numa época de políticos tão...

Também és um seguidor do Carney, da igreja do Mark Carney.

Faço parte dessa seita. Tenho uma admiração pela contenção, pela elegância, pela frontalidade e pela força do Carney. Mas os Estados Unidos também vão ser altamente atingidos. Eu não tinha noção, mas fui ver, 68% do petróleo importado pelos Estados Unidos vem do Canadá. E sabes qual é a porcentagem do gás natural? 100%. Portanto, eu também não percebo, o norte americano altamente industrializado depende da eletricidade que vem do Canadá. Eu não sei o que o Trump tem na cabeça.

Aliás, o Wall Street Journal, só pra aproveitar isso que estás a dizer, dizia que se tu retirares a questão do petróleo, o déficit passa a excedente.

18 mil milhões.

Pronto, mas depois como é que é? Como é que a economia americana depois se safa sem o petróleo que vem do Canadá?

Não, é que se tu tirares da equação as importações de energia do Canadá, nas trocas, o Canadá é deficitário em 18 mil milhões. Portanto, vê-se logo que é um vencedor comercial que tem que ser posto na ordem.

Um explorador.

Um explorador da economia americana e um país parasita. É um país parasita que tem um déficit de 18 mil milhões, quando podia ter um déficit de 180 mil milhões, provavelmente, nas suas relações econômicas com seu gigantesco vizinho. Mas pronto, é o petróleo, é o gás, produtos refinados, eletricidade, automóveis e componentes, alumínio, aço, níquel, as famosas terras raras, que o Canadá pelos vistos também tem. São raras, mas de tempo em tempo descubrimos países que também têm. Mas quer dizer, e tudo isto pra quê? Num país que tem superávit comercial, exceto se introduzirmos a questão energética. E depois as outras coisas óbvias, quer dizer, as madeiras, a pasta do papel, tudo isso é Canadá. Portanto, ali funcionava um bloco econômico eficiente e mutuamente vantajoso. Pra que destruir isto? A única explicação é submissão e extorsão do Canadá. O Canadá não está disponível nem pra se submeter, nem pra ser extorquido.

Sim, é mais uma vez a visão do mundo do Trump, que o mundo é constituído de Estados satélite Dos Estados Unidos.

Subalternos?

Sim, senhor. Não é o mundo inteiro. Quero dividir isto por áreas de influência, mas pelo menos naquela área é uma série de Estados vassalos e que quem desafia os Estados Unidos paga um preço alto. De facto, as contas que ele não está a fazer é que cada um desses Estados há de começar a fazer por si. Um dos mercados que o Canadá tentou encontrar ao longo deste ano foi a China. Com certeza. E é uma lição que os americanos já aprenderam ao longo dos últimos anos. Viu-se isso repetidamente na Organização Mundial de Comércio, por exemplo, e noutras organizações, de que cada vez que os Estados Unidos abdicam de se sentar numa determinada cadeira, sentam-se lá os chineses. E os chineses vão tendo mais poder do que os americanos. E eu, que prefiro ter como potência hegemónica os Estados Unidos, apesar de tudo, do que a China, um mundo em que nós fiquemos dependentes da China, será um mundo seguramente muito mais horrível do que este, fico com pena e assustado.

Mas repara, Miguel, a linguagem. Para já podíamos acordar deixar de falar dos americanos, porque isto é tão injusto para com os Estados Unidos. Vamos falar do presidente Trump, assim como Israel, eu também gosto de falar do regime Netanyahu, não gosto de falar de Israel porque eu tenho uma simpatia.

Mas alguém votou nele.

E não é Netanyahu também está lá por obra e graça de Deus. Não.

Não, certo, claro.

Vamos falar dos governos e não dos países. Eu tenho uma admiração pelos Estados Unidos, o que seria de nós sem o que se passa no mundo. Se não fosse a liberdade daquele país as coisas que nós podemos ler, aprender, ouvir, o debate aberto, livre, informado, esclarecido, sem medo. Os Estados Unidos são realmente um país extraordinário.

Sem dúvida.

Vamos falar do presidente Trump. Eu acho que uma das coisas mais importantes-

Tens um minuto para falar do presidente Trump.

Está bem, chega. Nós temos que nos aguentar até acabar este mandato. Temos que nos aguentar. O mundo tem que se aguentar, o mundo tem que fazer um esforço para tentar sobreviver ao presidente Trump.

Estás a presumir que o presidente Trump é um acidente na história americana.

É um acidente. Não é um acidente e já podemos falar.

Não temos tempo.

Não é num minuto que vamos falar disto. Há razões. Ele é um sintoma e depois um dia falamos sobre isto, não é agora. A linguagem diplomática dos Estados Unidos e da China são completamente diferentes. Os Estados Unidos dizem, ou melhor, o presidente Trump: "Vamos reduzi-los ao Paleolítico, à Idade da Pedra. Depois de passarmos, vão estar todos a fazer gravuras do Goa lá em Teerão." Isto é o que diz os Estados Unidos. A linguagem chinesa não é assim. Os chineses disseram: "As sanções impostas ao Irão são ilícitas." Isto em linguagem de diplomacia chinesa, equivale a dizer: as sanções são criminosas, ilegais, um abuso, uma vergonha e um escândalo. Só que os chineses não falam assim. Eles disseram só: "As sanções são ilícitas." Isto para bom entendedor, meia palavra basta.

Olha, é uma pena termos que acabar agora, porque, como se costuma dizer, havia tanto a dizer, mas é mais uma razão para as pessoas voltarem na próxima quarta-feira, para mais um "Realpolitik".

Abençoadas pela paciência.

Já sabem, cá estamos na Rádio Observador e também em podcast. Podem encontrar-nos em todas as plataformas, é impressionante. Até para a semana, Sérgio.

Até para a semana.