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Portugal zero Colômbia zero, num jogo em que Portugal acabou por ser, não sei se concordas, Augusto Inácio, de alguma forma dominado pela Colômbia, sobretudo na segunda parte, mas na primeira parte também Portugal, recordo-me ali, sobretudo pelo lado direito, a sentir algumas dificuldades a travar as dinâmicas de jogo desta equipa da Colômbia.

Como equipa, durante o jogo todo, não só na primeira parte, a Colômbia demonstrou argumentos que Portugal nunca apresentou e pareceu-me uma equipa muito mais forte e aquela que tinha outra intencionalidade em relação a chegar à baliza adversária. Não estou a dizer com isto que Portugal não quis ganhar o jogo.

Pior do que não querer. Não querer até seria mais positivo, porque querer e não poder é que é mais complicado.

Sim, mas houve momentos em que podíamos ter dado mais alguma coisa e preferimos guardar a bola, jogar a bola pro lado, jogar a bola pra trás, o que permite ao adversário organizar-se e então as dificuldades depois de espaços são muito mais difíceis do que se tiveres a jogar contra seis adversários ou sete. Agora jogares contra 11, as coisas tornam-se muito mais difíceis. Foi sempre um Portugal lento, com poucas ideias e coxo defensivamente do lado esquerdo da nossa defesa, do ataque do lado direito da Colômbia. A Colômbia canalizou muito o jogo pro lado direito, porque Nuno Mendes ficou muitas vezes na dúvida entre acompanhar o extremo e não sabia se havia de marcar também o lateral direito que subia, já que o João Félix, porque não é a sua característica, não é essa, de acompanhar o lateral direito e a Colômbia viu ali a sua sorte e viu a forma de chegar ao sucesso. Muitas jogadas por ali, muitos cruzamentos perigosos, muitos passes para trás para o arremate enquadrado. Apareceu então um senhor que está na baliza, que chama-se Diogo Costa, que através dessas exibições que está a fazer no mundial, não sei se algum, como costumo dizer, algum tubarão possa olhar para ele.

O tubarão neste mundial tem sido Cabo Verde, a quem damos desde já os parabéns.

Sim, mas quando estou a falar de tubarão, estou a falar-

É um tubarão europeu

...não é isso. Os tubarões são os bichos que estão agora na moda. É Cabo Verde a apurar-se e é um tubarão, de certeza absoluta, desses que andam com aqueles olhares todos. Claro, aquelas pessoas que estão a olhar para o Diogo Costa têm que ter os bolsos cheios, porque de certeza que não se importam depois de pagar aquilo que tiverem que pagar para ter este guarda-redes. Mas diria que Portugal valeu-se muito do guarda-redes e valeu-se muito também, por que não dizê-lo, dos centrais portugueses. Rúben Dias e Renato Veiga fizeram realmente um excelente jogo. Luís Díaz, da Colômbia, não se sobressaíu naquele seu jogo que ele tanto gosta de fazer de um contra um, porque esteve sempre muito bem marcado, porque estava ali o apoio do Pedro Neto em relação à subida do lateral e obrigava o Luís Díaz a fazer passes mais pro interior e mais pra trás. Nunca chegou à linha pra fazer um cruzamento, nunca fez um contra um pra entrar dentro da área. Esteve sempre muito bem marcado e isso aí é mérito da equipa portuguesa, mas faltou o outro lado, fazer a mesma coisa. E depois Portugal teve aquele defeito que já tinha tido com a República do Congo, que quando tinha a oportunidade de acelerar o jogo, ou porque não podia, ou porque era estratégia, o que é certo é que Portugal nunca chegou lá. Houve ali momento, cinco, 10, talvez 12 minutos.

Constatou alguns lances de perigo. Uma grande defesa do guarda-redes a um remate de Bruno Fernandes. Houve também aquele lance materno de João Félix, que aproveitou o erro do defesa da Colômbia para andar pra cima.

E aquele arremate fora da área do Rúben Neves.

É verdade. Foi talvez a altura mais perigosa de Portugal.

Esse foi o momento de Portugal em que realmente parecia que estava a acordar pra alguma coisa, mas a segunda parte não veio dizer nada disso, porque a Colômbia, além de ter as melhores oportunidades, teve sempre vários jogadores, não um, nem dois, nem três, mas quatro, a arrematar de fora da área e com algum perigo, porque se não ia numa maneira, tinha que entrar numa outra. Mas à medida que o jogo estava a avançar, claro que eu estava aqui a torcer pra Portugal ganhar, como é evidente, e vocês veem as minhas reações aqui. As pessoas que estão lá em casa ouvem, mas não veem. A minha vontade era partir os ecrãs que estavam aqui à frente.

Eu acho que nós temos que pedir ao vídeo que o Ricardo Pereira que tem feito aqui o acompanhamento com a voz dos jogos, tem sido filmado. Eu acho que nós podíamos também pedir pra filmar o Augusto Inácio, porque às vezes eu até me senti um jogador aqui no banco, parece que está a entrar com o treinador ao lado.

Olha, mas sabes que quando eu comecei a perceber o final dos outros resultados, o do Gana e da Inglaterra, eu disse cá pra mim, aliás, disse isso em direto aqui no Observador: "Oxalá que Portugal fique no segundo lugar", porque eu, pessoalmente, queria mais que Portugal jogasse contra a Croácia do que jogasse contra o Gana.

Mas por que é mais fácil, na tua opinião, ou por que é mais desafiante e interessante o jogo?

Não, porque eu acho que em termos físicos vamos igualar a Croácia, que também é um país europeu. Dá-me a sensação que o Gana tem muita força física, tem uma boa organização e são muito rápidos. Acho que ia criar muito mais problemas a nós. Agora, podes dizer assim, por exemplo, perde com a Colômbia, perde com a Croácia. E tu diz assim: "Ó Inácio, então tu querias a Croácia?" Pois, mas o falar antes é que se mostra, entre aspas, a coragem. O falar antes. Mas não interessa. Mas isso é uma opinião pessoal. O que interessa aqui é falar do jogo de hoje e o jogo de hoje, sinceramente, deixou-me muito, mas mesmo muito preocupado, até porque Portugal também deu uma sensação que não fez tudo para ganhar o jogo.

E sobretudo pelas opções do treinador, que numa altura do jogo em que poderia ter puxado para tentar fazer o gol da vitória, acabou por começar, de alguma forma, a tomar opções defensivas. Tirou o Vitinha para lançar Samu Costa, colocou Matheus Nunes lateral, essa nova função que assumiu no Manchester City. Optou claramente por tentar segurar o empate

Eu acho que se ele quisesse ou pensasse em ganhar mesmo o jogo, não era aquelas as substituições que devia fazer. Embora o Matheus Nunes tivesse entrado, no momento talvez tivesse um problema físico. Matheus Nunes passou para a direita e o Dalot passou para a esquerda. Mas eu diria que uma equipa que quer ganhar, um treinador que quer ganhar, tem que colocar mais avançados frescos e ampliar o jogo, dar largura e, porque não, mais postura. Diria eu que Chico Conceição poderia ter entrado.

Sentimos todos falta, sobretudo pelas duas intervenções que teve nos últimos jogos.

Trincão, também não sei, não podem entrar todos, como é evidente, mas claro que na frente de ataque eu vi o Cristiano Ronaldo muito mais cansado e desgastado. Gonçalo Ramos, por que o Gonçalo Ramos também não devia ter a sua oportunidade? Só porque estava zero a zero? Não sei. Mas de qualquer maneira, é aquilo que eu penso que podia ter sido feito. O selecionador é que sabe, mas fico muito preocupado quando ele diz que destes jogos dá para aprender.

Dá para aprender como não voltar a jogar.

Nós já estamos na universidade, não estamos na primária, por isso não sei o que é que vai acontecer no jogo com a Croácia.

Antes de irmos ao melhor e ao pior, Portugal passou minutos de aperto no final, sobretudo com a pressão e a tentativa da equipa da Colômbia de chegar ao gol. Muitos remates de meia distância, sem medo de usar a meia distância, os colombianos. Boas intervenções de Diogo Costa, um gol que chegou a ser marcado e que foi anulado, e vou roubar aqui mais uma vez a expressão ao Ricardo Loureiro, porque o jogador da Colômbia tinha, na verdade, calçado os sapatos do Palhaço Rico. Foi mesmo a ponta da bota que determinou esse fora de jogo. Foi mesmo por unha negra que Portugal não perdeu este jogo.

Olha, ainda há quem disse, e vou repetir porque gosto desta expressão: a culpa do jogador colombiano estar fora de jogo é do pai e da mãe, porque ele devia ter calçado o 40 e não o 43.

Ele parece que manda fazer as chuteiras especiais.

As chuteiras, é isso. Portugal salvou-se aí, é verdade, mas independentemente desse lance, sinceramente, eu acho que Portugal merecia ter perdido. Acho que a Colômbia merecia ter ganho, porque foi a melhor equipa, teve mais oportunidades, esteve a rondar mais perto da baliza e, sinceramente, a postura também da equipa. Eu não estou a criticar os jogadores, atenção, estou a dizer a postura, e quando digo a postura, é a forma tática como a equipa estava. Deu uma sensação que depois das substituições, Portugal ficou, desculpem esta expressão, mais abandonado no campo e à procura de não sofrer gols do que mais a marcar.

E a verdade é que, Augusto Inácio, temos de saber o que foi para ti, na tua opinião, e vamos começar pelo pior hoje. O que foi o pior esta noite no Hard Rock Stadium, em Miami?

Foi realmente a preocupação com que Portugal deixou os portugueses, e deixou-me a mim também. Pouca profundidade, pouca objetividade para o gol, pouca aceleração, pouca intencionalidade de pressionar mais alto. A condição física dos jogadores, que pareceu-me ali os jogadores, está bem que estavam muito hidratados, mas vi os jogadores muito desgastados em relação àquilo que podia ser a produção de jogo e talvez por isso não houvesse realmente mais acelerações. O Bruno Fernandes passou ao lado do jogo. Sinceramente, acho que podia dar mais qualquer coisa.

Foi dele o remate mais perigoso de Portugal, ainda assim.

Mas às vezes os sistemas não beneficiam os jogadores. Diria que o nosso lado esquerdo defensivo muito mal tapado e que cria muitas preocupações. E acho que Portugal voltou a estar na minha mira de preocupação. E lembro-me do primeiro jogo. O segundo é que eu gostava de ver Portugal, mas estamos a jogar não é com o Paquistão, estamos a jogar com a Colômbia. E a ideia não foi essa. Vamos ver que Portugal é que vamos ter. Sinceramente, neste momento, estou na dúvida se Portugal pode chegar mais longe.

E a verdade é que o pior poderá ter sido essa intervenção de Portugal e se Portugal sai um pouco mal na fotografia neste encontro, a Liga Portuguesa até se glorificou um pouco, porque depois da entrada de Ricardo Rios, do Benfica, e também de Luís Soares, do Sporting, a Colômbia, por intermédio destes dois jogadores, acabou por criar boas situações.

Foi melhor eles não marcarem gols senão não entravam mais.

É verdade.

O passe para o outro ficava cancelado.

Exatamente. Vamos ao melhor desta noite, na tua opinião, Augusto Inácio.

O melhor, sinceramente, eu tenho que destacar sempre o Diogo Costa, foi realmente o melhor jogador em campo. Quando o guarda-redes é o melhor jogador em campo, é porque houve qualquer coisa. É porque o adversário foi melhor, teve mais oportunidades, teve mais remates e o guarda-redes sobressaiu. É verdade que está lá para isso. Toda a gente diz assim: "Mas o guarda-redes está ali é para quê? Não é para defender?" É para defender, mas defender tantos remates é porque houve qualquer coisa que não correu bem. E os centrais portugueses, acho que o Renato Veiga fez um excelente jogo. O Rúben Dias dá uma grande segurança e é o líder daquela defesa. E depois, claro, começas a olhar para tudo isto. Aos adeptos portugueses, continuam a acreditar e eu também. Somos resilientes e vamos com toda a fé e força de que no próximo jogo nós vamos ganhar à Croácia. Força Portugal, vamos lá.

Se isto for assim, empate, se obedecermos à regra, se tivermos aqui um padrão, depois de um empate vem um cinco a zero, ou qualquer coisa assim. Pode ser que sim.

Não, para mim basta-me só um a zero, que já fico tão contente.

Augusto Inácio, está feita a entrega do relatório de jogo deste Portugal zero, Colômbia também zero. Colômbia termina no primeiro lugar do grupo com sete pontos e vai jogar frente ao Gana. Portugal fica em segundo com cinco pontos e vai encontrar a equipa da Croácia no próximo dia três, logo à meia-noite, em Toronto, no Canadá. Um grande abraço.

Um abraço.