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Pedro, bom dia. Obrigado por esta disponibilidade. No teatro, nos palcos, o que deixa e o que fica de Eunice Muñoz?

Deixa-nos tudo, fica tudo. A Eunice era a coluna do teatro português. Eu lembro-me de vê-la num espetáculo no Teatro Nacional, que muito me impressionou. Chamava-se "A Viagem para Meca". De ser ainda jovem e de ficar impressionado com aquela força, com aquela vitalidade. E depois de ver num espetáculo do Teatro Aberto, onde justamente ela fazia a voz de uma coluna que estava no centro do palco e essa imagem ficou para sempre colada à imagem da Eunice, essa ideia de centralidade e de sustentação do teatro em Portugal. A Eunice estreou-se com 14 anos no palco do Teatro Nacional, no dia 28 de novembro de 1941. E o ano passado, nesse mesmo dia, 28 de novembro, despediu-se dos palcos no mesmo teatro, na Casa de Garret. E foi um privilégio enorme poder estar nesse dia com ela, que estava feliz. O teatro abanava quando a Eunice chegava, as pessoas mudavam de atitude, havia um burburinho nos corredores. Toda a atividade do teatro parecia que se mexia quando a Eunice se aproximava. E isso é uma razão de perceber que a história daquele teatro se confunde também com a história da Eunice. Portanto, isso é uma perda irreparável. E quero mandar também daqui os meus pêsames a toda a família da Eunice, ao filho António, à neta Lídia, sobretudo, porque são as pessoas com quem estive em mais contacto. E todos os portugueses hoje têm motivos para se sentirem muito tristes.

Pedro Pinho, diretor do Teatro Nacional Dona Maria II. Nesse último espetáculo de Eunice Muñoz, nessa última subida ao palco, falou com ela? Ela disse-lhe alguma coisa especial sobre essa despedida, sobre essa saída?

Disse-me que estava muito feliz. Ficou a olhar muito tempo para o palco, para a plateia. Esteve a fazer um reconhecimento do palco em silêncio. Toda a gente também do teatro em silêncio, a olhar para ela, as pessoas da sua equipa a guiá-la pelo palco. E foi um momento muito cerimonial e muito bonito, quase como se fosse esse regresso a um sítio onde se pertence. E parecia que o próprio teatro se tinha silenciado para receber a Dona Eunice naquele palco. Depois, durante a cerimônia, percebi que ela estava muito contente. Nós fizemos uma recolha bastante exaustiva no nosso arquivo de fotografias de espetáculos que tinham passado pelo teatro e outros que temos na nossa posse. E ela ficou a olhar muito tempo para essa sequência de imagens e para os momentos brilhantes da sua carreira. E depois foi também recebendo algumas pessoas no seu camarim, como era hábito, e percebia-se que estava muito feliz. Acabamos por lhe oferecer, enfim, um presente simbólico, uma imagem, uma fotografia desse seu momento de estreia da peça "O Vendaval", e que ela depois levou para a sua casa.

Pedro, chegou a trabalhar alguma vez diretamente com ela ou não?

Não, nunca tive essa sorte, mas acho que quase todos os atores portugueses e encenadores sentem que, mesmo se não trabalharam diretamente com a Eunice, que a Eunice esteve em todos os seus processos, porque é uma influência tão avassaladora que há essa sensação de maternidade em relação à sua figura. Portanto, mesmo não tendo trabalhado diretamente em nenhum espetáculo, nenhum programa de televisão, nenhuma série, tenho a certeza que os nossos caminhos profissionais se cruzaram por essa questão dessa influência tão basilar.

Pedro, eu sei que ainda é cedo e estamos muito em cima ainda do que aconteceu. Como diretor do Teatro Nacional Dona Maria II, com o desaparecimento agora de Eunice Muñoz, vai haver alguma homenagem? Já pensou em alguma coisa que possa vir a ser feita nos próximos dias em relação a Eunice Muñoz?

Vão ser feitas, certamente, muitas ações, muitos momentos de homenagem à Eunice. De facto, ainda é muito cedo para estar a adiantar o que pode ou será feito, mas o Teatro Nacional Dona Maria II era, é e sempre será a casa da Eunice, portanto, não ficará por assinalar esta data triste.