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A Fernanda Lapa, para além de ser uma mulher, o que é bastante raro no panorama teatral português, posso dizer que foi uma das primeiras mulheres, enquanto grande encenadora de teatro e encenadora de teatro contemporânea. Foi uma pessoa sempre muito generosa, que atravessou vários tipos de teatro, estudou no estrangeiro e conseguiu trazer muitas coisas para Portugal que não existiam. Sempre partilhou os seus conhecimentos com toda a gente e investiu em pessoas novas. Por exemplo, em relação a mim, foi das primeiras pessoas que me contratou para trabalhar, ainda por cima num espetáculo no Teatro Nacional, e eu sabia muito pouco de teatro. Ela sempre foi partilhando e investindo nas pessoas, quer conhecesse, fosse amiga ou não fosse amiga, e aprestando o seu conhecimento, toda a sua dádiva. Era antiespecista, levava as suas cadelas para todos os teatros ou para os espaços onde tinha de trabalhar, dando-lhes a mesma dignidade que dava a um ser humano. Foi uma figura ímpar e muito importante no teatro em Portugal. Para além disso, como também fazia muito televisão e era uma atriz muito conhecida, era muito ativista na reivindicação dos direitos em relação às artistas, à dignidade dos artistas, aos seus estatutos enquanto artista, ao investimento na arte. Estou meio chocado, porque acabei de saber a notícia ainda há pouco e estava a tentar falar com a Marta. Era uma pessoa fundamental no panorama, que estava cheia de projetos, ainda por cima, porque agora estava a celebrar, mais uma vez, dentro daquilo que são os seus interesses, um autor marginalizado ao longo da história, que foi o Fernando Santos Graça. O seu interesse foi sempre por linguagens diferentes, artistas diferentes, um tipo de teatro diferente, não necessariamente o que já existia na altura, que era um teatro comercial, que ela também fez, ou um teatro maioritariamente só de texto, sem a intervenção do autor. Era uma grande encenadora que lutou contra um grande mar de homens encenadores para marcar o seu nome e fez uma companhia chamada Escola de Mulheres. O seu legado é imenso. Várias pessoas, várias gerações foram influenciadas e trabalharam com a Fernanda Lapa. Não há quem possa fazer teatro sem fazer teatro com coisas que aprendeu com Fernanda. Mesmo que não diga diretamente, está escrito nos seus corpos, na sua maneira de dizer textos, na sua maneira de pensar os espetáculos.