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Neste jornal temos a oportunidade de conversar precisamente com Israel Pontes, membro do Chega. Junta-se a nós neste jornal. Participou nesta eleição de 2023, liderava a lista C, ficou em terceiro lugar nesta votação. Israel Pontes, bom dia. Tem conhecimento de algum tipo de inscrição que tenha sido feita por Rui Afonso em torno dessa eleição de 2023?
Muito bom dia, Miguel. Agradeço desde já o convite. Eu vou responder já a sua questão. Eu tenho conhecimento desde o dia, pois eu estive o dia todo. Desde o início do ato eleitoral até ao último segundo do ato eleitoral, eu estive presente no espaço onde foram as eleições, que foi a sede distrital. E realmente, o que eu me apercebi no dia, sendo eu uma pessoa que estou no partido desde o dia um e que conheço integralmente todos os militantes do partido Chega, na altura, atualmente já não, mas na altura conhecia toda a gente, achei extremamente estranho e desagradável até, aparecer pessoas lá vindas do nada, sem qualquer ligação ao partido, pessoas que nem sequer sabiam em que lista vinham votar, nem sequer conheciam o nome das pessoas, nem os programas, eram apenas e só pessoas que foram lá com o propósito único que foi votar na lista de Rui Afonso. E eu acabei por interpelar algumas, até, na longa fila que se fez, que por acaso apesar de ser no terceiro andar, estava até cá embaixo, havia bastantes pessoas. E reparei que as pessoas estavam ali super perdidas, não vinham em grupo, vinham isoladas e realmente achei aquilo demasiado estranho desde o primeiro dia. Depois acabamos por perceber, nós tínhamos os cadernos eleitorais e acabamos por perceber que 32% de todas as pessoas que votaram eram militantes inscritos há dias. Na altura, houve alguma confusão entre a Comissão Política Distrital e entre a Mesa Distrital, entre a Mesa Nacional. Foram marcadas duas datas para eleições. Foi tudo muito estranho e feito à moda de Rui Afonso. O mesmo já na altura compunha o grupo parlamentar do Chega, portanto, tinha acesso a ferramentas que nós nem sequer conhecíamos. E foi tudo feito de forma a elegê-lo, sendo que ele pelos militantes nunca em tempo algum iria ser eleito, porque é uma pessoa com uma conotação depreciativa. Não há absolutamente ninguém, a não ser ele próprio, que goste dele. Portanto, ele teve realmente que se munir de algumas ferramentas, de algumas armas e boicotar aquele ato eleitoral. Obviamente que nós nunca achamos ser possível, porque tínhamos a massa, a militância mesmo toda do nosso lado. Eu na altura, a minha proposta para vice-presidentes era o antigo presidente da Comissão Política Distrital do Porto, o partido Chega, o doutor José Lourenço, e o meu segundo vice-presidente era o doutor Aníbal Pinto. Quer dizer, pessoas com uma ligação à cidade, uma coisa que não é calculável.
Israel Pontes ficou em terceiro nesta votação. Não queria entrar aqui na parte da força de cada uma das listas, percebendo que isso importa, mas se teve esse conhecimento na altura ou estranhou essa situação na altura, fez algo com essa estranheza? Reportou algo às autoridades? Reportou algo à direção do partido?
Eu, para já, reportei, neste caso, à Direção Nacional, como é óbvio, e reportei à pessoa que estava e atualmente também deputado da nação, o João Aleixo. Eu reportei a situação, mas realmente não havia prova dos factos. Porque obviamente qualquer pessoa do dia para a noite se pode inscrever. O Miguel, se daqui a dois minutos quiser inscrever no partido Chega, entra no portal, inscreve-se e passado cinco minutos é militante. Não havia forma de provar de onde vinham essas pessoas. Obviamente que agora, quando uma pessoa da própria Comissão Política Distrital, que é o caso do senhor Artur Carvalho, vem a público explicar o que foi feito, quer dizer, isto é uma prova cabal realmente do complô que foi criado e também do Tirso Faria, pessoa que eu conheço e respeito, também fazendo parte do grupo 1143, também identifica o modus operandi. Infelizmente, já passou demasiado tempo. O mandato também terminaria e provavelmente não vai acontecer. Vai haver aqui uma infinidade de situações que vão prolongar o mandato deste atual presidente distrital, mas o mandato, para todos os efeitos, termina agora em setembro de 2026 e realmente todo o mal que já foi feito ao partido e ao distrito, já foi feito nestes dois últimos dois anos e meio. Na altura, não havia realmente forma de provar cabalmente o que tinha acontecido. Eram tudo suposições e realmente só agora é que ficou, ao abrigo também desta operação da Polícia Judiciária, da Irmandade, e neste momento há muita informação que está nos telemóveis que foram apreendidos e a Polícia Judiciária neste momento sabe de tudo o que se passou e as provas estão realmente nas mãos das entidades competentes e espero realmente que algo seja feito ou da parte da Direção Nacional ou da parte da Polícia Judiciária.
Queria ir para esse sentido, Israel Pontes. No passado, já disse que parte da Direção Nacional do Chega apoiava Rui Afonso. Queria perceber se acredita que alguém da direção poderia saber desta situação.
Olhe, eu acho que ninguém da Direção Nacional apoia o Rui Afonso. Neste caso, dentro do grupo parlamentar, o grupo do Porto, aliás, eu até tenho também alguma pena de serem considerados, mas são considerados o grupo dos farolhos, é assim que lhes chamam, e é um grupo que anda lá à margem de todo o grupo parlamentar. Não há ninguém, absolutamente ninguém no grupo parlamentar ou na direção nacional que apoie o Rui Afonso. Eu, infelizmente ou felizmente, tive a ocasião de falar pessoalmente com o André Ventura sobre a situação do Porto, sobre esta metástase que estava aqui a acontecer no Porto. Isto é um problema oncológico grave. E o André a única coisa que me disse por duas vezes, e com toda a razão, perguntou-me: "Quem é que ganhou as eleições na distrital do Porto? Não foi o Rui Afonso?" E eu: "Exatamente, foi." Pronto, então É ele que tem a legitimidade para operar e fazer o que achar bem pelo distrito.
Isso foi o que disse André Ventura?
Sim. André Ventura disse-me isso por duas vezes. Eu falei com ele por duas vezes sobre este tema e ele disse: "Mas repare, faz todo sentido." Para o presidente de um partido, obviamente, ele apenas quer saber quem foi o eleito, se foi eleito com os votos de 1143 ou se foi eleito com os votos dos militantes. Isso para ele. Obviamente, ele não irá estar em todos os concelhos, em todos os distritos.
Para perceber, Israel, quando conversou com André Ventura, não foi uma conversa sobre o possível pagamento de um dos candidatos a militantes, pagamento de quotas e pagamento de quantias para que fossem votar, não foi sobre isso que falou com André Ventura?
Não foi sobre isso, foi só da má conduta que nós temos observado nos últimos tempos. Eu sou da opinião que um presidente de uma distrital nunca pode estar com um assento parlamentar porque descura a sua função de presidente distrital. E também tenho a ideia, e ninguém me consegue tirar, que realmente uma pessoa que seja presidente de uma distrital como a do Porto, tem que estar presente, tem que dar a cara, não pode desaparecer, fazer de conta, deixar que há um indivíduo que é o vice-presidente com apresentações semanais na GNR, um grupo de bandidos a liderar uma comissão política como a distrital do Porto. E depois, obviamente, com os resultados execráveis que temos tido aqui no Porto. É vergonhoso, é sempre o pior conselho nacional em termos de votações, ainda agora nas presidenciais. Se quiserem ver os números, realmente o Porto como conselho e também como distrito são sempre os piores resultados. E realmente foi tomado pelo sindicato do crime, é assim que eu costumo apelidar. E era nesse sentido que eu preveni André Ventura, não do resultado em si, porque contra factos não há argumentos, os votos são números, portanto, a matemática é uma ciência precisa. Realmente ele ganhou. A legitimidade, realmente, pelos vistos, não foi grande, mas ganhou em termos matemáticos.
Só para terminar, Israel, estamos a chegar mesmo ao final do nosso tempo e eu queria perceber o que é que espera que possa acontecer. Isso vai fazer também algo perante esta informação, principalmente a nível de autoridades. Sabemos que há o caminho do partido, mas há o caminho da justiça também.
Sim, mas olha, eu confesso que já liguei ao meu advogado, eu liguei ainda há bocadinho ao meu advogado, estive a trocar algumas impressões com ele sobre este tema. Não há qualquer hipótese de impugnação, porque a impugnação tinha que ser feito de acordo com os estatutos do partido e com a lei geral dos partidos também. Tinha que ser 10 dias após o ato eleitoral, portanto, já passaram dois anos e meio. Eu só espero que realmente, internamente e de uma vez por todas, alguém resolva o problema do Porto, porque o Chega sem o Porto nunca irá conseguir ter a dimensão pretendida, nunca irá conseguir ser governo, nunca irá conseguir criar uma linha orientadora, porque o Porto é sempre o filho pobre, o filho bastardo, e nunca faz parte da solução. Portanto, a única coisa que espero, e estou completamente solidário com a direção nacional, é que a própria direção nacional retire o apoio político, neste caso, a Rui Afonso. Obviamente que a nível parlamentar, ele irá ter que se manter lá, porque também foi eleito, mas a nível distrital e a direção nacional pode perfeitamente obrigá-lo, neste caso, a prescindir desta posição que ocupa e convocar novas eleições para o Porto, que é realmente isso que o Porto precisa.