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Agora temos ao telefone connosco o Francisco José Viegas. Bom dia, obrigado por se juntar também a nós. Francisco, o que é que nos pode recordar deste escritor, que é um nome maior, sem dúvida, da literatura portuguesa?
Recordar é aquilo que toda a gente recorda, além das conversas, das amizades, além das relações pessoais. Aquilo que se recorda é a passagem de um homem que nos anos 70 era completamente desconhecido, que foi o autor da "Mora de Alfante" e dos "Curros de Judas" e da "Explicação dos Pássaros". Esses dois primeiros livros são marcantes, que vêm da guerra, é uma espécie de apogeu da literatura de guerra e depois, a partir do "Auto dos Danados" e do "Fado Alexandrino" e das "Naus", há uma espécie de regresso definitivo ao pequeno Portugal. E é sobre isso que António Lobo Antunes escreve, sobre nós, sobre os poderosos, sobre os esquecidos, sobre os estranhos. Há uma obra particularmente importante onde ele mistura tudo isso, que é o "Manual dos Inquisidores", um dos seus grandes livros. E ele faz isso acompanhando também essa obra de ficção, que na verdade é das mais influentes da literatura portuguesa posterior. Nós usamos muito aquela expressão: "Fulano escreve à Lobo Antunes", porque de facto foi um dos autores mais marcantes, mais influentes. E ser um autor influente da forma que ele foi, dá a ideia da importância que ele tem para a nossa literatura. Mas à parte disso, ele era um grande cronista, um cronista mais ou menos da memória e do quotidiano. Isso fez dele também uma presença muito marcante nas nossas vidas, porque falava de nós. Isso era muito importante, criando uma coisa muito original a que nós provavelmente não somos muito sensíveis, mas era uma espécie de contaminação da ficção pela linguagem poética. E isso foi muito marcante, quase todos os títulos dele a certa altura eram versos de grandes poetas. E essa contaminação é outra das marcas muito importantes desse legado do António Lobo Antunes. Eu recordo no final, não há final para uma obra destas, para um homem destes, mas recordo um certo ar entenebrecido diante das coisas. Isso é uma das coisas que eu de certeza vou recordar sempre, que apesar de ter sido um homem muito aguerrido, polémico, controverso, eu recordo esse ar entenebrecido do António nos últimos anos e era essa a imagem que eu também gostava de levar.
Tinha uma linguagem muito própria, António Lobo Antunes.
Sim. Os grandes autores são aqueles que não só têm uma linguagem própria, como ainda por cima são, como eu disse há pouco, muito influentes. A influência é uma espécie de craveira com que se analisam as obras dos autores. E à parte de José Saramago, que também recriou a língua portuguesa, a língua do romance português, António Lobo Antunes, na verdade, reinventou essa dimensão poética da ficção. Se nós imaginarmos alguns títulos de livros dele: "Os Cavalos que Fazem Sombra no Mar", "Não Entres por Essa Noite Tão Escura", "Sobre os Rios que Vão", etc. São versos. E essa contaminação foi muito corajosa da parte dele, porque ele começa justamente com literatura de guerra, começa com uma literatura muito mais agressiva, crua, ligada também à memória recente da guerra. E depois, todo o retrato que ele faz, o retrato das grandes figuras do regime, outra figura que aparece em muitos romances, como numa das suas obras-primas, que é o "Manual dos Inquisidores", até ao pequeno Portugal de bairro, ao pequeno Portugal da vizinhança. António Lobo Antunes emprestou-lhes uma dimensão poética a todos esses personagens. Eles são feios, maus, etc., mas eu gosto deles. Essa capacidade de se entenebrecer na ficção de Lobo Antunes, a mim, particularmente, conduzia-me, porque era uma dimensão nova. Tal como há outros autores que vão criando rupturas. O José Saramago criou, o António Lobo Antunes criou, provavelmente aqui há dois ou três anos, o Gonçalo M. Tavares criou, o Bruno Vieira Amaral criou. São rupturas nas funções e inovações que hão de ficar para a literatura portuguesa.
António Lobo Antunes recebeu alguns prêmios durante a sua carreira, nomeadamente o Prémio Camões. Ficou a faltar o Prémio Nobel.
Eu não sei se falta o Prémio Nobel, a certa altura faltava o Prémio Nobel, mas o Prémio Nobel é uma coisa que a certa altura deixa de faltar. É óbvio que se falava muito nisso. Piqueria com o José Saramago. Eu pessoalmente acho que era uma picardia literária importante, na medida em que sem picardias, sem pequenas controvérsias, polêmicas, não vale a pena viver. E a certa altura, eu acho que o prêmio deixou de interessar. Deixou de interessar não porque fosse mais distante, mas porque era uma coisa que já não tinha interesse. O António Lobo Antunes era e é dos autores portugueses mais lidos no estrangeiro, era colunista dos grandes jornais, é um homem respeitadíssimo, era uma voz respeitadíssima de Portugal e da nossa língua. E, portanto, a certa altura deixou de interessar. Eu acho que a partir de meados dos anos 2000, deixou de ter qualquer interesse. Ele escrevia obsessivamente. Se nós formos ver, a partir de 2001, 2002, ele escrevia um livro todos os anos. Eu me lembro que uma vez fui à casa dele, iria sair um livro no mês seguinte e ele me mostra dois grandes volumes de papel, porque ele escrevia à mão, e disse: "Bom, estes são os meus dois próximos livros, já estão prontos". Isto é de uma grande violência. Violência porque era o seu caráter obsessivo, a obsessão com sua obra, com seus livros, com seus romances. Ele vivia exatamente para isso. Isso era uma coisa muito respeitável no António Lobo Antunes, porque a certa altura ele vivia para dentro e para isso. Vivia para os seus livros e escrevia todos os dias, escrevia obsessivamente à mão e, como eu disse, é assim que eu gostava de o recordar