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É nosso convidado nesta edição do Meio-Dia, o antigo piloto da TAP, José Correia Guedes. Boa tarde, bem-vindo e obrigado pela disponibilidade.

Olá, boa tarde.

Surpreendido com este acidente, com a forma como se deu este acidente?

Muito surpreendido, principalmente por, do lado do avião comercial, o Airbus 350, não haver vítimas, mas já lá iremos. Portanto, o que é que está aqui perante nós? É um acidente grave, muito grave, ocorrido num dos aeroportos com maior atividade em todo o planeta, com aviões a partirem e a chegarem a todo o instante. Parece já ser evidente que houve uma colisão na pista. Há dois aviões que colidem na pista, isto não pode acontecer.

É normal isto acontecer? Sim, era isso que ia perguntar. É normal?

Não é absolutamente nada normal. É completamente anormal, porque dois aviões não podem estar na pista. A torre de controle que autoriza as descolagens e aterragens, quando dá uma ordem para aterrar, as ordens são dadas em inglês, ela diz para o avião: "You are clear to land". Isto quer dizer, está livre para aterrar. E o clear quer dizer limpo, a pista está limpa, não há nada, não há nenhum avião, não há nenhum automóvel, não há nada na pista que possa, eventualmente, provocar uma colisão com o avião que vai aterrar. O avião que vai aterrar vem a 250, 300 km/h e é uma massa gigantesca de 100, 150, 200 toneladas. Isso parece-me evidente. Aliás, pelas imagens que vimos, há uma colisão, portanto, o avião que vinha aterrar colidiu com o avião que estava na pista preparado para descolar. Depois, o avião comercial, o Airbus A350, sai da pista, imobiliza-se. Eu não lhe chamaria um milagre, eu chamaria um monumento de profissionalismo, quer por parte dos pilotos, mas principalmente do pessoal de cabine deste avião da Japan Airlines e até dos passageiros. Eles conseguem pôr toda a gente cá fora em segundos. São 379 passageiros e tripulantes. Isto não é brincadeira, garanto, andei lá há muitos anos. E em circunstâncias extremamente difíceis, porque quando o avião se imobiliza, já está em fogo. É noite, há fumo dentro da cabine, não há luzes, as luzes do avião extinguem-se quando os motores são parados, que a primeira coisa que os pilotos fazem é cortar os motores, ficam só as luzes de emergência alimentadas pela bateria do avião. Portanto, as condições de evacuação são extremamente difíceis. Eu vejo aqui um lado positivo. Vejo vários lados positivos. Antes de mais, o profissionalismo da tripulação, acima de tudo. Depois, vejo outro lado positivo, que é a disciplina dos passageiros. Estamos a falar de passageiros japoneses, que são organizados, disciplinados. Eu vi algumas imagens do interior, não vi uma coisa que infelizmente se vê muito hoje no Ocidente, em evacuações deste tipo ou outras mais benignas, que é os passageiros a saírem do avião com a respetiva bagagem. Vão às bagageiras, tiram a bagagem e com isso complicam a saída dos outros. Aqui há uma saída organizada e só assim se entende que não tenha havido vítimas mortais no avião comercial. Sabemos agora que há vítimas mortais no avião militar, porque é disso que se trata. É uma versão militar de um avião civil, é um avião de razoáveis dimensões, relativamente grande, é um avião de passageiros transformado numa versão militar. O que é que terá acontecido? Não sabemos, só podemos especular, mas parece-me razoavelmente óbvio que houve aqui um erro humano ou de parte do controlador de tráfego aéreo, que é o mais provável. Não vamos julgá-lo já, porque pode ter havido outros erros. Mas é o mais provável, ou até da parte dos pilotos, que eu acho menos provável. O que é que vai acontecer agora? Vai ser feita uma investigação. As autoridades locais vão dirigir essa investigação e penso que as primeiras coisas que irão fazer é ouvir o gravador, quer da torre de controle, porque todas as instruções da torre de controle ficam gravadas, quer das comunicações com os pilotos, quer das comunicações dos pilotos entre si, porque em cada avião existe um gravador de voz instalado no cockpit, que também vai dar uma ideia, vai contribuir muito para saber o que se passou. Felizmente, os pilotos estão vivos, que é uma coisa que tragicamente é raro acontecer, mas neste caso, os pilotos estão vivos, aliás, como todos os ocupantes do avião. Portanto, eles serão as testemunhas preferenciais deste caso, serão ouvidos imediatamente e irão contar o que se passou.

Seu comandante, já se percebeu qual era o posicionamento do avião que estava na pista no momento da aterragem do Airbus, em que posição da pista é que estava esse mesmo avião?

Por aquilo que podemos ver no vídeo, ele estaria na posição de descolagem, já teria entrado na pista. Agora, não poderia estar ali. Se o avião comercial, se o Airbus já tinha autorização para aterrar, o outro não podia ter entrado na pista, mas nós não sabemos o que é que aconteceu. Poderá até dar-se o caso do avião comercial não ter tido autorização para aterrar. Não sabemos. Vamos saber mais tarde. O que eu queria sublinhar aqui também é que este aeroporto tem muito tráfego, tem várias pistas a funcionar ao mesmo tempo, tem aviões a chegar, a aterrar e a descolar praticamente todos os minutos, portanto, exige uma coordenação extremamente rigorosa e alguma coisa poderá ter falhado aí. Vamos agora aguardar que as autoridades locais nos digam o que é que aconteceu, que é para nós aprendermos, uma vez mais, com a tragédia dos outros e fazer com que isto não se repita, porque noutras circunstâncias, com outros passageiros, com outros tripulantes, poderíamos estar agora à frente de uma tragédia de grandes dimensões.

Seu comandante, aos pilotos teria sido possível fazer algo para evitar este acidente? Por exemplo, o piloto Airbus, teria sido possível ao avistar o outro aparelho na pista do aeroporto, eventualmente, ter outra vez levantado no sentido de fazer uma nova aproximação à pista?

Isso poderia ter feito, se tivesse tido tempo para isso. Agora, não sabemos como é que isto aconteceu. Isso já tem acontecido. Aliás, até já aconteceu cá em Portugal. O avião está para aterrar e vê que está outro avião na pista e borrega. Agora, isso pressupõe que venha ainda uma distância relativamente grande para ter tempo para poder fazer isto. Estamos a falar de noite, portanto, isto acontece de noite, onde é mais difícil ter referências no solo. Mas eu penso que não, que neste momento, e então principalmente depois da colisão, é absolutamente impossível eles poderem fazer fosse o que fosse, porque é impossível controlar um avião daqueles no chão, com aquele peso e com aquela velocidade, que está completamente fora de controle devido à colisão. Não podiam ter feito nada. O avião saiu da pista na parte final da desaceleração, saiu da pista, não bateu em nada, felizmente. Há aqui outro fator que é importantíssimo e que nunca será demais realçar, que é a chegada quase imediata dos bombeiros. Estamos a falar do Japão, estamos a falar de outro planeta. Quase imediatamente chegam os bombeiros, que deram também uma contribuição extraordinária para o bom sucesso desta operação.