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Conosco em direto. Estamos a olhar para um estudo que tem por base dados de 2018, entretanto passaram dois anos e houve uma crise pandémica e uma crise económica associada. Temo que os dados sejam diferentes e mais graves hoje em dia.

Olá, bom dia. Não tenho uma só dúvida de que os dados são mais graves do que os apontados por esse estudo. Este estudo reflete aquilo que se designa por pobreza estrutural em Portugal. E o fato de um terço das pessoas serem trabalhadores de baixos níveis salariais, que têm como percentagem do custo da habitação, uma parte importantíssima dos seus rendimentos, só veio piorar ainda com esta pandemia. Aquilo que se verificou foi que muitos destes trabalhadores foram colocados em lay-off, outros perderam o emprego e portanto, crescem ainda esta fatia dos 13% do desemprego para que o estudo aponta, mas também temos hoje muitas situações em que temos pessoas de baixos salários com recibos verdes, por exemplo, muitas autarquias contratam pessoas a recibo verde e pagam-lhes até mais do que o salário mínimo. Mas quando estas pessoas são afetadas por uma crise como esta, temos inevitavelmente um crescimento da pobreza. Essa é a pobreza conjuntural, que tem a ver com o Covid-19, o reflexo da pandemia na economia. Mas vamos ainda assistir a números ainda mais preocupantes do que este, porque o receio que tenho é que muitas empresas vão fechar com o termo das moratórias e que haja um grande desemprego, mas sobretudo que haja até um acerto do emprego que temos. Este estudo mostra ainda que 5% dos licenciados acaba por estar em situação de pobreza, mas estes licenciados, por terem mais qualificações, vão ainda tirar mais oportunidades de empregar pessoas com baixas qualificações, que são os habituais trabalhadores pobres. E portanto, a minha preocupação fica ainda acrescida quando vejo que já em 2018, antes da pandemia, e até quando parecia que tudo estava mais florescente, tínhamos estes dados.

E estes dados mostram também que a maioria das pessoas em situação de pobreza nasceu já de famílias pobres, é o tal desemprego estrutural de que nos falava, e acaba por ser quase uma fatalidade para as crianças e jovens que nascem nestas famílias.

Sim, nós em Portugal temos uma coisa tremenda que se chama transmissão intergeracional da pobreza. E esta transmissão intergeracional da pobreza tende sempre a perpetuar, ela diminuiu, é certo, com a escolaridade obrigatória. A educação e a escolaridade são a única forma de combater esta pobreza, por via de mais qualificações que permitam a pessoas aceder a melhor emprego e, em simultâneo, conseguir que realmente esse melhor emprego pague mais. Mas esta transmissão intergeracional da pobreza reflete-se também num dado do estudo que é muito preocupante: é que muitas das pessoas entrevistadas para as respostas mais qualitativas declaram-se felizes. E portanto, esta transmissão intergeracional da pobreza é quase como se não fosse sentida. As pessoas não se sentem pobres porque nunca conheceram uma realidade diferente. E portanto, nós até aqui há um tempo já tínhamos feito um estudo, também, que isto foi uma coisa que me preocupou, é este quase que estar conformado com esta situação, desde que tenha aquilo que preciso para sobreviver, então vou sendo feliz. Então esta transmissão intergeracional da pobreza só se pode dar com mais ambição e as pessoas quererem poder viver realmente melhor, não dependendo do Estado. Muitas das pessoas declararam até que acham que as transferências sociais são pequenas, mas há como que instituída uma mentalidade de que eu posso depender do Estado e portanto trabalho e tenho aquilo que consigo e que o Estado logo virá completar. E isso é uma mentalidade que tem que se alterar. As pessoas têm que querer ser autônomas na sua vida e ganhar um bom salário para poderem dar condições melhores de vida à sua família e para si próprios. E portanto, esta quase que autoestima, que aqui se vê nesta "eu conformo-me com esta minha situação" é que prolonga um pouco esta situação de transmissão geracional de pobreza.