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Queria começar por lhe perguntar, agora que já é conhecida a composição do governo, que Montenegro diz que quer declarar guerra à burocracia e que temos o novo ministério da Reforma do Estado, como é que o PS se deve posicionar relativamente a medidas neste sentido?
Eu acho que primeiro, quer o PS, quer todos os cidadãos em geral, gostarão de saber em que é que se traduz esse conceito, porque as ideias de reforma do Estado já foram perfilhadas no passado por outros governos, até inclusive do próprio Partido Socialista. Já houve ministérios da Reforma Administrativa, ministérios da Modernização da Administração Pública, etc. Portanto, a ideia de reformar, de alterar o funcionamento da administração pública, facilitar os processos e os procedimentos é uma ideia que tem sido transversal às principais forças políticas portuguesas. E portanto, a ideia em si não me parece controversa. Aquilo que pode ser controverso é o que se pretende fazer e por isso será necessário primeiro aguardar e perceber o que é que está por trás dessa ideia de reforma do Estado, porque creio que isso nem sequer foi tema de campanha eleitoral. Não me parece que a AD tenha revelado grandes intenções e grandes orientações nesse campo, pelo que será relativamente inovatório em termos de políticas públicas e por isso vamos esperar. Mas eu diria à partida que quer as principais forças políticas, entre as quais naturalmente o Partido Socialista, que se interessam pela governação, quer os cidadãos encararão, certamente com alguma expectativa, essa ideia de reformar o Estado. Porque todos nós sabemos que o Estado é uma estrutura muito pesada, não totalmente eficiente, às vezes um pouco enquilhosa em alguns procedimentos, ainda relativamente imune às novas tecnologias, etc. Portanto, há muita coisa que fazer aí. Agora vamos aguardar o que é que se pretende.
E o PS é pela primeira vez a terceira força política. Como é que durante esta legislatura o PS se deve posicionar enquanto oposição?
O Partido Socialista terá de estar atento a todos os assuntos da política. Eu diria que hoje é um dia risonho para o governo, talvez o dia mais risonho dos governos, que é o dia em que se toma posse, ou tomou hoje o caso de Estado, já tomaram os ministros antes. É um dia risonho e até nos parece que a nossa democracia funciona bastante bem quando olhamos para os hilariantes acontecimentos que estão a ocorrer nesta altura nos Estados Unidos da América, com a troca de gargalhetas entre o principal, talvez o homem mais poderoso do mundo, o presidente norte-americano, e o seu colaborador, também imensamente rico. Até nos parece que a democracia portuguesa é uma coisa calminha e certinha e que corre tudo bem. Mas na verdade, eu acho que hoje também tivemos algumas notícias, por trás dos sorrisos do governo, que já vinham sendo ventiladas há algum tempo, em surdina, sobre a economia, sobre a eventual situação financeira com a possível entrada de novo em défice, que não é surpresa. Eu fui um daqueles que durante bastante tempo avisou, quando pude, que as medidas que o governo estava a tomar, dando tudo a todos, e também, para ser totalmente justo, partidos da oposição, tinham um reflexo significativo nas contas públicas e agora estamos eventualmente a começar a perceber que vamos ter de pagar a conta. E um governo de minoria é um governo que está, quer se queira, quer não se queira, normalmente fragilizado. E portanto, o Partido Socialista aqui vai ter que ter uma posição e uma atuação muitíssimo equilibrada, de partido responsável. Por um lado, sendo um governo minoritário, o Partido Socialista não pode fazer uma oposição de queda, de derrube do governo à primeira ocasião, mas o Partido Socialista também não pode estar alheio, eventualmente, à degradação da situação económica, à degradação das contas públicas e a situações relacionadas com o funcionamento de serviços públicos que vêm de trás, não foram resolvidas na saúde, onde se mantém a ministra, nas áreas da educação, também se mantém o ministro, nas áreas da habitação, onde não se vê grandes melhorias. E portanto, aqui a substituição do ministro da Economia, não sei se o primeiro-ministro quis dar algum sinal com isso ou quis transmitir alguma mensagem com isso, mas a substituição do ministro da Economia não vai ser suficiente para o governo enfrentar toda essa situação, porque ela vem de trás. Eventualmente, haverá agora aqui o período de lua de mel normal nos governos, mas depois vem aí a política pura e dura e o Partido Socialista aí tem que mostrar toda a sua capacidade de principal, enfim, não direi partido da oposição, mas de principal candidato a vir a ser governo um dia destes, e tem que fazer uma política muito equilibrada, por um lado, não deixando cair o governo na primeira curva, mas também, por outro lado, não deixando de fazer uma oposição forte, porque me parece que o governo, apesar de ter saído reforçado das eleições, não dava garantias de estar a atuar bem em alguns setores.
E Montenegro disse hoje que o governo vai governar ao centro. Da experiência da legislatura passada, pensa que o primeiro-ministro vai cumprir esta promessa ou que será um governo mais à direita?
Não, eu acho que o primeiro-ministro, do ponto de vista tático, lhe interessa governar ao centro. É certo que isso depois tem uma consequência séria no plano da direita e no plano do país, que é desguarnecer a direita e deixá-la liberta para o Chega, mais para o Chega do que para a Iniciativa Liberal, porque a Iniciativa Liberal também não saiu em muito bom estado das eleições, mas deixar a direita desguarnecida e à disposição do Chega. O Partido Socialista também no passado acabou por colaborar com essa visão da Aliança Democrática mais para o centro, porque o Partido Socialista também desmaiou talvez demasiado para a esquerda. Mas mais uma vez, o Partido Socialista vai ter de se recentrar e vai ter de criar dificuldades ao governo de ocupar o tal centro, porque o centro também é uma coisa um pouco difícil dizer o que é. Mas digamos que o centro político, aquilo que nós chamamos o centro político, aquela percentagem grande de cidadãos que têm uma visão equilibrada, moderada das políticas, não ideológica, esse centro tem de ser disputado pelo Partido Socialista. Portanto, acredito que o governo pretenda continuar a ter uma boa posição aí, mas vai ter maiores dificuldades, creio eu, a partir de agora.
E focando-nos agora mais sobre o PS. José Luís Carneiro é o único candidato à liderança. Acha que pode vir a ser um bom líder e se vai conseguir tirar o PS desta situação difícil das últimas eleições?
Bom, a circunstância de ser um bom candidato não me parece, embora os candidatos não podem ser construídos, não se faz uma fornada de candidatos. Os candidatos dependem de vontades, de intenções. E aparentemente não haverá ninguém que queira disputar a eleição com José Luís Carneiro. Eu preferiria que houvesse mais que um candidato, embora seja apoiante de José Luís Carneiro, mas sinceramente preferiria que houvesse mais pessoas a disputarem a eleição. Se vai ser um bom líder, eu acho que vai ser um bom líder, mas vai ser um líder com imensas dificuldades, porque o Partido Socialista não está nesta altura em muito boa forma. Já não estava anteriormente. Obviamente, quando Pedro Nuno Santos assumiu o cargo de secretário-geral do Partido Socialista, tinha o Partido Socialista em dificuldades. E José Luís Carneiro, se vier a ser o único candidato e se vier a ser eleito como secretário-geral, irá ter ainda mais dificuldades do que aquelas que eram enfrentadas por Pedro Nuno Santos, porque terá o Partido Socialista mais deprimido na Assembleia da República e um Partido Socialista a necessitar de se refazer, o que implica também um grande trabalho interno e às vezes esse trabalho interno retira energias, retira a capacidade de intervenção externa. Portanto, José Luís Carneiro vai ter uma tarefa muitíssimo complicada, mas eu acho que é uma pessoa suficientemente sensata, moderada, conhece bem a história do Partido Socialista, tem experiência governativa, experiência autárquica, portanto, experiência política. Suponho que vai saber enfrentar todas as dificuldades que vai ter e vão ser muitas. O Partido Socialista vai fazer seguramente uma travessia no deserto de algum tempo, e isso é algo a que o Partido Socialista não está habituado. Para além de que o Partido Socialista tem já em breve dois desafios eleitorais importantíssimos, como é o caso das eleições autárquicas e também das eleições presidenciais, embora essas não sejam eleições partidárias stricto sensu, os candidatos não são candidatos partidários, mas convém que o Partido Socialista também tenha aí uma posição que permita que gente da sua área dispute essa eleição em boas condições.
E relativamente às eleições presidenciais, considera que António José Seguro é um bom candidato e se deve ou não ter o apoio do PS?
Bem, eu não sou da direção do Partido Socialista, portanto, essa decisão não me compete. Acho que aqui as decisões têm de ser sobretudo decisões individuais. Porque o que se passa ao nível dos eventuais candidatos dentro do Partido Socialista e verificar se António José Seguro é de facto aquele que pode cumprir melhor a função do candidato apoiado pelo Partido Socialista