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Na próxima semana, tanto o litro de gasóleo como o litro de gasolina vão ultrapassar os €2 por litro, já ultrapassaram em vários pontos do país. E isto acontece numa altura em que o barril Brent, a referência pra Europa, ultrapassa os $95 perante a escalada do conflito entre os Estados Unidos da América e o Irão. Neste jornal recebemos o especialista em mercados financeiros Ricardo Marques, especialista na área da energia. Ricardo, bom dia. O quê explica esta subida tão drástica nos combustíveis nesta semana?

A subida explica-se não só pela subida do preço do petróleo, que toda a gente tem vindo a acompanhar, mas pela subida da margem de refinação do gasóleo. Ou seja, nessa altura temos o gasóleo no mercado internacional a negociar acima de $80 o barril, acima do Brent, uma subida de mais de $10 face à semana passada.

Olhando para os mercados, nós sabemos que as avaliações são feitas semana a semana e que a própria subida para a próxima semana ainda não está fechada 100%. O dia de hoje ainda está a contar, mas o que é que nos dizem os mercados para o futuro, para as próximas semanas? Que indicadores nos vão dando quanto a essa tendência? Porque estamos há semanas e semanas, já se perdeu a conta, numa subida constante no preço dos combustíveis.

Sim, pronto. E esta subida não é só em Portugal, não é só na Europa. Ainda ontem o preço do diesel nos Estados Unidos atingiu o valor mais alto de sempre. Estamos a falar duma situação internacional em que mais do que a escassez de petróleo, é a escassez de produto refinado. Sendo que a situação na Rússia com a grande maioria das refinarias paradas e a terem que importar em vez de exportar produto, está a influenciar bastante e é uma situação que não terá rápida resolução.

Quando diz não terá rápida solução, diz que vamos continuar a onda de aumentos ou vamos continuar nestes valores?

Eu penso que podemos continuar nesses valores. Se o petróleo baixar poderemos ter alguma descida, mas penso também para novos aumentos teria que haver mais refinarias russas atacadas, ou seja, um agravamento da situação que já de si tá complicada. Agora preços muito mais baixos, tenho dúvidas pro próximo tempo.

O setor da energia é fundamental pra economia. É assim em todos os países e os combustíveis fósseis são parte importante desse setor da energia. Que peso está a ter tudo isso na inflação? As notícias mais recentes apontam para um acelerar da inflação, não só em Portugal, também na União Europeia, acontece em diferentes países, mas esta carga dos combustíveis fósseis é muito pesada também para a economia e para a inflação.

É exatamente. Vimos os valores da inflação na zona euro em agosto e houve uma subida significativa para 3,3% da inflação anual. E se formos ver a inflação anual retirando a energia e alimentação, a inflação até baixou face a julho. Portanto, o problema principal está realmente na energia.

Há países que já discutem esta questão, a possibilidade de racionamento de combustíveis. Dada a dimensão que aqui estamos a ver, a escassez también de produto refinado, como já fazia referência, isso pode ser algo que se começa a discutir a nível europeu, por exemplo, em breve?

Sinceramente, tenho dúvidas que se discuta a nível europeu o racionamento. Agora esse racionamento já está a acontecer, nomeadamente alguns países há já bastante tempo porque uma boa parte da capacidade de refinação quer na China, quer na Rússia, quer no Medio Oriente, nesta altura está parada.

Olhando pros mercados financeiros, que peso é que está a ter também esta subida dos combustíveis? Há empresas certamente a cotar mais em bolsa e outras a descer por causa deste aumento dos combustíveis. O que você nos pode traçar nesse aspecto?

As empresas do setor da energia têm beneficiado com esta situação. Em termos econômicos, o que se olha mais é exatamente pro efeito da inflação e de poder contribuir para subir as taxas de juro por parte dos bancos centrais, sendo quase certo que para a semana o BCE vai subir a taxa de referência em 25 pontos base.

É uma reunião importante já na próxima semana. Tem-se antecipado essa subida das taxas de juro. Ricardo, é também algo que devemos esperar já na próxima quinta-feira.

Eu penso que sim. Acho que muito dificilmente não teríamos essa subida.

Ricardo Marques, especialista em mercados financeiros, muito obrigado