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Temos agora neste jornal Ângelo Correia, que foi Ministro da Administração Interna quando Pinto Balsemão era Primeiro-Ministro entre 1981 e 83. Muito bom dia, Ângelo Correia, obrigada por estar conosco. Teve a oportunidade de ouvir Maria João Vilas a dizer que Pinto Balsemão era um diretor de jornal exigente. Como é que era como Primeiro-Ministro?
Em primeiro lugar, bom dia.
Bom dia.
Como Primeiro-Ministro, era uma pessoa também exigente, rigorosa, apesar de essas virtudes ou essas características transparecerem num clima geral de cordialidade, às vezes até de alguma bonomia e de uma abertura enorme que Francisco Balsemão apresentava na sua relação com os outros. Por isso, deixou saudades. Deixou obra, deixou saudades, que começaram muito antes do 25 de abril, começaram na antiga Assembleia Nacional, onde todos nós nos lembramos, e eu conheci-o já nessa altura, já no final da década do marcelismo, conheci-o nessa altura, quando ele na Assembleia da República teve a ousadia, a coragem, a lucidez e, ao mesmo tempo, a honestidade moral, intelectual e política de apresentar algumas leis essenciais para o regime democrático. Portanto, as leis que o Francisco pretendia apresentar, discutir e aprovar eram leis de rutura de regime. Aliás, essa era a lógica presencial da ala liberal na Assembleia Nacional de então, porque aceitaram ir numa capacidade autónoma e autonomizadora da ação política, de modo a alterá-la nalgumas áreas. Francisco pretendeu fazê-lo na área da comunicação. Apresentou projetos nessa área que simplesmente, na maior parte dos casos, nem discutidos quase eram, porque o anterior regime tinha uma característica: quando se opunha, não era sequer frontal, nem sequer discutia e justificava a sua oposição. Era apenas a oposição pela força do status quo que ele impunha e não pela abertura possível que podia querer demonstrar e até explicar-se a si próprio perante os portugueses, nem isso. Francisco conheci-o nessa altura, depois conheci-o nos primeiros tempos da formação do PPD. Acompanhei-o. Muitas vezes passava pelo Expresso, porque eu trabalhava numa instituição bancária em frente do Expresso, portanto, era atravessar a rua. Às vezes tomávamos um café no Flórida. Havia um hotel e um restaurante que era o Flórida, ali junto ao Marquês de Pombal, e encontravamo-nos muitas vezes, conheci a ele ou ao Marcelo também antes do 25 de abril, com outras pessoas, outros jornalistas que já morreram, muitos já morreram.
Sim.
Aquilo que Francisco Balsemão pretendeu fazer, mas que não conseguiu na Assembleia, conseguiu no Expresso, isto é, transformar a imprensa portuguesa, a comunicação social portuguesa, introduzindo o Expresso, que era um farol. As pessoas aguardavam com ansiedade de manhã irem comprar o Expresso para o ler. O Francisco foi notável nesse aspeto, deixou uma obra importante. Conheci-o ainda como ministro-adjunto de Francisco Sá Carneiro, no primeiro governo da Aliança Democrática em 79, onde desempenhou um papel muitíssimo importante, tão importante que a maior parte das pessoas, quando soubemos da morte do Francisco Sá Carneiro, muitas pessoas olharam para o Francisco como o natural sucessor, dada a proximidade, dada a qualidade, dada a inteligência, dada a afabilidade, dado o conhecimento que ele tinha do país e do mundo. Ele era um homem português, mas era um homem do mundo