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Junta-se a nós neste jornal das 10h00, Henrique Borné, especialista em assuntos europeus, a quem agradeço desde já a disponibilidade. Bom dia, bem-vindo, Henrique. Gostava de perguntar, em primeiro lugar, se concorda com os principais pontos de tensão aqui identificados por António Costa para estas eleições. Vão ser mesmo estes os temas determinantes nestas europeias?

Bom dia. Sim, eu acho que um dos aspectos interessantes nesta crônica do primeiro-ministro é precisamente ao identificar os principais temas, nota-se que são os mesmos temas nos principais partidos. Ou seja, estes temas das alterações climáticas, mas conseguir responder a isso tendo em conta que queremos manter a agricultura e a indústria na Europa, estar preocupado com o alargamento à Ucrânia e desejar o alargamento à Ucrânia garantindo equilíbrios internos, ter consciência de que a questão do investimento na defesa e sermos responsáveis pela nossa segurança é fundamental. E por último, perceber que há uma ameaça de populismos pela Europa fora, eu acho que se pode chamar populismos, polarização. São agendas comuns aos principais partidos daquilo que eu chamaria o grande centro, ou seja, os principais partidos de governo na União Europeia, é isto que os preocupa. E portanto, é interessante verificar que vindo de um ex-primeiro-ministro socialista, a identificação dos temas é igual à que seria feita se fosse feita por um ex-primeiro-ministro de outro país, de um partido mais à direita. São estes, de fato, os principais temas.

E Henrique Borné, a preocupação europeia do ex-primeiro-ministro revela, como tanto tem sido comentado, um desejo pelo Conselho Europeu, na sua opinião?

Aí estamos a tentar interpretar os sinais, é um pouco como tentar ler uma bola de cristal. Mas eu acho que há duas coisas que quem gosta de especular à volta de política pode tirar a partir destas crônicas. Uma é que o primeiro-ministro escolhe um jornal que tem muitos leitores, e isso é típico de quem está a pensar em eleitor. E isso não tem muito que ver com o lugar do Conselho Europeu, onde os eleitores, por assim dizer, são os 27 chefes de Estado ou de governo da União Europeia. Por outro lado, escolhe um tema europeu que é aquele que se acredita que lhe estará interessar. Eu acho que o primeiro-ministro ao fazer esta escolha dupla, se quisermos estar a tentar ler na bola de cristal, digamos que nos está a dizer que quer confirmar a convicção que temos que está interessado no tema europeu, mas também está ao mesmo tempo a garantir que está a ser lido por muitos leitores, que são muitos potenciais eleitores, não vai eventualmente ter outros percursos alternativos. Parece-me que se quisermos fazer uma leitura política, será essa a leitura mais óbvia.

Henrique Borné, para fechar, todas as sondagens dão a vitória ao Partido Popular Europeu, aqui já vimos mais uma, o segundo lugar também aos socialistas e democratas. É esperada uma grande ascensão da extrema-direita? Pergunto e se sim, qual é que é o impacto que isso pode ter também em Estrasburgo?

É esperado um crescimento, embora há duas coisas que se deva dizer. Uma é, já nas últimas eleições há cinco anos, esse era um dos temas centrais da campanha e depois o crescimento não foi tão relevante quanto isso. Portanto, primeira nota, não é novidade, já aconteceu há cinco anos, embora desta vez pareça, tendo em conta o que se passa nos vários Estados membros, pareça provável que desta vez esse crescimento seja mais significativo do que foi. A segunda coisa é qual é o seu impacto. Tem sempre impacto, como é evidente, porque significa que do universo dos 700 deputados, há um grupo maior de deputados que, segundo norma, são contrários a quase tudo o que a União Europeia faz ou quer fazer. Isto dito, a União Europeia tem uma característica muito diferente da política nacional. É que enquanto na política nacional, seja qual for o resultado eleitoral, há governo, há maioria e oposição, há governo e oposição, na política europeia, o Parlamento Europeu não está dividido entre quem apoia o governo, por assim dizer, e a oposição, porque a verdade é que não há um governo de um partido ou de dois ou de três. E portanto, tudo na União Europeia, tudo no Parlamento Europeu tem que ser aprovado por maiorias que implicam vários partidos, e essa maioria vai continuar a estar lá. Isto é, a maioria que é feita com os partidos ao grande centro, ou seja, que vai dos conservadores reformistas até aos verdes, continua lá, umas vezes mais puxada para os verdes, outras vezes mais puxada para os conservadores e reformistas, que são aqui incluídos porque têm pelo menos um governo na Europa que é a Itália. E portanto, diria, nós vamos continuar a ver as decisões aprovadas, esperas, por esta grande maioria. Qual é que é o grande risco que existe? É o dia em que isto partir ao meio e passarmos a ver o Parlamento Europeu dividido num bloco à esquerda e um bloco à direita. Isso seria mau, porque a partir desse dia significaria que as decisões do Parlamento Europeu depois seriam dificilmente aceitáveis por quem teria que as implementar a nível nacional, os vários países, onde há governos muito mais à esquerda ou muito mais à direita do que seria esse bloco. Portanto, é uma má notícia que haja um crescimento de um grupo político que normalmente não faz parte do consenso e dos compromissos e, portanto, não contribui para a formação de maiorias que aprovam a legislação. Não tem o impacto que poderia ter, porque continuará a haver uma maioria ao centro de consensos e na União Europeia continua-se a governar entre os principais partidos e aqueles que, apesar de tudo, são menos diferentes entre si.