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De acordo com dados oficiais da Polícia de Segurança Pública, recolhidos pelo Diário de Notícias, foram participados cerca de 28 mil crimes em Lisboa no ano passado. Este é o terceiro número mais baixo desde 2014. Na última década, só existiram menos crimes registados nos dois anos da pandemia, portanto 2020 e 2021. Estes números são provisórios, mas apontam para uma redução da criminalidade, em especial grave e violenta, na região de Lisboa, na ordem dos 10%. Portanto, dá conta de um registo generalizado, se podemos ler desta forma, da criminalidade nos últimos 10 anos em Lisboa. Comigo tenho Francisco Rodrigues, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo. Bem-vindo, Francisco. Eu ia perguntar-lhe se estes dados não contrariam a tão falada perceção de insegurança de que se fala ultimamente.

Olá, bom dia. Muito obrigado pelo convite. Sim, esses dados vêm revelar aquilo que, de certa forma, eu tenho vindo a divulgar nestes últimos tempos, principalmente depois de ter se tornado o tema segurança o tema principal da análise política na última fase do ano passado. A questão do crime, e principalmente o crime violento grave e o crime praticado com armas de fogo e com arma branca, nas últimas três décadas, mas principalmente, como disse, nesta última dezena de anos, têm registado, à exceção de dados muito pontuais, um decréscimo. É evidente que isto vem contrariar algum discurso um pouco mais exacerbado por parte de alguns setores políticos, que procuram utilizar naturalmente o tema da criminalidade como uma forma de arremesso político. Portanto, isso só vem confirmar aquilo que era a minha análise. Isso não significa, porém, que eu considere que tudo está bem. Esta questão do crime e a questão do crime violento tem muito a ver também com aquilo que nós importamos, se me permite o termo, do exterior. Isto é, nestes últimos tempos, principalmente no último ano ou nos últimos dois anos, nós temos visto a atividade, por exemplo, do tráfico de droga e as apreensões que entretanto as forças de autoridades e principalmente a Polícia Judiciária fez nesse âmbito, crescerem substancialmente. Portanto, isto não significa, para mim, que devemos cruzar os braços e considerar que está tudo bem, porque esta questão da criminalidade rapidamente se altera e basta que haja meia dúzia de crimes daqueles que fazem naturalmente manchete para alterar substancialmente aquilo que é ou que está a ser mais utilizado nestes últimos tempos, que é o tema das perceções. Portanto, devemos ter aqui algum figo, naturalmente, e congratulo-me com esses dados, porque significa que a sociedade portuguesa demonstra que é uma sociedade segura e onde podemos viver com tranquilidade e chamar naturalmente aqueles que nos visitam utilizando exatamente o tema da segurança. Agora, não significa que nós não devamos fazer mais alguma coisa e principalmente naquilo que ultimamente tem sido mais falado, que é termos mais polícia na rua. Eu acho que isso é fundamental.

E é mesmo por aí que eu vou pegar para a próxima pergunta. Falou-se muito nos últimos meses, especialmente por causa das questões relacionadas com a imigração e com a frequente associação que se faz no espaço público entre imigração e insegurança, e daí foi surgindo para o debate público, cada vez mais precisamente a questão do policiamento de proximidade. Eu ia perguntar-lhe, estes dados que dão conta desta diminuição da criminalidade são anteriores a este discurso mais intenso, se quisermos, sobre policiamento de proximidade. O que isso nos diz?

Eu acho que, acima de tudo, estes dados, o tempo e o modo careciam naturalmente de uma análise mais profunda para nós podermos depois ir ao encontro de uma resposta mais precisa àquilo que me está a perguntar. O que eu diria é que os dados demonstram-nos que efetivamente o trabalho das polícias está a ser bem feito e, acima de tudo, este trabalho que está a ser realizado pela Polícia de Segurança Pública na cidade de Lisboa. Isto não significa que não precisemos ter mais polícia na rua. O facto de ter descido a criminalidade significa, ou pode significar também, que foram os atores que diminuíram e não o trabalho das polícias que levou a que tivesse diminuído. Portanto, também não nos podemos iludir de uma forma rápida com os números ou tirar conclusões às vezes apressadas. O que eu continuo a considerar, porque eu sou um cidadão e utilizo o espaço público Como o senhor e todos nós utilizamos e conseguimos ver. Aquilo que eu considero, e mais na minha própria realidade pessoal, eu era filho de um polícia, de um PSP, portanto há 60 anos que eu conheço a realidade do policiamento em Lisboa. E depois, como deve saber, fui durante 30 anos oficial da Guarda Nacional Republicana. O que eu quero dizer é que nós precisamos efetivamente de mais gente na rua. Claro que não podemos tirar daqui correspondência, mas mais gente na rua naturalmente traria duas coisas, para mim, que seriam fáceis de verificar. Uma, efetivamente as pessoas, o cidadão normal, principalmente aquele que é mais suscetível a receber estes inputs negativos por parte daquilo que acontece, daquilo que vem do crime, sentir-se-iam mais tranquilos, principalmente pessoas com mais idade, pessoas que vivem em sítios mais isolados, etc. Jovens, crianças, naturalmente poderiam percecionar a segurança de uma forma diferente. E depois, por outro lado, porque efetivamente isso traria resultados objetivos. Porque é evidente que seria desmotivador ou dissuasor de algumas atividades criminais, principalmente aquilo que diz respeito, por exemplo, ao tráfico de droga ou crime de roubo de oportunidade, etc. Portanto, eu acho que continuamos no bom caminho e tenho a certeza que as polícias encontrarão ainda novas formas, ou melhor, recuperarão outras formas, como a questão do policiamento comunitário, que eu prefiro chamar de comunitário em vez de proximidade, porque proximidade é tudo aquilo que as polícias fazem no seu dia a dia. É o policiamento de rua, o policiamento de constante contacto com as populações, saber as suas necessidades, saber de que forma consegue exatamente ainda aumentarem as condições de segurança e, porque não dizê-lo, aumentar a sua perceção de segurança.

Uma última pergunta, Francisco Rodrigues. A questão da segurança tem sido precisamente o tema que tem aquecido mais o debate político nos últimos tempos. Acredita que estes novos dados podem ajudar a acalmar um pouco a situação do debate político?

Bem, eu, como se costuma dizer, estou cá para ver, mas eu estou perfeitamente convencido que só há uma forma de combater a especulação, de combater alguns argumentos que são utilizados, ou que têm vindo a ser utilizados, é através de dados. Portanto, os dados para mim é a melhor ferramenta para nós podermos, de certa forma, contrariar aquilo que tem vindo a ser mais utilizado na questão do debate político, naquilo que diz respeito às percepções ou à perceção de insegurança, etc. Portanto, eu estou convencido que sim.

Muito obrigado, Francisco Rodrigues, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo.