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Celebra-se o Dia Mundial do Livro e vimos em notícias desta semana que as redes sociais têm despertado o interesse na leitura para os jovens e os hábitos de leitura estão a aumentar. De que forma é que o TikTok, o Instagram e outras redes sociais estão, de certa forma, a revolucionar o consumo de livros em Portugal e na Europa?

Sim, eu diria mais que revolucionar, estão a acelerar. Eu acho que é uma forma de olhar para isso um pouquinho diferente. Nós temos de partir aqui de três pressupostos que são muito importantes para o mercado português. O primeiro, partimos de uma base muito baixa. Referiu agora o aumento do consumo dos livros. É um facto, nos últimos dois anos, o mercado tem crescido, mas também soubemos agora, nos últimos dias, num inquérito feito pelo Instituto Nacional de Estatística, que cerca de 58,1% dos portugueses não leram nenhum livro em 2022. E isto, obviamente, o mercado está, sim, a crescer e muito impulsionado por aquilo que é o papel das redes sociais, que como digo, mais que revolucionar a forma como as pessoas encontram os livros, têm acelerado e imediatizado a forma como esses livros são encontrados. Durante séculos, esse papel calhia à crítica literária, aos cânones e à medida que as redes sociais foram ganhando volume, tudo isso começou com o Facebook e depois com o próprio Instagram e o TikTok, que adquiriu, de facto, uma massa crítica absolutamente gigantesca, fez com que essa visibilidade, a forma como as pessoas encontram os livros, a forma como estas novas gerações falam e conversam sobre livros, acelerou muito mais. E, portanto, tem sido uma forma, e estou agora falando do mercado português, de ter, de uma base muito baixa, ter feito com que o consumo dos livros tenha aumentado, quer comprados, quer lidos, por uma geração mais nova. Mas mesmo assim, partimos de uma base muito baixa e não podemos escamotear o fato, neste Dia Mundial do Livro, sabermos que há 58,1% de portugueses que não leram livros em 2022.

Mas mesmo com esses dados, está a haver uma mudança no padrão de consumo de livros.

Está. A tipologia de livros e a forma como as pessoas, depois do confinamento, isto é um fenômeno global, quando falo global, essencialmente no mundo ocidental, houve um reencontro com a leitura. Não só já durante o confinamento, infelizmente, em Portugal, isso não aconteceu, mas nos países com índice de leitura mais elevados, as pessoas reencontraram-se novamente com a leitura, tendo tempo, estando encerradas em casa. Em Portugal, depois dos confinamentos, nomeadamente depois do segundo, houve um reencontro com o livro como objeto, isto é, como um ponto de encontro de conversação, nomeadamente nestas gerações mais novas, que encontrando uma série de vídeos a falar sobre alguns livros, depois saltaram para o seu grupo de amigos e o seu grupo direto de contactos, fazendo com que os livros fossem comprados, livros partilhados e falados. Aliás, por isso, também tem havido um enorme aumento dos clubes de leitura, até clubes de leitura informal. E isso fez com que, nestes últimos tempos, e depois de uma queda muito abrupta em 2020, o mercado em Portugal, de facto, tenha crescido, à boleia ou a este reencontro com a leitura como escapismo, como uma nova forma de entretenimento, além daquelas que já existiam, nomeadamente plataformas de streaming, redes sociais, etc. Portanto, isso sim, tem sido bastante positivo. Esta geração mais nova, obviamente, consome outros tipos de livros. Eu diria mais que outros tipos de livros, mas enfim, outros tipos de categorias, como por exemplo, é mangá, novela gráfica, aquilo que hoje é conhecido como as romcoms, isto é, comédias românticas, que já andavam por aí há muito tempo, mas voltaram a ser encontradas. Portanto, há aqui novos formatos e novas categorias que são consumidas, sim, e por causa também das redes sociais.

E acha que também os e-books e essas novas plataformas e meios de acelerar também têm incentivado?

Tem ajudado. O consumo dos formatos digitais em Portugal ainda é muito baixo, tem um peso muito baixo face àquilo que vemos, por exemplo, noutros países europeus. O que eu acho é que hoje em dia, dado que a descoberta de muitos dos conteúdos, e aqui vou incluir os livros, é feita em linha, é feita online, é feita em internet, obviamente que os e-books, como têm também uma promoção muito digital e uma visibilidade muito digital, isso faz com que as pessoas também contactem e vejam, nomeadamente os novos lançamentos, no momento em que têm contacto com a existência do e-book. Portanto, o e-book em Portugal ainda funciona muito numa lógica promocional, no sentido de que as pessoas são de facto contactadas online pela existência do e-book, mas depois continuam a preferir a compra do livro de papel. E felizmente, em Portugal, nos últimos dois anos, essa compra de livros de papel é feita essencialmente em livrarias e nas redes livreiras, o que obviamente é um sinal positivo também, porque quando as livrarias também começam a ser frequentadas e voltam a ser espaços privilegiados de intermediação da leitura, mais capacidade temos para gerar novos leitores, para agarrar esses novos leitores e que aliados a políticas públicas, que espero que apareçam, possam sedimentar este crescimento em algo contínuo.

E ainda um outro tema em relação à cultura de cancelamento, porque vemos que nos últimos tempos tem havido muitas obras que estão a ser adaptadas ou criticadas exatamente por terem conteúdos ofensivos ou discriminatórios. Faz sentido que isto aconteça, ou seja, que haja uma adaptação ou cada obra deve ser também contextualizada à época em que foi escrita, ao local onde foi escrito, e uma pessoa deve ter consciência de que está a ler uma obra que tinha determinado contexto?

Deixe-me dizer o seguinte: estava a referir obras consideradas ofensivas. Obras que alguns, muito poucos, consideraram ofensivas. Não houve uma avaliação de uma obra, como foi de Agatha Christie ou de Annie Wright, que de repente se tornou ofensiva. Não, há uns poucos. Há umas poucas pessoas, muito poucas pessoas, que se sentiram ofendidas com algumas palavras em alguns parágrafos. Temos de contextualizar esta forma ou esta pressão de rescrita de literatura como algo minoritário. Que eu respeito, no sentido em que eu acho, ou pelo menos nós partimos do mesmo princípio, a APE e os editores, que todos têm a liberdade, obviamente, de expressar a sua opinião e têm a liberdade de ler ou não ler, e ao ler, considerar que um ou outro livro, ou uma ou outra expressão possa ser ofensivo ou possamos ter aqui leitores extremamente sensíveis. Isso a nós não nos coloca questão. A questão coloca-se é no momento em que essa sensibilidade ou essa dita ofensa pressiona para uma reescrita ou muitas vezes até para uma proibição. E é aí que nós, editores, estamos totalmente contra, não acreditamos nisso. Todos nós temos a liberdade de escrever, deveremos ter a liberdade de editar e temos a liberdade de ler ou não ler. Não temos é o direito ou a obrigação de proibir os outros de ler, de editar e de escrever. Muito mais quando estamos a falar de textos clássicos, que são textos que têm textos fixados, que têm, obviamente, um contexto, que ainda por cima são obras de ficção, isto é, sai da imagética dos seus escritores e dos homens e das mulheres que o originaram. Agatha Christie, Annie Blyton, Ian Fleming e por aí fora. E nós devemos manter esses textos tal e qual como o seu criador pretendia, porque é isso que é a literatura. A literatura, por vezes, desconforta-nos e coloca-nos em posições que muitas vezes nos faz questionar a nós próprios, aquilo que é o contexto, muitas vezes nos ofende. Isso é o papel da literatura. Nós não podemos ter é agora a veleidade, no momento em que nos sentimos ofendidos ou temos uma sensibilidade extra, de querer limitar todas as restantes pessoas em aceder a essa mesma literatura e, acima de tudo, condicionar a palavra, condicionar a linguagem, que depois também leva a um condicionamento do próprio pensamento e a uma visão monista e única de uma determinada sociedade. E, portanto, respeitamos quem se sente, por vezes, ofendido com a literatura e com as palavras de alguns escritores. Não acreditamos é que essa sensibilidade passe pela proibição ou pela reescrita de textos.