Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Carlos de Villela, bom dia.

Bom dia.

Trabalhou muitas vezes com a Eunice Muñoz.

Muitas vezes.

Qual é o legado que deixa este nome grande do teatro português?

Eunice não há nada a explicar. Era uma atriz genial, uma mulher extraordinária. Das pessoas mais fascinantes que eu conheci na minha vida. E esta notícia é horrível. Não há palavras pra explicar isto. É muito complicado falar sobre a Eunice neste momento, porque realmente ela era extraordinária. Era uma atriz espantosa, era uma mulher, uma mãe, um tudo que possa imaginar de bom que ela realmente combinava. Eunice. Fui surpreendido esta manhã com esta notícia. Não estava à espera e fiquei muito perturbado e estou muito angustiado e muito triste. Trabalhei com ela muitas vezes. Com ela fizemos grandes espetáculos e grandes êxitos, desde "Fédra" até "A Última Hora", "Como é a Madrugada", desde a turnê que fizemos à África, desde tanta coisa que nos ligou, que nos uniu e de uma enorme amizade que eu tinha por ela, e um grande respeito e uma enorme admiração. Eunice era uma pessoa muito importante pra mim, muito importante pro teatro português. O teatro português está realmente de luto. É muito triste o que aconteceu hoje.

O Carlos de Villela é conhecido como um encenador exigente em palco. Como era trabalhar com a Eunice nessa exigência, sendo ela aquilo que era, uma atriz muito maldável?

Repare que quando eu pela primeira vez trabalhei com ela, a Eunice já era Eunice. Eu era um rapazinho que estava a começar e foi um desafio pra mim convidar a Eunice Muñoz. Realmente era absurdo. Eu era muito novo. O teatro alguns anos atrás, quase há 50 anos atrás, era completamente diferente do que é hoje. E convidei, ela aceitou. E depois de ela aceitar, nós conversamos, falamos os dois, com que ternura que ela tinha, com tudo que ela tinha de bom. Resolvemos que eu ia assumir o elenco clássico, era outra loucura. E o elenco clássico veio e fizemos assim a "Fédra". Quando nós estávamos a ensaiar, e ela era uma atriz que botava tudo, propunha. Era um prazer vê-la representar, um prazer, uma honra enorme estar a trabalhar com ela.

Qual é que foi a última vez que esteve com Eunice Muñoz?

Há quatro ou cinco dias que lhe telefonei. Eu não estava à espera. Quando telefonaram hoje de madrugada, eu não estava nada à espera.

Carlos, o que é que disse na altura? Que conversa tiveram nesse último?

Falamos sempre os dois, como é que estava, como é que não estava. E tinha saudades dela, ela de mim. Falávamos muitas vezes. Tínhamos sempre uma conversa muito amiga. Eunice era quase maternal em relação às pessoas. Era um prazer estar a falar com ela. E falávamos, recordávamos e trocávamos impressões. Havia tudo de bom a falar, a recordar. Mas eu falei com ela, foi a última vez, recordo profundamente. Também me recordo da primeira vez que falei com ela e a última, e os momentos todos que passei com a Eunice. Muitos. É um desgosto muito grande neste momento.

Ela estava a sentir já saudades do palco nesta última conversa que tiveram?

Sim, era uma mulher de palco. Eunice era o teatro. Era o próprio teatro. Claro que ela vivia pro palco, vivia no palco, e o palco vivia com ela também. É importante isso. Quando ela entrava em cena, era uma luz, era uma dimensão enorme, estranhíssima, de aquela presença brutal, aqueles olhos, aqueles silêncios, aquela violência, mas ao mesmo tempo aquela sensibilidade. Era Eunice. Não se pode definir, nem se pode explicar o que era. Era a grande Eunice. É a grande Eunice.

Carlos de Villela, obrigado por este testemunho.

Muito obrigado