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Qual é que pode ser o motivo para este aumento de afluência nas urgências?

O principal motivo para o aumento da afluência nas urgências e nos serviços de atendimento complementar dos cuidados de saúde primários nesta altura do ano costumam ser as infecções respiratórias, normalmente associadas a vírus, e situações com febre, tosse, dificuldade, dor no corpo, mal-estar, que motivam a procura do seu médico de família para a toma de medicação. Aquilo que não se verificou nos últimos dois anos, majoritariamente no último ano, nesta afluência devido à Covid, às medidas para isolamento, aos aconselhamentos médicos que já eram dados, que agora não existem e que as pessoas acabam por ter necessidade de justificar faltas ao trabalho ou até mesmo de verificar se não há nada mais grave. Não havendo este acompanhamento à distância, as pessoas acabam por recorrer às consultas, nomeadamente aos serviços de urgência, e a maior parte destas situações será devido a esta razão.

Hoje ouvimos falar de tempos de espera, pelo menos aqui no Santa Maria, em Lisboa, de 14 horas, se não estou em erro. Isto é algo que nos deve preocupar ou é algo que antes da pandemia também já acontecia?

Não sei se acontecia com 14 horas de espera, mas a verdade é que os atrasos e as esperas longas nos serviços de urgência são uma constante nos meses de inverno. Há uma maior afluência do que há capacidade para avaliar e para acompanhar estas pessoas, porque temos poucos profissionais e até sabemos que alguns se estão a recusar a fazer horas extraordinárias, que só a partir de janeiro teremos um reforço dessas capacidades, o que faz com que todos estes atrasos sejam, entre aspas, habituais, mas obviamente não desejáveis, porque nós não queremos esta situação.

Esta questão não é novidade. Já vimos o ministro da Saúde a apelar para que as pessoas, antes de se dirigirem às urgências, por exemplo, contactarem o SNS 24. Na sua opinião, o que é que poderá estar a falhar para as pessoas estarem, entre aspas, a entupir as urgências? Será o mau acompanhamento no SNS 24, a preocupação normal das pessoas?

Acho que é uma mistura de vários fatores. O primeiro é o hábito que nós temos, enquanto sociedade portuguesa, de recorrer aos serviços de urgências por vários motivos, e essa utilização, diria, um pouco excessiva dos serviços de urgências acaba por ser um pouco habitual. Depois também temos a situação de aparecerem quadros sintomáticos que necessitam de uma avaliação clínica e que isso dependerá sempre de uma consulta, e que as pessoas podem ir ou precisarão de ter. A questão do SNS 24 também é outra situação que deve ser analisada com cuidado, porque sabemos que durante a pandemia tiveram uma capacidade de resposta reforçada, mas atualmente terão diminuído o número de profissionais que estão disponíveis e o número de algoritmos, se calhar, ou quantidade de algoritmos que podem ajudar. Temos várias situações para analisar que necessitam sempre de uma recolha de informação bastante alargada para podermos tirar uma conclusão, porque não há aqui uma situação específica ou uma razão única, mas sim um conjunto de razões que têm que ser avaliadas.