Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o antigo presidente do Conselho Económico e Social e cabeça de lista do PS pelo círculo do Porto, Francisco Assis, fez um apelo público para que todos os democratas se manifestem diante da Embaixada da Rússia. Está em direto agora no Jornal das 8. Boa noite. Pergunto-lhe o que o motivou a fazer este apelo.

Em primeiro lugar, eu queria que isto fosse entendido como um apelo superpartidário, não é uma questão que tenha a ver com o PS ou com qualquer outro partido político. Felizmente, democratas somos quase todos em Portugal. E creio que temos a obrigação, neste momento, de manifestar a nossa solidariedade para alguém que é uma espécie de Nelson Mandela do nosso tempo. Um homem que foi perseguido, que foi envenenado, que saiu da Rússia, que voltou à Rússia num ato de extraordinária coragem, que sabia que corria risco de vida e que sacrificou a sua vida em nome do valor superior da liberdade e da afirmação dos direitos humanos. É, de facto, uma referência absoluta do nosso tempo. E nessa perspectiva, eu julgo que nós temos, todos nós, a obrigação, até neste período de pré-campanha eleitoral, todos quantos nos reconhecemos na democracia, todos quantos beneficiamos do fato de vivermos num regime demoliberal como aquele que felizmente existe em Portugal e na generalidade dos países ocidentais, nós todos temos a obrigação absoluta de nos manifestarmos e exprimirmos publicamente a nossa revolta perante o que se passou, a nossa solidariedade perante todos quantos na Rússia continuam a lutar contra um regime absolutamente despótico e autoritário, e que isso é um desafio que se coloca a todos nós quantos nos reconhecemos nesses valores e nesses princípios. E foi por isso que me ocorreu fazer este apelo. Já tive oportunidade de falar com várias pessoas de vários partidos políticos. Fiquei satisfeito até por ver que o próprio Partido Comunista mudou de opinião em relação a esta matéria que tem a ver com a questão da Rússia, e foi com satisfação que eu ouvi agora mesmo as declarações da líder parlamentar do Partido Comunista. Julgo que este é um assunto que não pode ser um assunto que divida os partidos políticos em Portugal, os partidos democráticos, os partidos que se reconhecem nos grandes valores da democracia liberal que caracterizam verdadeiramente o Ocidente. Porque isto demonstra claramente que há aqui uma disputa fundamental no mundo entre os grandes valores que fundamentam e estruturam as democracias liberais ocidentais e outro tipo de regimes que nada têm a ver com este modelo, e que é verdadeiramente isso que está em causa quando, por exemplo, falamos da questão da guerra na Ucrânia, quando falamos dos conflitos no quadro das relações internacionais que neste momento se têm vindo a manifestar no contexto presente.

Como é que olha pra a reação da Embaixada da Rússia em Portugal? Diz o embaixador que não vale a pena politizar a morte de uma pessoa.

É uma reação absolutamente esperada. É um Estado autoritário, despótico, antidemocrático. A Rússia infelizmente evoluiu nesse sentido nos últimos anos. Depois da Rússia se ter libertado da ditadura opressora comunista e de ter vivido algum momento democrático, infelizmente caiu num outro tipo de ditadura, que é uma ditadura que tem características que nem se podem considerar própria. É difícil até definir este modelo de ditadura, mas a verdade é que a Rússia regrediu profundamente. E sobretudo regrediu no sentido da rejeição daquilo que são as principais referências do Ocidente contemporâneo, que é precisamente o respeito pelos direitos humanos, a afirmação do valor da liberdade, dos princípios fundamentais do Estado de direito democrático. Isso caracteriza fundamentalmente o Ocidente. O Ocidente terá cometido muitos erros ao longo da história, como todos os espaços civilizacionais. Mas é inquestionável que é no espaço civilizacional do Ocidente que nós hoje encontramos os melhores modelos de organização política, econômica e social. E eu creio que este é o momento de afirmar isso mesmo, de dizer claramente que nós não temos qualquer receio em afirmar isto e que estamos todos unidos na defesa destes princípios e destes valores no momento em que eles estão a ser postos em causa.

Subscreve da reação de Augusto Santos Silva, João Gomes Cravinho, que apontam responsabilidades para Vladimir Putin?

Completamente. Acho muito bem e fiquei satisfeito por verificar que eles tomaram essa posição. É evidente que é uma responsabilidade de Putin. É evidente que é uma responsabilidade do Estado despótico russo, e é evidente que é uma responsabilidade moral de todos aqueles que, infelizmente, ao longo dos últimos anos, têm apoiado esse Estado despótico e autocrático russo. Isso é absolutamente indiscutível. Ninguém tem a mais pequena dúvida sobre isto. Mas, sobretudo, é preciso dizer que este homem é o Nelson Mandela dos nossos tempos contemporâneos e que nós temos a obrigação moral de manifestarmos a nossa solidariedade para com os democratas russos num momento muito difícil da vida política russa. Porque há, naturalmente, na Rússia uma parte da sociedade que é democrática e que está a lutar, como este homem lutou, pela supremacia, pela afirmação dos valores da liberdade, do respeito pelos direitos humanos e que infelizmente estão permanentemente em risco. O que se passou aqui demonstra que não há nenhum limite para o Estado russo. Não há nenhum limite, ultrapassam todas as fronteiras do que é admissível, permitem-se tudo e mais alguma coisa. E nós temos a obrigação, enquanto cidadãos que felizmente vivem em sociedades democráticas, de estar solidários com aqueles que muito perto de nós estão. A Rússia é um país europeu, é um país euro-asiático, mas é essencialmente um país europeu, uma parte substancial, a maior parte da população russa vive na parte europeia da Rússia. Há um país europeu onde hoje estão a passar coisas que são totalmente inadmissíveis e nós temos a obrigação de estar solidários com aqueles que na Rússia, sejam muitos ou sejam poucos, certamente em situações profundamente trágicas, estão a lutar pela afirmação da democracia e dos direitos humanos.