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Francisco Assis, eurodeputado do Partido Socialista. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco.

Obrigado pelo convite.

A CDU, partido conservador, vence as eleições na Alemanha. O SPD, partido que estava no poder, acaba por ser um dos grandes derrotados, fica na casa dos 16%. Que leitura faz dessas eleições na Alemanha?

Os resultados acompanham mais ou menos aquilo que as sondagens já apontavam. Há uma vitória clara da CDU. O SPD sofre uma derrota eleitoral pesada, isso é absolutamente indiscutível, e há um grande crescimento da extrema-direita, na sequência do que tem vindo a acontecer em vários países europeus. Isto cria agora uma nova situação política na Alemanha que muito provavelmente obrigará à reedição de uma solução governativa que já vigorou durante alguns anos, noutras épocas, de uma grande coligação entre a CDU e o SPD. Neste momento, com os resultados que tenho, ainda não sei se é necessário uma terceira formação política, que nesse caso provavelmente seriam os Verdes. Agora, é evidente que a Alemanha está a atravessar uma fase muito complexa, não é só a Alemanha, é toda a Europa, e isso teve repercussões nestas eleições. Por um lado, uma crise económica. A Alemanha está há dois anos com crescimento negativo, está em recessão económica. Toda a economia alemã está a revelar enormes dificuldades de adaptação às transformações em curso no plano tecnológico, sobretudo de uma indústria muito particularmente que é a indústria automóvel, que não foi capaz de fazer a transição para o automóvel elétrico e está a ser ultrapassada pelos americanos e pelos chineses.

Pela China, sim.

Por outro lado, a economia alemã era uma economia que se beneficia muito de uma energia bastante barata, do gás russo. Foi provavelmente a economia mais afetada, das grandes economias europeias, foi claramente a mais afetada pelas alterações que ocorreram nos últimos anos.

As sanções à Rússia. Sim.

Alteração que ocorreu na sequência da invasão da Ucrânia.

Claro, Francisco Assis, só num minuto, perceber se este resultado eleitoral muda de alguma forma aquilo que tem sido a união da União Europeia em torno da Ucrânia e aquilo que são os desafios dos próximos meses.

Não, desse ponto de vista, não creio que vá mudar nada, porque aquilo que vai ser o novo chanceler foi muito claro nesse domínio. Ele é, aliás, um europeísta e um atlantista. Neste momento, ser atlantista é particularmente difícil, mas também particularmente exigente do lado europeu, dado o que se está a passar nos Estados Unidos. Mas ele é um europeísta muito convicto, foi aliás membro do Parlamento Europeu já aqui há muitos anos, e ele foi claro na campanha eleitoral, no sentido de dizer que a Alemanha iria continuar a apoiar a Ucrânia e quer, naturalmente, que a Alemanha tenha um papel ativo na definição das políticas europeias nesse domínio. Portanto, desse ponto de vista, do ponto de vista da política externa alemã, não creio que se vá assistir a uma grande mudança. Aliás, não creio que se vá assistir a uma grande mudança também nas políticas económicas. Há de facto, aparentemente, pelo menos a crer no que foi dito na campanha eleitoral, algum endurecimento em relação às políticas de imigração, que se tornou também um tema determinante deste processo eleitoral e que está claramente na base do grande crescimento da extrema-direita na Alemanha, como tem ocorrido noutros países europeus. Do ponto de vista da política externa, da política económica, veja, na questão da política orçamental, o que vai ser o chanceler fez declarações durante a campanha eleitoral pondo em causa um princípio constitucional alemão que limita fortemente a capacidade de endividamento, limita o défice orçamental e coloca limites ao endividamento público, porque ele percebe que a Alemanha precisa de se relançar, precisa de mais investimento público e precisa de investimento privado, porque a Alemanha precisa de se modernizar, de se tornar uma economia mais inovadora e como tal, e como consequência disso, mais competitiva no quadro internacional. A Alemanha está a passar um mau momento, mas é um grande país com um enorme potencial, como sabemos, e os alemães têm tido até aqui, é evidente que este crescimento não é o melhor resultado do pós 45, do pós-guerra, mas os alemães têm também uma coisa que é importante, em horas difíceis têm alguma capacidade de gerar algum entendimento político e social entre eles, e acho que é o momento em que precisam disso.