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Junta-se a nós neste jornal Marcos Farias Ferreira, professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, a quem agradeço desde já a disponibilidade. Bom dia, Marcos Farias Ferreira, obrigado por estar aqui conosco no Jornal do Meio-Dia. Podemos estar mesmo perante uma viragem à esquerda? O PP arrisca-se a perder o poder ou ainda podemos esperar uma surpresa?

Olá, bom dia. É muito arriscado nesta altura antecipar esse cenário. Certamente que as sondagens realizadas durante o período de campanha foram mostrando essa tendência da possibilidade de perda do Partido Popular, da maioria absoluta. Não estamos a falar da vitória nas eleições, mas tal como em Portugal, na Galiza o sistema é parlamentar e portanto o governo vai sair da composição do Parlamento Galego. E se o Partido Popular não obtiver a maioria absoluta, muito dificilmente conseguirá formar o governo. O sistema tem uma particularidade que é uma barreira eleitoral, partidos com menos de 5% em cada uma das circunscrições eleitorais não elegem e portanto isto limita bastante o número de partidos no Parlamento. Na legislatura anterior havia três partidos representados, Partido Socialista, Partido Popular e Bloco Nacionalista Galego, e portanto muito provavelmente será entre estes três que se vai jogar a composição do Parlamento e do futuro governo.

Marcos Farias Ferreira, eu gostava de lhe perguntar que consequências é que isso pode também ter na política espanhola. O PP nacional pode ser fragilizado a partir destas eleições autonómicas?

Eu colocaria a questão da maneira inversa. Como é que a questão nacional acabou por se projetar e por se espelhar nestas eleições e na possibilidade do Partido Popular perder a maioria absoluta e perder o próprio governo da Junta da Galiza. Essas foram umas eleições antecipadas, porque os presidentes de cada comunidade têm essa possibilidade de marcar segundo as regras a data eleitoral, e esta antecipação procurou jogar com as disputas a nível central, por exemplo, relativamente à aprovação da Lei da Anistia no Congresso Espanhol, procurando retirar alguma vantagem dessa oposição, indignação face à anistia dos independentistas catalães.

E por falar nessa indignação, Marcos Farias Ferreira, eu gostava de lhe perguntar, para terminarmos a nossa conversa, se o resultado destas eleições pode inflamar também os protestos que ainda que estejam em menor dimensão, ainda se mantêm nas ruas.

A grande questão é que nos últimos dias houve uma informação que saiu de dentro do próprio Partido Popular, de acordo com a qual o próprio Núñez Feijóo teria sido favorável a negociar com os independentistas catalães essa anistia e falando da necessidade de uma reconciliação. E portanto, de certa forma, o feitiço voltou-se contra o feiticeiro. Neste momento, a grande questão, e que pode impactar no resultado das eleições, é esta descoberta de que o próprio Partido Popular e a direção atual estaria disposta para chegar ao governo, para conseguir os votos no Congresso dos independentistas catalães, estaria disposto a negociar com eles. Portanto, mais do que aquilo que me acabou de dizer, a questão é esta: como é que neste momento o Partido Popular vai encaixar este descontentamento interno que começa a aumentar com a forma como lida com as questões independentistas e com a própria lei da anistia