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Amanhã o Sporting recebe em Alvalade os ingleses do Arsenal, num jogo a contar para a primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões. A última e única vez que o Sporting chegou a esta fase da competição milionária foi na temporada de 82/83, mas acabou por ser eliminado pela Real Sociedad. Na altura, o clube de Alvalade até venceu em casa por 1 x 0, gol de Manuel Fernandes, mas acabou derrotado por 2 x 1 em Espanha, na segunda mão. Hoje, para uma breve conversa, faz-me companhia Carlos Xavier, ex-jogador do Sporting que integrava este plantel de luxo que em 82 disputou esta fase da competição. Boa tarde, Carlos Xavier, obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Boa tarde.
Pergunto-lhe: há 40 anos, até voltar a esta fase da prova, este jejum agora quebrado pelo Sporting é como um afastar de uma maldição? Como é que vê isto, tendo em conta que acompanhou todo o percurso até aqui?
Na altura, a gente sabia que só o primeiro classificado, ou quem ganhava o campeonato, é que podia participar na Liga dos Campeões. Não é como hoje em dia, há países que até têm três, quatro ou mais clubes a participar, até é o caso de Portugal. Só que na altura era uma competição muito mais difícil, com muitas equipas também de grande renome mundial, onde era difícil chegar aos quartos ou à parte final. E nós nesse ano conseguimos chegar até aos quartos de final e infelizmente fomos eliminados pela Real Sociedad, que também estava a atravessar um grande momento no País Basco, as equipas do País Basco estavam a atravessar um grande momento. Tivemos a infelicidade, mas tudo correu mal no segundo jogo, viajamos no próprio dia.
Coisa que agora já seria impensável.
Sim, hoje em dia nem a UEFA permite equipas chegarem no próprio dia. Até antigamente se ia com dois dias de antecedência e hoje em dia isso é impensável. Nesse dia tudo correu mal por vários motivos. A equipa viajou no próprio dia, não descansámos o suficiente. O Rui Jordão recebe a notícia da morte da mãe na véspera, não viajou com a equipa, e era o jogador que fazia a diferença. E depois também não tivemos sorte com a arbitragem, conseguiu arranjar uns passes ao Melo e Silva, marcou um indireto que depois deu o segundo gol e a passagem à meia final da Real Sociedad.
Diga, como correu a força?
Foi uma eliminatória que estava ao nosso alcance. Se bem que o ambiente em Atoche, onde depois tive a felicidade de lá jogar dois anos e um ano e meio, era realmente um ambiente difícil.
O Carlos já frisou e bem, é muito difícil para as equipas portuguesas chegarem a esta fase da prova. Particularmente o Sporting tem vindo a ter alguma dificuldade. De frente agora o Arsenal, que para muitos é inclusive um dos favoritos a ganhar a Champions este ano, estão muito bem no Campeonato Inglês. Como é que o Sporting deve ferir uma equipa que domina tanto a posse de bola?
O Sporting também gosta de ter essa posse de bola. O que é certo é que são essas equipas que fazem com que a equipa adversária corra demasiado atrás da bola, porque têm jogadores com muita qualidade, conseguem guardá-la. O Sporting também tem jogadores que o fazem. E o Sporting, na última eliminatória que teve com o Arsenal, os eliminamos. Todos diziam que o Arsenal era realmente a equipa favorita, mas o Sporting já mostrou que é capaz de afrontar e ganhar aos tubarões da Europa. Foi o caso do PSG este ano aqui em Alvalade, o atual campeão europeu, e ao City também o Sporting conseguiu fazer grandes exibições. E que se relembre realmente a eliminatória com o Bolonhent que faça com que os jogadores transcendam e consigam fazer um grande jogo, porque vai ser preciso mesmo fazer um grande jogo.
Sendo o Carlos um homem do meio-campo e que conhece bem também o meio-campo do Sporting, passa pelo meio-campo para travar este ritmo frenético da Premier League no centro do terreno?
Sim, é uma equipa que ataca com muita gente, tem muitos jogadores, povoa o meio-campo com demasiados jogadores, um pouco ao sistema que o Sporting jogava, do 3-4-3. Agora o Sporting mudou a sua maneira de jogar, que também é eficiente e também tem muita posse de bola e consegue muitas oportunidades. Vai ter que ter muito pulmão, vai ter que ter muita garra e jogar muito concentrado, porque esta equipa aproveita ao máximo os deslizes. E uma coisa que o Sporting não é forte e eles são muito fortes, que é no jogo aéreo, nos cantos, onde conseguem finalizar e marcar gols com muita facilidade.
Perguntava-lhe agora sobre quem toma as rédeas desta equipa do Sporting. Muito se tem falado do Rui Borges, há quem seja mais crítico, há quem seja mais fã. Onde é que o Carlos coloca Rui Borges na galeria de treinadores da história do Sporting, se ele conseguir levar a equipa às meias-finais, algo que nem a sua geração de ouro conseguiu alcançar?
Sim, seguramente é um treinador que ficará na história do clube Pela conquista do bicampeonato, pelo trajeto que está a fazer, pelo apuramento que conseguiu direto na Liga dos Campeões. Acho que tem todo o mérito em ser um dos melhores treinadores que passou pela história do Sporting. Se bem que muitas vezes é criticado, mas isso também tem tudo a ver com a sua maneira de ser uma pessoa humilde, simpática, carismática.
Com o seu Casio que costuma utilizar. O relógio.
Sim, pois. Mas eu dou-lhe barato. Só que realmente é um treinador que tem demonstrado a sua valia e por isso está onde está.
Perguntava-lhe agora sobre um regresso também muito falado. Vai ser o regresso de Gyökeres ao Estádio de Alvalade e vai voltar a ter contacto com os adeptos do Sporting. Permita-me uma provocação: acha que se Viktor Gyökeres estivesse na sua equipa de 83, o resultado contra a Real Sociedad poderia ter sido diferente? Um ponto de lança.
Nós tínhamos o Rui Jordão na altura. E o Rui Jordão foi para mim o melhor ponta de lança que eu vi atuar em Portugal no meu tempo. E era realmente um jogador que faria a diferença. Um bocadinho ao estilo do Gyökeres, mas com mais técnica, com o pé esquerdo, pé direito, um melhor jogo aéreo de cabeça, era completo. Só que o Gyökeres também é um poço de energia, é um jogador muito forte e um-para-um é realmente demolidor. Não se pode comparar, mas nós na altura tínhamos o melhor ponta de lança português.
Muito bem. Esteve comigo Carlos Xavier, ex-jogador do Sporting, que esteve na última vez que o clube esteve nesta fase da Liga dos Campeões. Amanhã o Sporting recebe em Alvalade os ingleses do Arsenal, num jogo a contar para a primeira mão dos quartos de final. E nós vamos ficar à espera para ver qual é o resultado. Muito obrigado, Carlos.
Um abraço. Obrigado