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Continuamos na análise neste jornal das 10. Junta-se agora a nós, em direto, Diana Soler, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, bem-vinda a este jornal. Obrigado por estar conosco.

Boa noite.

Ainda há poucos detalhes sobre estas negociações, os termos do acordo entre Kremlin e o líder do Grupo Wagner. O que lhe parecem estas negociações, sendo que aqui o grande destaque é talvez esta questão da mudança de Yevgeny Prigozhin para a Bielorrússia?

Sim, eu penso que esse é um dos pontos centrais. Por um lado, porque eu interpreto essa mudança para a Bielorrússia como um exílio. No fundo, é disso que se trata. Aliás, isso até explica porque é que Lukashenko terá sido ele a negociar com Prigozhin. Prigozhin vai para uma missão menor e vai estar sob o escrutínio permanente dos homens de Lukashenko. Portanto, neste aspecto, é uma medida que é verdadeiramente danosa para Prigozhin, que desta forma sai de alguma maneira humilhado, mas também consegue algumas vitórias. Consegue, aparentemente, que as chefias militares possam vir a ser revistas, que era uma exigência que ele já fazia por áudio e vídeo há bastante tempo.

Algo aqui, como também já dissemos, admitido pelo porta-voz do Kremlin, diz que essa questão foi discutida nestas negociações.

Exatamente. E Peskov admite a mudança, penso que são estas as palavras, nas chefias militares. Por outro lado, esta afirmação de que admite uma mudança nas chefias militares, também aparentemente, ainda não sabemos tudo, inicia outra derrota de Prigozhin, que é o facto de a chefia política, ou seja, o Ministério da Defesa, se manter nas mãos de Sergei Shoigu, que era o grande rival, pelo menos na cabeça de Prigozhin, do grupo Wagner e da própria Rússia.

No fundo, aqui Prigozhin quer ficar com o cargo, com o lugar de Sergei Shoigu no Ministério da Defesa.

Não sabemos, isso era uma especulação que se fazia há muito tempo. Sabemos que os grandes ataques que Prigozhin foi fazendo ao longo destes últimos meses, se dirigiam essencialmente ao Ministro da Defesa, ao Ministério da Defesa e às chefias militares, nomeadamente Valery Gerasimov, que é o que possivelmente poderá ser removido do cargo. Portanto, isto é, por um lado, também é uma outra humilhação para Prigozhin, que vê a manutenção de Shoigu no cargo. Relativamente às vitórias do chefe do grupo Wagner, aparentemente a acusação caiu, aparentemente a Duma poderá vir a legislar acerca da existência do grupo Wagner enquanto entidade jurídica na Rússia, que era um estatuto que o grupo Wagner não tinha, e terá havido alguns perdões, senão uma totalidade de perdões aos homens que se mantiveram nesta coluna militar ao lado de Prigozhin.

Sim, também temos a informação de que o Kremlin não pretende abrir qualquer tipo de processo judicial em nome de quem participou nesta rebelião militar, é pelo menos o que avançou também o porta-voz do Kremlin.

Agora, a grande vitória de Prigozhin, se é que isto se pode considerar uma vitória, se era este o seu objetivo, é um bocadinho obscuro, é que mostrou que de facto existe uma grande fragilidade junto da cúpula do poder central russo. Um homem que consegue mover uma tentativa de golpe de Estado, uma tentativa de rebelião, o que lhe queiram chamar, quando quer e que sai dela quando quer, demonstra que, de facto, o Kremlin e especialmente Vladimir Putin, que tinham uma imagem de poder absolutamente intocável, não têm assim tanto poder como aparentemente pareciam ter, ou o seu poder pode ser desafiado sem risco maior por alguém que tenha um corpo de soldados e algum dinheiro. E portanto, isto acaba por ser uma reviravolta bastante estrondosa na percepção que todos nós tínhamos da Rússia, especialmente porque Prigozhin teve sempre o cuidado de nunca acusar Vladimir Putin diretamente, muito pelo contrário, exceto no dia da própria rebelião, em que no fundo contrariou aquilo que era a narrativa de guerra que tinha vindo a ser desenvolvida por Putin desde o dia 24 de fevereiro de 2022. E portanto, na verdade, nós analistas, a maior parte de nós pensava que havia, de facto, um controle do Kremlin sobre esta rivalidade entre Shoigu e Prigozhin e aparentemente esse controle, se existia, era muitíssimo fraco.

Só mesmo para terminar, Diana Soler, pergunto-lhe o que podemos esperar das próximas horas e se acredita ou não que o que assistimos aqui nas últimas horas com esta rebelião militar do grupo Wagner pode mudar o curso da guerra na Ucrânia.

Bom, indiretamente, eu acho que já mudou o curso da guerra na Ucrânia, precisamente porque a partir de hoje, e nestas questões da guerra, a imagem e a liderança contam muito, a partir de hoje percebemos que Putin não é um líder absolutamente incontestado e absolutamente obedecido, como pensávamos que era, e isso para a Ucrânia não deixa de ser um sinal muito positivo e até moralizador. Portanto, nem que seja por causa disso, a guerra muda. O que é que pode acontecer nas próximas horas? Não sabemos, verdadeiramente. Pode não acontecer absolutamente nada. Podemos simplesmente continuar a ter informações acerca deste acordo que foi forjado entre Lukashenko e Prigozhin, mas neste momento, tendo em conta as últimas 48 horas, é muito difícil de efetivamente fazer um julgamento sobre as voltas e as reviravoltas que podem acontecer na Rússia de um momento para o outro. Portanto, eu quanto a prognósticos nas próximas horas não avançaria nada.

Até porque estamos numa situação altamente instável, não é? Tudo pode mudar de hora a hora, como assistimos ao longo desta tarde.

Aparentemente, aquilo que o Kremlin e Prigozhin em conjunto nos dão a entender é que não, quer dizer, que a crise acabou. Agora, isso não quer dizer que a crise tenha verdadeiramente acabado, até porque há muitas coisas que nós não sabemos, muitos pormenores importantes. E o destino das figuras envolvidas nesta rebelião ainda não está propriamente 100% decidido e explanado. Quer dizer, vamos ter que esperar alguns dias ou até se calhar mais tempo para perceber, de facto, o verdadeiro desenlace de toda esta crise.