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É um dia triste para o Partido Socialista. O José Magalhães partilhou o governo com Jorge Coelho, foi ministro em mais do que um governo pelo Partido Socialista. Pergunto-lhe, antes de mais, quais são as suas primeiras palavras numa reação a esta notícia que marca este dia. E também perguntar-lhe como é que foi esse trabalho com Jorge Coelho no governo e, neste caso, também na presidência do Conselho de Ministros.
Uma coisa é exatamente o contrário da outra. Ou seja, o trabalho com ele foi um trabalho entusiasmante, em que ele era um verdadeiro dínamo e as pessoas ficavam bastante fascinadas com a capacidade de passar da ideia à ação e à verificação de resultados, e depois à ideia seguinte e à seguinte. Portanto, essa capacidade de gerar dinamismo e de não abater perante dificuldades, mas simultaneamente a capacidade de assumir responsabilidades quando as coisas corriam mal, como se viu de maneira dramática quando pediu a sua histórica demissão e resistiu a insistências para ficar no governo e assumir as tarefas pós-tragédia, etc. Esse abalo foi um abalo de destino sentido, profundo. E quando disse que a culpa não podia morrer solteira, foi um grito de alma. Ou seja, assumiu uma responsabilidade, não tendo evidentemente absolutamente nada a ver com a tecnologia e com as tarefas de manutenção que levaram àquela tragédia. Essa é uma dimensão absolutamente fundamental que o define como homem, como político. A outra dimensão é a forma como foi vendo as grandes mudanças do mundo e assumindo essas mudanças. Nunca escondeu o seu passado e o seu caminho. Explicou-o, aliás, de maneira franca, às vezes desarmante. E foi como dirigente e como governante em nome de causas e dos governos que marcaram a diferença, porque vieram depois de um ciclo político, quiseram encerrar esse ciclo político e abrir outro caminho. Nesse seu posto de combate, foi seguramente um modelo que no Partido Socialista fez e faz escola. A outra dimensão é a dimensão da tristeza, como é evidente. E essa é, eu diria, inconsolável. Ainda por cima, é um homem que era tratado como um senador, é verdade. Mas nem tinha idade pra isso. Morre jovem, relativamente, segundo os conceitos atuais, e no momento em que toda gente procurava o conselho e o ouvia com toda a atenção possível e imaginável. Relou-se como um comentador bastante fino. Inicialmente não o levaram muito a sério, mas quando começaram a prestar-lhe atenção e ele a mostrar-se, porque aprendia depressa, repararam que escolhia ângulos também mais uma vez desarmantes e, portanto, era um oponente que tinha que ser levado a sério por aqueles que entravam em diálogo com ele. Portanto, é uma perda absolutamente enorme. E eu perdi um amigo, seguramente, que em momentos de dificuldade pessoal não hesitaram em estender-me a mão e procurarem saber o que podiam fazer para me ajudarem, e de facto ajudaram. Ajudou.
Jorge Coelho, que foi até a pessoa que acabou por substituir o próprio José Magalhães no comentário televisivo, na altura na quadratura do círculo, já lá vão quase 20 anos, talvez 15. Queria perguntar-lhe também no que diz respeito ao Partido Socialista. Jorge Coelho sempre foi um homem que quis unir também o PS quando o PS passou por momentos difíceis, até de algumas divisões internas.
Ele conseguia fazer isso porque pessoalmente não cavava trincheiras, no sentido exato que não era alguém que bamboleasse de um lado pro outro, mas não desprezava pessoas com posições distintas, nem se entrincheirava para guardar um rancor e divisões insuperáveis, etc. Nesse sentido, tem um papel muito importante, porque antes de o Partido Socialista ter poder nos alvores de uma maioria absoluta e numa situação que foi muito difícil para as oposições, houve fraturas sérias e o António Guterres não chegou ao poder interno e depois ao poder enquanto primeiro-ministro, sem ele próprio ajudar a ultrapassar essas divisões. Esse capítulo é um capítulo que está mal estudado da história do Partido Socialista, ainda, mas há testemunhas de tudo isso. E testemunhas em condições de atestar o papel que o Jorge Coelho teve em todo esse processo. Aliás, como conhecia o partido como as palmas das mãos e conhecia o país percorrido quilômetro a quilômetro e em diversas circunstâncias, para cima e para baixo, regiões autónomas, etc, estava perfeitamente em condições de responder e de tratar por tu umas centenas de pessoas e de estabelecer diálogo nas mais diversas condições. Aliás, os adversários também reconhecem essa qualidade.