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Recebemos neste jornal das 19h, aqui na Rádio Observador, Manuel Ferreira Leite, antigo presidente do PSD. Muito boa tarde. Obrigado por se juntar a nós neste jornal. Peço-lhe uma primeira reação a tudo o que se está a passar e também esta informação mais recente que saiu sobre estas buscas.

Ainda não absorvi bem, penso eu, em que consiste o problema que está em discussão. Isto porque quando se fala em grupo parlamentar e quando se fala em Assembleia da República, dinheiros do partido e dinheiros da Assembleia da República, eu pergunto qual é a diferença. É que não existe em local nenhum, nem em partido nenhum, nem penso que o próprio presidente da Assembleia da República o consiga fazer, qual é a diferença entre eu estar a pagar um ordenado a uma pessoa que se diz que está no partido ou que está na assembleia. Quer dizer, qualquer pessoa do partido está a trabalhar para os deputados e qualquer pessoa que está a trabalhar para os deputados está a trabalhar para o partido. Uma secretária que atende um telefone no partido pode ser sobre um assunto que é da assembleia ou uma da assembleia pode estar a escrever um discurso que afinal não é para a assembleia, mas é para o partido. Portanto, o trabalho é verdadeiramente confundível, ou seja, não existem dois trabalhos, é só um, a assembleia e o partido. Os dinheiros são absolutamente sabidos de onde vêm. Há dinheiros das quotas e das contribuições que algum afiliado queira dar para o partido, os da assembleia são as contribuições correspondentes ao número de votos dos partidos. Portanto, não há na origem, nem na sua aplicação, qualquer tipo de divergência que possa levar a qualquer tipo de situação.

Está a apontar para aquilo que diz Rui Rio ao descrever uma prática comum?

É impossível não ser comum, porque eu não conheço nenhum partido que tendo dinheiros da assembleia não tenha também deputados, porque se não tem deputados também não tem dinheiros da assembleia. Tem dinheiros da assembleia, tem dinheiros comuns, porque não se consegue distinguir o que é o trabalho. Neste momento atendi um telefone, estou a trabalhar para o partido ou se atendi o telefone e estou a trabalhar para a assembleia. Portanto, essa distinção, para mim, não sou capaz, nem julgo que ninguém é capaz de fazer.

Dr. Manuel, mas isto partiu de uma denúncia, segundo sabemos, de denúncias dentro do partido. Como é que vê também essa situação?

Exatamente. E percebe-se por quê? Porque exatamente aquilo que o Rui Rio fez foi tentar fazer alguma coisa que evidentemente criou reações negativas nas pessoas, como é óbvio, que foi exatamente porque estão todos a fazer o mesmo trabalho, que estão todos a trabalhar para a mesma coisa, porque não se distingue o que é o trabalho de um, do trabalho do outro, acabar com a diferença de vencimentos que havia entre uns e outros. Porque criou evidentemente um grande mal-estar entre aqueles funcionários a quem foi reduzido o seu vencimento e um grande bem-estar e acabou com o mal-estar daqueles que estando a fazer exatamente o mesmo trabalho, recebiam muitíssimo menos do que aqueles que estavam a trabalhar por outras vias, quando estavam todos a fazer o mesmo e todos a trabalhar para o mesmo. Portanto, aquilo que ele quis fazer, do meu ponto de vista, foi exatamente o contrário daquilo que o acusam neste momento.

Não vê nenhuma ilegalidade em usar dinheiro público para pagar funcionários do partido?

Não, se é uma coisa que se chama de ilegalidade, é talvez ilegalidade a todo o momento de cada vez que há uma secretária que bate um discurso que é para o presidente do partido e afinal ele é também deputado e, portanto, tanto devia ser pago pelo dinheiro da assembleia ou é pago pelo dinheiro do partido. Isto não tem nenhum sentido.

Mas então, por exemplo, um ministro usar um carro do Estado ou serviços do Estado para se deslocar a um evento do partido também não é ilegal.

Mas por que é que há de usar um carro do Estado para um partido?

Estou a falar, porque está também ao seu serviço.

Nós não estamos a falar disso. Nós estamos a falar entre trabalho da assembleia e trabalho do partido. É nisso que estamos a falar. Não estou a falar em membros do governo, não estou a falar em nada disso. O Rui Rio, que eu saiba, não era membro do governo, ele era presidente do partido e qualquer presidente de qualquer partido que tenha deputados, tem dinheiros de dois lados. E portanto, como é que se distingue quando a pessoa bate um discurso à máquina, para quem é que está a trabalhar, se está para o deputado, se está para o presidente do partido, quando ainda por cima o presidente do partido é deputado. Quer dizer, não tem sentido. E nós todos percebemos que, por um lado, é evidente que houve, com certeza, alguma denúncia e muito mal-estar entre aqueles que tiveram uma redução de vencimento. Por outro lado, também ninguém fica bem visto quando, perante uma coisa destas, se chega à casa de uma pessoa com todas as televisões à porta. O que significa que é um cartão de visita muito usado, mas cada vez mais desgastante daquilo que é a nossa Justiça em Portugal. Quer dizer, não é possível.

Sim, mas quando está a apontar para essa questão dos salários e para essa remodelação que foi feita por Rui Rio a nível interno, está a apontar o dedo a alguém? Suspeita de alguém em concreto?

Não, não suspeito de ninguém. Se há uma denúncia, com certeza que foi feita por alguém que ficou lesado nesta reestruturação. Portanto, é evidente. Ele fez uma reestruturação da organização do partido, dos seus recursos humanos. É evidente que alguém ficou lesado e ficaram muitos lesados e ficaram muito mal-dispostos. Agora, também houve o contrário.

E agora como é que fica a imagem do PSD depois deste episódio?

Eu acho que devia perguntar, eu peço desculpa, mas aquilo que eu pergunto é: como é que fica a imagem da Justiça? Desculpe, quer dizer, porque no fundo nós pagamos os dinheiros da Justiça e não pagamos para este espetáculo. Não é possível o nosso dinheiro estar a ser pago Para que televisões estejam à porta de uma pessoa que estão lá os agentes da justiça e foram esses também que convocaram as televisões. E portanto, quando isto é assim, quando a justiça está na situação desagradabilíssima em que está e ainda por cima dá espetáculos desta natureza, que continua a convocar as televisões para filmarem tudo desde o início. Ouça, eu acho que o Ministério Público deveria ter muito cuidado exatamente com a imagem que está a dar.

Sim.

E também não tenho nenhuma dúvida que se há pessoa que tenha lutado e lutou contra o Ministério Público, foi o Rui Rio. Portanto, é evidente.

Já falou com o Rui Rio?

Falei com o Rui Rio.

O que é que lhe disse?

Ouça, interessa pouco o que é que eu lhe disse. Não é isso que está neste momento aqui em discussão. O que interessa para o público não é aquilo que eu disse ao Rui Rio, nem aquilo que eu penso. O que interessa, aliás aquilo que eu penso e aquilo que estou a dizer a si.

Sim.

Isto faz-me lembrar um pouco aquela história que havia uma cena humorística há uns anos numa revista, que era a costureira e a empregada, e quem fazia a costura, aquela pessoa era a mesma, uma vez era a patroa, outra vez era a empregada. Quer dizer, parece mais ou menos uma discussão deste estilo. E portanto, eu acho que há aqui um problema sério. Repara uma coisa, mesmo que houvesse aqui algo de extremamente grave, e que evidentemente deveria ser vista pelo Ministério Público, não se vai com três televisões atrás ou com quatro televisões atrás. Isto não é suscetível de ter respeito pela Justiça. E este ponto aqui é um ponto grave para nós, é o ponto grave do país.

Manuela Ferreira Leite, antiga presidente do PSD, muito obrigado por se ter juntado a nós neste jornal das 19:00, aqui na Rádio Observador