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Temos agora em direto neste jornal Rui Tavares, deputado único do LIVRE e vereador da Câmara de Lisboa. Rui Tavares, bom dia, obrigada pela disponibilidade. Independentemente de todo o processo jurídico, é preciso tirar conclusões políticas deste caso?

O LIVRE espera ter esclarecimentos e satisfações em relação a este caso. Aquilo que ontem ouvimos, independentemente das dúvidas que possamos ter acerca da forma como são selecionados aqueles que aí aparecem, são autarcas do PSD na sua jactância, na sua arrogância, não sabemos se ironicamente ou não, a dizer que o então presidente da Câmara, Fernando Medina, se estaria a portar bem porque os candidatos para as suas juntas de freguesia eram, e agora o qualificativo, acho que já toda a gente o conhece, não o vou repetir aqui, porque acho que quem fala assim de possíveis adversários políticos é que é aquilo que está a dizer dos outros. Devo sublinhar que esta conversa se passa aparentemente seis meses antes das eleições, portanto o LIVRE não tinha sequer assinado nenhum acordo coligatório para a Câmara de Lisboa e que o LIVRE nessas eleições quis concorrer a juntas de freguesia detidas pela direita. Nós quisemos, não é algo que nos tenham proposto. Juntas de freguesia que sabíamos que eram difíceis. Por quê? Não queríamos concorrer contra o PCP em Carnide, porque achamos que o PCP em Carnide está a fazer um bom trabalho e porque não entramos num acordo coligatório dizendo que saia o presidente da junta de freguesia X ou Y pra entrar alguém do LIVRE. Portanto, concorremos a freguesias que sabíamos que eram difíceis. E agora veja só, a candidata Ofélia Janeiro, na junta de freguesia do Areeiro, a que ontem a peça chamava de ilustre desconhecida. Pois bem, essa ilustre desconhecida ficou a 100 votos de derrotar Fernando Brancante, um histórico do PSD, numa freguesia que foi sempre da direita. Nunca a esquerda esteve tão próxima de conquistar a Junta de Freguesia do Areeiro. Portanto, para uma candidata ilustre desconhecida, que merecesse esse qualificativo do PSD, praticamente tirou de lá o PSD. Na Estrela, é verdade que ficamos mais longe, mas quatro anos depois uma candidata do PS ficou ainda mais longe. É uma junta historicamente de direita e difícil de conquistar. E já agora, não era do LIVRE, mas do movimento de cidadãos por Lisboa, já que também foi atingido e é um movimento que muito respeitamos e com o qual temos boas relações de trabalho. Nas Avenidas Novas, a candidata, também ilustre desconhecida, derrotou o PSD e tirou de lá um histórico do PSD numa junta de freguesia de direita. Passa-se que Lisboa tem 24 juntas de freguesia e não são todas de esquerda, como toda a gente sabe.

Rui Tavares, mas está aqui a dizer que a estratégia do LIVRE era derrotar a direita nas juntas de freguesia, mas o que ficamos ontem a conhecer é que estes dois maiores partidos de Lisboa, PS e PSD, estiveram numa troca de favores para continuarem no poder um ao outro.

A estratégia do LIVRE é lutar para não termos política de bloco central no nosso país. E para isso, tanto na política nacional como na política autárquica, é preciso que a esquerda saiba convergir para que precisamente haja alternância e alternativa, porque a pior coisa que pode acontecer ao país... Não, peço desculpa. A segunda pior coisa que pode acontecer ao país é termos políticas de bloco central, seja na junta de freguesia ou no país, que misturam os dois grandes partidos. Por isso até devo dizer, se nós no Areeiro tivéssemos tido conosco mais o Bloco de Esquerda ou mais o PCP, ou até mais o PAN, nós teríamos ganhado a junta de freguesia do Areeiro, porque ficamos a 100 votos de distância.

Isto muda a relação institucional que o LIVRE vai passar a ter com o PS?

O LIVRE faz um caminho em Lisboa de cara levantada. Aliás, convido toda a gente a ir à Feira do Livro, pelas boas razões de ir à Feira do Livro, mas também na Feira do Livro encontrar a banca do LIVRE com as nossas propostas para Lisboa e o novo jornal, que posso já anunciar aqui em primeira mão na Rádio Observador, que se chama LIVRE Alface e que é um jornal do LIVRE em Lisboa, independente, fazemos o nosso próprio caminho. Evidentemente que quando falamos de candidaturas eleitorais, toda a gente o sabe, e isso no LIVRE é um ponto importante, somos uma esquerda de convergência. E em particular nas eleições autárquicas, com a lei autárquica que nós temos, quem tem um voto a mais ganha a Câmara Municipal. E o LIVRE não é a favor que aconteça o que aconteceu nas últimas eleições, em que a esquerda tem uma ampla maioria em Lisboa, mas perde a presidência da Câmara por se apresentar dividida. Deixe-me dar uma ilustração do que isso quer dizer. A nossa candidata, a tal ilustre desconhecida, Ofélia Janeiro, no Areeiro, não foi eleita presidente de junta, não foi para o executivo, recusou ir para o executivo, fez um trabalho como membro da Assembleia da Freguesia absolutamente ímpar. Pôs no mapa a comunidade do Portugal Novo, que é um bairro esquecido de uma freguesia mais rica como a do Areeiro, de que ninguém falava, onde as pessoas não tinham acesso aos títulos de propriedade das suas casas, e a verdade é que deu enormes passos para resolver o problema do Portugal Novo.

E Rui Tavares tem falado muito aqui das questões de Lisboa.

Temos orgulho.

Deixe-me só perceber.

Só terminar pra dizer uma coisa. O problema do Portugal Novo neste momento poderia estar completamente resolvido e não está porque Carlos Moedas não faz por isso. E é por isso que nós achamos que é importante haver alternativas claras e o LIVRE está nas alternativas claras.

E está a falar muito, Rui Tavares, de Lisboa e estamos infelizmente com muito pouco tempo. Não dá, portanto, uma leitura nacional a este caso?

Dou, quero esclarecimentos e quero satisfações em relação a todo este caso, por parte dos responsáveis políticos, do PSD, que tem aqui alegações muito graves de corrupção, do PS, que tem aqui alegações também bastante graves de entendimentos políticos com outras forças, dos jornalistas, do Ministério Público, coisas que estão em segredo de justiça, etc. Agora, uma coisa é clara: o LIVRE está na política, porque não é peça desta fruta. O LIVRE está na política e temos em dias como este é que temos muito orgulho de ter formado o partido, para que Portugal um dia não tenha uma escolha entre a política do costume ou dar o salto da frigideira pro fogo, para os populistas e pra extrema-direita. Nesse dia haverá uma alternativa cívica e democrática, séria e legítima, e o LIVRE faz parte dessa alternativa.