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Estou à conversa com Madalena Costa. É patinadora de apenas 17 anos, mas a idade é apenas um número. Venceu, na passada quarta-feira, o título de campeã do mundo de seniores. Isso mesmo, tem idade ainda de júnior, 17 anos, mas já brilha nos principais palcos da modalidade. E para além disso, já não bastava o título de campeã mundial, também fez a maior pontuação de sempre em todos os escalões da patinagem artística mundial feminina: 260.15. Tenho comigo a própria Madalena Costa ao telefone. Madalena, mais uma vez, muito obrigado por ter aceitado este convite da Rádio Observador. Esta prova decorreu na quarta-feira, mas pergunto-lhe, e agora já em casa, é natural de Santa Cruz da Madeira, já lhe caiu a ficha?
Obrigada eu pela oportunidade. Acho que sim. Acho que neste momento já posso dizer que sim. Estou muito feliz com esta conquista. Começou por ser um sonho, depois tornou-se um objetivo e agora tornou-se realidade.
E era algo que quando chegou a Tóquio, era algo que já tinha como objetivo em mente, muito por causa dos títulos europeus que já conquistou. Mas era algo que, e tendo em conta que é no escalão de sénior, era algo que já estava à procura?
Já era bicampeã do mundo em júnior. Entretanto, este ano subi ao escalão de sénior, que já sabia que iria ser mais desafiador, mas precisamente por essa razão é que eu subi. Queria competir de uma forma que puxasse mais por mim e com atletas mais velhas do que eu, com mais experiência. Mas sabia que se fizesse a minha parte e se tudo corresse bem, que sim, poderia ser possível, e assim foi.
A Madalena tem apenas 17 anos. Disse agora uma frase surpreendente que queria competir com uma competição que puxasse mais por si. Pergunto-lhe, tendo em conta que é necessária uma rotina muito rigorosa, como é a sua rotina, tanto de treino como também de escola?
Como todas as adolescentes da minha idade, eu tenho aulas das 08h00 até às 17h00, duas vezes por semana. A minha escola é assim, e os outros dias tenho até à 13h00. Quando eu tenho aulas até à 13h00, eu almoço no carro, já a caminho do treino e treino 01h30 na hora de almoço. De seguida, vou pra fisioterapia, que é fisioterapia preventiva e ginásio. Vou pra casa, estudo ou vou pra explicação, e depois treino das 19h00 às 22h30. Quando eu tenho aulas até às 17h00, eu só costumo ir pra casa estudar e treino das 19h00 às 22h30 ou das 20h00 às 22h30, dependendo do dia.
E creio que devido essa quase restrição, ou pelo menos não é restrição, mas é um horário muito rigoroso, pergunto-lhe se há que fazer vários sacrifícios na vida familiar e na vida social.
Sim, como qualquer desporto, temos de abdicar de muita coisa. Passamos horas e horas a treinar, enquanto os meus colegas, os meus amigos e as outras pessoas da minha idade vão se divertir, descansam, têm mais tempo de estudo do que eu, obviamente. Mas também tudo isso traz-me oportunidades que essas pessoas não têm. Por exemplo, com 17 anos, estar a competir num mundial na China e trazer a medalha de ouro não é pra qualquer um.
Sim. Pergunto-lhe, tem apenas 17 anos, volto a referir essa idade, quando é que surgiu este sonho, este gosto, esta paixão pela patinagem?
Eu comecei a patinar com quatro anos, porque a minha mãe foi patinadora e é treinadora, atualmente é ainda a minha treinadora. E com quatro anos eu comecei a ir aos treinos e a patinar mais numa brincadeira. Depois, com sete anos, eu fui campeã nacional pela primeira vez e foi aí que eu decidi que queria mostrar que não tinha sido sorte e queria revalidar esse título mais vezes. Então continuei a treinar, digamos, um pouco mais a sério. E agora já sou nove vezes campeã regional, nove vezes campeã nacional. Tenho quatro títulos europeus e três mundial, sendo este último tão especial como sénior.
Já agora, falou dessa sua mãe. A Xana Rodrigues primeiro é sua mãe, mas depois também é treinadora. Como é que é ter esse papel duplo, não só em casa, ter o papel de mãe, mas depois vestir a capa de uma figura certamente mais exigente dentro da pista, a figura de treinadora, alguém que durante provas e durante treinos está sempre a puxar mais por si. Como é essa gestão, por assim dizer?
Às vezes não é uma gestão fácil, mas nós tentamos sempre gerir da melhor forma. Quando estamos em casa, temos uma relação de mãe e filha e quando estamos em ringue, dentro de pista, no pavilhão, temos que dividir os papéis e eu sou simplesmente uma atleta e a minha mãe, no caso, é treinadora. Falamos apenas da parte técnica e principalmente nos dias das competições, eu não gosto mesmo de misturar os papéis, prefiro separar as coisas, ouvir as correções e focar-me na parte técnica. Nem sempre é fácil, porque obviamente às vezes discutimos. Mas também temos uma relação que nem todos os atletas têm com os treinadores. Às vezes basta um olhar, uma expressão que eu já percebo. E a minha mãe acaba por controlar coisas que os outros treinadores não conseguem controlar.
Estávamos há pouco a falar da marca que alcançou em Pequim, na China, 260,15. Para um leigo que esteja a ouvir da patinagem, o que é necessário para atingir esta marca?
É uma pontuação, uma marca muito alta para a modalidade. Nos dois programas, eu apresentei programa curto e programa longo, nos dois dias de competição. Apresentei saltos triplos, que são saltos com três rotações no ar, em combinação. Vários piões, que são as ditas piruetas, com as posições mais difíceis, ou seja, com o valor máximo na modalidade. E não só uma boa parte técnica, que foi o que eu referi até agora, mas também uma boa parte das componentes. Que é o quê? Digamos que é a parte mais artística, ou seja, a coreografia, a expressão facial, os movimentos em si, tudo isso é avaliado numa outra vertente e também entra para a nota final.
E para terminar, apenas duas questões, uma para, neste caso, Santa Cruz, onde vivo na Ilha da Madeira, que chegou e a presidente da Câmara disse que lhe ia entregar a chave da cidade. O que significa este prémio para si?
É uma recompensa a todo o trabalho. É algo que obviamente também dá mais visibilidade ao meu desporto, a mim e a todas as pessoas que trabalham comigo. Obviamente, é muito especial e estou muito agradecida por esse reconhecimento, porque obviamente com estes resultados honro o país, mas também a Ilha da Madeira e Santa Cruz, que é o meu berço e a cidade que me viu crescer.
Para terminar e para todos os atletas e todas as atletas que nos ouvem nesta entrevista, pergunto-lhe, e este é quase como um conselho de uma campeã do mundo, o que é preciso para ser um bom ou boa patinador?
É preciso muito foco, muita dedicação, saber sempre ouvir os feedbacks dos nossos treinadores e da nossa equipa técnica. É preciso acreditar, sonhar e lutar até o fim, porque se podemos sonhar, podemos tornar os nossos sonhos realidade. E além disso, é saber acreditar no processo, porque às vezes parece que não vamos conseguir, que é muito difícil, aqueles dias em que não temos tanta vontade de treinar, mas é continuar sempre, porque os dias mais difíceis são aqueles que nos ensinam mais. É saber continuar, acreditar, saber continuar quando nem sempre estamos tão motivados e lutar até o fim.
Madalena Costa, mais uma vez muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. A patinadora portuguesa de apenas 17 anos, que começou como campeã nacional, passou por campeã europeia e agora, no escalão de seniores, já é campeã do mundo. Mais uma vez, Madalena Costa, muito obrigado por esta entrevista.