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No jornal das 10 da Rádio Observador, temos conosco o colunista do Observador, André Abrantes Amaral. Bom dia, bem-vindo à Rádio Observador. À partida, há algum partido que tenha o caminho mais facilitado para este novo ano político?
Se olharmos para as eleições que se avizinham, que são as da Madeira, diremos que é o PSD e, de certa forma, a Iniciativa Liberal, na medida que o PSD espera que se ganhe e renove a maioria absoluta, e a Iniciativa Liberal, de acordo com as sondagens, poderá eleger um representante parlamentar na Assembleia Regional da Madeira. Isso será bom para esses dois partidos, sendo que a Madeira é um caso à parte e tem uma especificidade que é muito própria e não se podem retirar grandes leituras nacionais do que sucede lá. De certa maneira, podemos até dizer que o PSD na Madeira é aquilo que o Partido Socialista é no país todo, ou seja, uma força política que governa de forma ininterrupta aquele arquipélago. O Partido Socialista, não de uma forma ininterrupta, mas tirando determinados momentos muito pontuais e de situações muito difíceis, desde 1995 que governa o país e nessa medida eles se assemelham. Estava aqui a ouvir o discurso de Miguel Albuquerque e a sorrir, porque as críticas que Miguel Albuquerque faz ao Partido Socialista e ao Partido Socialista Nacional são um pouco as críticas que deveria fazer ao PSD Madeira.
Mas a Madeira também pode ser um problema para Luís Montenegro, porque se houver uma vitória desta coligação do PSD com o CDS sem maioria absoluta e se for preciso uma coligação com o Chega, ela pode mesmo existir e isso aí pode ir contra aquilo que tem sido o discurso de Montenegro.
Sim, há esse risco que suceda, mas daquilo que temos visto nas sondagens, à partida não haverá grandes questões. Aliás, tem havido algumas notícias também de certas divisões no Chega, não sei, sinceramente desconheço se isso terá alguma repercussão no eleitorado da Madeira, que como disse, é um eleitorado muito específico, uma região muito específica politicamente, com muitas especificidades, e portanto é difícil nós do continente chegarmos a ter uma análise objetiva do que é que poderá suceder. Mas sem dúvida que é algo que o PSD/CDS, neste caso, se alguma vez não tiverem a maioria absoluta, como é que poderão resolver a questão, se coligarão com o Chega, o que se colocará sempre com alguns problemas, ou se coligarão com a Iniciativa Liberal, que sinceramente não estou muito a ver, porque existem, nessa medida, muitas divergências, muito mais acentuadas do que no continente, como disse, devido às especificidades da região.
Esta rentrée vai ficar marcada também pela estreia em rentrées políticas dos líderes de três partidos, Rui Rocha na Iniciativa Liberal, Paulo Raimundo no PCP e Mariana Mortágua no Bloco de Esquerda. Talvez tirando desta equação Mariana Mortágua, porque já era de facto uma militante do Bloco de Esquerda muito conhecida e reconhecida pelos eleitores, Rui Rocha e Paulo Raimundo estão a saber afirmar-se nos meses que já levam de liderança dos respectivos partidos?
Esse é um processo longo. Eu não sei se Paulo Raimundo e o Partido Comunista terão essa necessidade, porque é uma instituição coletiva, coletivista e muitas vezes aposta num líder mais apagado, de forma a passar a mensagem de que são não uma liderança política, mas todo um partido. Aliás, eu julgo que só por esse motivo é que Paulo Raimundo poderá ter sido escolhido e não João Oliveira ou João Ferreira, que seriam pessoas com muito mais projeção mediática e muito mais conhecidas e possivelmente até para, em termos eleitorais para o PCP, uma escolha muito mais acertada do que esta que acabou por ser feita. Quanto ao Rui Rocha, julgo que aquilo que está a ser feito é um caminho que é extremamente difícil, até porque o líder anterior, João Cotrim Figueiredo, conseguiu ter uma grande presença na vida política, que se deveu a uma coisa muito simples: ele era o único deputado da Iniciativa Liberal. Isso ter-lhe-á colocado, sem dúvida, muitas dificuldades em termos de conseguir se afirmar, mas ao mesmo tempo, sendo a única figura, também acabou por lhe facilitar um pouco esse papel, o que não sucede aqui já com Rui Rocha, na medida em que há outros deputados, o partido está muito maior e, portanto, existem mais figuras políticas e existe também sempre a comparação com o passado, com João Cotrim Figueiredo e com Carlos Guimarães Pinto, e existe sempre essa necessidade de afirmação. Mas também não esquecer que tanto Carlos Guimarães Pinto quanto João Cotrim Figueiredo, quando começaram, eram uns desconhecidos, ninguém sabia deles e possivelmente seis meses após terem sido eleitos líderes do partido da Iniciativa Liberal, também não eram muito conhecidos. Ficaram mais tarde.
E acabaram por fazer o seu caminho. Mesmo para terminar, falamos também um pouquinho do PS e do governo, porque praticamente desde que o governo tomou posse, que tem sido gerir crise atrás de crise e vários problemas, muitas demissões no governo. O que se espera do PS também nesta rentrée, neste novo ano político? Já há algum cheirinho a sucessão, também com o regresso de Pedro Nuno Santos ao Parlamento?
Diogo, é muito difícil fazer projeções sobre o comportamento e as decisões de António Costa. Nós estamos há imenso tempo a dizer que o governo ia cair, depois afinal não caiu, depois ia haver uma remodelação, afinal não houve, que havia um ministro das Infraestruturas que ia cair, não caiu. Ou seja, basicamente há a sensação, e acho que não é sensação, é quase uma certeza que se António Costa percebe Que as pessoas estão à espera de um determinado tipo de decisão, ele faz exatamente o contrário, quando mais não seja para provar que quem manda e quem decide é ele próprio. Poderá ser uma certa teimosia, não sei, ou uma certa necessidade de afirmação, ou se é mesmo assim na sua forma de ser. Portanto, é extremamente difícil estarmos a imaginar alguma coisa. Agora, a verdade é que poderá ser a altura ideal de fazer alguma remodelação e António Costa poderá ter tempo para pensar nisso desde que surgiu toda a polêmica à volta da TAP, ou seja, teve o mês de maio, junho, julho, ainda agora agosto, as férias, possivelmente ele pode surpreender com uma remodelação, não sabemos.
E mais ultrapassada, André, parece estar uma dissolução, ou não? O timing.
Sim, isso eu julgo que sim. Aí António Costa conseguiu resolver com aquela...E nessa medida, a teimosia dele em manter o ministro das Infraestruturas perante a insistência de Marcelo Rebelo de Sousa que fizesse o contrário, foi suficiente para afastar de vez essa ideia da dissolução, que está completamente posta de fora. E neste momento, António Costa decide se o mandato vai ou não vai até o fim. Quanto à pessoa do Pedro Nuno Santos, isso ainda há muita coisa, porque Pedro Nuno Santos tem uma grande vantagem, que é o Partido Socialista, ou parte do Partido Socialista gosta bastante dele, mas existe ali uma boa parte mais moderada, se podemos assim dizer, que não vai muito à cara com aquele tipo de posicionamento à esquerda, mais virado para o PCP e para o Bloco. E isso poderá lhe colocar alguns entraves e alguns problemas dentro da própria associação. E não é a primeira vez que o Partido Socialista o travou. Sempre que ele tentou esticar um bocadinho a corda, ele foi travado. E vamos ver o que é que vai acontecer, mas é muito difícil estar a fazer projeções a partir deste momento.
A fazer projeções. André Abrantes Amaral, muito obrigado.
Obrigado eu.
Colunista do Observador, aqui a ajudar-nos a olhar para as próximas semanas e meses marcadas pelo regresso à vida política. Pelo menos três partidos deram ou vão dar o pontapé de saída este fim de semana, todos em terreno algarvio. São eles o PSD, Iniciativa Liberal e o PCP. Até à primeira quinzena de setembro, todos os restantes partidos têm eventos na agenda.