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Foi ministra no mesmo governo de Jorge Coelho, também foi presidente do Partido Socialista. Agradeço desde já a disponibilidade, Maria de Belém Roseira. Uma primeira reação à morte de Jorge Coelho, um nome importante da política nacional e em particular também do Partido Socialista.

A minha reação é uma reação natural de profundíssima tristeza, pesar pelo desaparecimento inesperado e trágico de um grande amigo. Porque nós ao longo destas últimas décadas tivemos muitas interações, não apenas em termos políticos, mas também pessoais. Ele era uma pessoa de uma enorme generosidade. Estava sempre ao lado dos seus amigos, mesmo que não concordasse com eles. De uma lealdade absolutamente inultrapassável e que deve ser sublinhada e reconhecida. Ele era uma força da natureza, era a alegria de qualquer espaço onde estivesse. E era uma pessoa com uma capacidade enorme de intuição política, de perceber aquilo que era importante, de perceber o que era fundamental e de não ligar ou desvalorizar o acessório. Eu acho que ele ficará para sempre muito marcado por causa da atitude que teve quando da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Mas isso era ele. Essa atitude espelha o que ele era.

Era um homem também de convicções fortes. Podia dizer-se que era um homem também impulsivo no que diz respeito à política ou era um homem mais racional?

Não, era uma pessoa ponderada, mas com uma enorme intuição e uma enorme sensibilidade. Tinha uma capacidade de leitura das coisas que era muito sagaz e ao mesmo tempo muito sensível. Ele preocupava-se muito em construir. Enquanto muita gente se preocupa em destruir, ele sempre se preocupou em construir. E eu acho que isso tem que ser sublinhado no seu caráter. Foi uma pessoa que me ajudou sempre em todas as circunstâncias da vida, quer no governo, quer em termos pessoais. Eu também fui muito amiga e muito próxima dele. Ele esteve comigo na candidatura à presidência da República. Foi um grande lutador pelas causas em que ele acreditava e não perdia energia nem fulgor na defesa daquilo que ele considerava correto e justo.

É também um exemplo a seguir dentro do próprio Partido Socialista?

É um exemplo a seguir não apenas no Partido Socialista, é um exemplo a seguir de como mesmo não estando na vida política, a sua grande última batalha foi a luta pelo desenvolvimento interior. Ele presidiu àquela comissão ou integrou a comissão que apresentou um relatório para nós realmente combatermos essas assimetrias que devem chocar-nos e revoltar-nos. E ele fez todo o seu empenho e deu o exemplo, porque isso é que é importante. Ele foi coerente com isso. Ele fez realmente aquilo que entendeu que devia fazer para tentar desenvolver a sua terra, os produtos da sua terra. Investiu imenso na criação de uma atividade em que ele até me dizia com grande orgulho os contratos de trabalho que tinha celebrado. Ninguém tinha precariedade na empresa. As pessoas eram reconhecidas e respeitadas. Ele tinha realmente uma personalidade encantadora, que não divulgava porque não devia fazer alarde disso, mas para quem o conhecia melhor, realmente percebia como ele era coerente no pensamento, na ação e no discurso, porque há muita gente que diz e depois na prática não faz o que diz. E é uma perda irreparável. É uma perda, porque estas pessoas fazem muita falta. Fazem muita falta porque são ouvidas, porque são escutadas, porque dizem as coisas certas e porque podem impulsionar num sentido positivo. E portanto, aquilo que eu recordo dele é fundamentalmente o que deixa construído, o esforço que fez nesse sentido e a alegria com que o fez. Agora, este desaparecimento é uma perda irreparável, em primeiro lugar para a família, para os amigos, mas também como personalidade da vida pública que ele acabava por continuar a ser.