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No outro confinamento foi permitido, pelo menos às livrarias de porta para a rua, de poderem vender, satisfazer os clientes, mesmo que eles ficassem na rua. Serviam-nos ali à porta. Agora, pelos vistos, nem isso. E não vejo qual é a justificação para isso. Verdadeiramente não vejo, não entendo.

Há a possibilidade das vendas também online, que aumentaram neste período.

Sim, mas não substitui o volume de negócio que desaparece. A venda online cresceu, sem dúvida nenhuma, tem sido uma alternativa, mas não satisfaz aquilo que se perde na venda nas livrarias. Não é pouco mais ou menos. Portanto, isto é muito difícil, não só para os livreiros como para os editores, porque depois toda a cadeia vai sofrendo.

E estão à espera de mais apoios do governo?

Olha, a senhora ministra parece que hoje irá dizer alguma coisa, mas se for como foi da outra vez, pois os apoios foram nenhuns, foram irrelevantes. Houve um apoio que eu direi quase simbólico para livrarias muito pequeninas e em condições muito estritas, que nem sequer terá conseguido apoiar verdadeiramente as livrarias de rua mais pequenas. E depois a senhora ministra remeteu sempre o setor para o Ministério da Economia, para a legislação geral, para os apoios gerais. Portanto, da senhora ministra da Cultura verdadeiramente já não contamos com nada.

E tem alguma estimativa de perdas? As perdas do final do ano.

Eu não sei dizer isto. Mas posso lhe dizer que durante o ano que terminou, o setor previu à volta de 18% de atividade. E que deixou todo o setor numa situação de fragilidade grande. Entramos este ano, ainda nem sequer se fez os apuramentos das vendas do final do ano passado, que são sempre feitas no princípio do ano seguinte. Já estamos novamente nesta situação, e com os apuramentos que se fazem tradicionalmente no primeiro trimestre de cada ano, isto vai ser muito difícil.

As perspectivas não são animadoras, claro.

Não, nada animadoras, até porque estamos numa situação em que o senhor primeiro-ministro anunciou um mês, claramente sabendo que isto vai ser muito mais do que isso. Não tenho nem dúvida nenhuma. Quando se anuncia um mês, sabendo que há possibilidade de prolongar, conhecendo-se os números que existem e aquilo que já foi dito, isto não vai ser um mês, isto vão ser, se calhar, dois.

A APEL é contra que os supermercados não possam vender livros.

Exatamente. A APEL entende que as pessoas têm que ter acesso ao livro. E não pode haver, por haver restrições nas questões da pandemia e de saúde, restrições em termos de produtos. Ou seja, se as pessoas podem ir aos supermercados nos quais existem livros ou a qualquer outro comércio que possa estar aberto onde existam livros, não há qualquer razão para impedir a venda de livros nesses pontos de venda. Esse é o primeiro ponto. Se é por uma questão de concorrência, então temos que pensar o seguinte: existem canais que vão continuar a funcionar. Naqueles canais onde não for possível, pelas questões de pandemia, nomeadamente as livrarias que não têm porta pra rua, ou ainda não sabemos das livrarias que têm porta pra rua, se podem trabalhar ou não e em que condições, esses canais que não podem trabalhar por força das circunstâncias, devem ter uma compensação por parte do Ministério da Cultura, por não poderem trabalhar. Isso sim, é que seria uma situação de equilibrar os pratos na balança, não impedir o acesso das pessoas aos livros. Isso parece-me um perfeito disparate e um erro tremendo, que não faz sentido, ainda muito mais numa situação destas, em que as pessoas têm que estar isoladas, onde o livro ocupa, de facto, uma das formas de satisfazer o tempo e os interesses das pessoas. Portanto, isto é muito claro. Não faz sentido restringir canais comerciais que possam trabalhar com o argumento de concorrência. Não. Se há canais comerciais que ficam lesados por não poderem trabalhar, eles devem ser compensados, mas não devem ser impedidos os outros de trabalhar. Isto é muito claro.