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Junta-se a este jornal do meio-dia o jornalista Filipe Daviles, que acompanha a Igreja Católica há vários anos, Diogo. Boa tarde, Filipe Daviles, bem-vindo à Rádio Observador. Dom Rui Valério era o melhor nome que o Vaticano podia ter escolhido?
Quem somos nós para dizer? Havia, de facto, outros nomes. Falou-se no bispo de Coimbra, dom Virgílio, falou-se no bispo do Funchal, dom Nuno Brás, falou-se até no padre Nuno Gonçalves, que é um jesuíta que está em Roma, que tem também um percurso assinalável em Roma. Todos eles tinham vantagens e desvantagens. O dom Nuno Brás eu acho que chegou a ser um candidato muito forte. É alguém que já foi bispo em Lisboa, mas tem um historial em Lisboa que pode ser a favor e pode ser contra. Foi reitor do seminário, isso às vezes cria alguns anticorpos entre alguns membros do clero, porque o reitor do seminário tem que sim e que não, às vezes e mandar pessoas para onde não querem ir. Portanto, eu acho que o Vaticano acabou por optar por alguém que vinha com uma ficha limpa. O dom Rui Valério é missionário.
Jogar pelo seguro.
Jogar pelo seguro e permitir que quem entrasse pudesse agir sem grandes obstáculos. Ele agora tem outra margem de manobra. Ele ainda vai ter que escolher uma equipa de apoio. Quando falo em equipa, estou a falar de três bispos auxiliares. Lisboa está neste momento a ficar sem bispos nenhuns, porque presume-se que dom Américo será eventualmente transferido para Roma ou para uma diocese, não é certo.
Já lá vamos.
E o dom Daniel morreu há relativamente pouco tempo e o dom Joaquim já está na idade da reforma, portanto, dom Rui Valério vai ter que escolher três bispos auxiliares para trabalhar com ele. Conhece Lisboa porque foi pároco em Lisboa, emprestado, por assim dizer, pelos missionários monfortinos, portanto, Lisboa não lhe é uma cidade estranha, embora ele não seja natural de Lisboa, mas ao mesmo tempo ele não é do clero de Lisboa e portanto é alguém que vem de fora e poderá ter outra margem de manobra para tomar decisões que podem ser difíceis e fazer reformas que muitos pedem há muito tempo, mas que exigem alguma liberdade de ação.
Nós antes desta nossa conversa, no arranque do jornal do meio-dia, estivemos a recuperar alguns excertos de uma entrevista que dom Rui Valério deu à Rádio Observador em 2019. E nessa entrevista, dom Rui Valério disse que sentia vergonha dos abusos na Igreja, disse também que a Igreja precisava de fazer uma reflexão séria sobre o celibato e elogiava o exemplo que muitas mulheres davam em muitas comunidades cristãs. Não foi uma entrevista muito longa, mas foram tocados, de facto, vários assuntos. Dom Rui Valério está, de certa forma, alinhado com a mensagem do Papa Francisco?
Eu penso que sim. Eu penso que, acima de tudo, dom Rui Valério corresponde aqui a um perfil de bispo que o Papa Francisco tem dito que quer para a Igreja, que é um pastor com cheiro a ovelhas, portanto, um bispo com verdadeira experiência pastoral, um pastor próximo dos fiéis. E a verdade é que, por todas as qualidades que têm tido os anteriores patriarcas de Lisboa, eu não me recordo do último que tinha, de facto, tido alguma experiência significativa pastoral, de terreno, de paróquia. Obviamente, ser bispo é já uma experiência pastoral, mas de terem sido párocos e de terem lidado com o dia a dia dos seus fiéis. E, portanto, nesse sentido, está alinhado com o perfil de bispo que o Papa pede. Agora, os três pontos que vocês tocaram nessa entrevista e que os excertos passaram há bocadinho, obviamente, não são todos da mesma liga. A questão dos abusos é urgente, é uma questão que ele vai herdar. E vem aí também de uma situação muito peculiar, porque ele é o único bispo em Portugal que não teve de lidar até agora com nenhum caso específico de abusos, porque a Diocese das Forças Armadas foi a única que não tinha nenhum nome na lista da Comissão Independente. E, portanto, ele entra numa diocese que já está bem equipada, com uma boa comissão diocesana e que está bem preparada e que já lidou com vários casos e tem alguns independentes, portanto, não tem de criar coisas de raiz, mas tem de dar continuidade a esse trabalho e ver se ele é bem feito. Isso vai ser um teste, porque ele não tem historial, e não ter historial quer dizer que não tem nada a mostrar que sabe fazer bem, mas, sobretudo, também não tem nada que se lhe possa apontar no seu passado em que tenha agido mal. Isso é muito importante nesta fase. A questão do celibato, eu entendo que muitas vezes o problema tem a ver com a forma como a resposta é colocada. Quando se pergunta a alguém sobre a abolição do celibato, dá a ideia que se quer obrigar todos os padres a casar ou acabar com os padres celibatários. E a resposta que ele dá pode ser lida nesse sentido, de dizer que isso não faz sentido nenhum, porque o celibato é uma parte muito importante da vocação de muitos padres. Outra questão é saber se seria possível ordenar homens casados. Pela resposta dele, dá a ideia que ele não é a favor disso, e isso é perfeitamente legítimo, mas é uma eterna questão que continuará a estar em aberto e a ser discutida durante os próximos anos. A questão um bocadinho, se calhar, mais difícil, tem a ver com o diaconado. Ele refere que havia mulheres que até o século XIII ou XIV recebiam o sacramento do diaconado, precisamente para trabalhar mais de perto exatamente com outras mulheres na questão do batismo, etc. E não só. A questão aqui é que o Vaticano tem estado a estudar se esse ministério do diaconado feminino era ou não um sacramento da ordem. E é sobre isso que não há certezas. E as comissões que têm sido criadas pelo Vaticano têm revelado que não há uma certeza a esse respeito. Isto pode parecer uma coisa difícil de entender para muitas pessoas, pode parecer uma mera formalidade, mas é fundamental para saber se esse sacramento, a ser restaurado, seria um sacramento válido Ou apenas um ofício a que se deu o nome de diaconado, mas sem a questão sacramental associada. É muito complicado agora entrar nesses detalhes, mas é uma situação um pouco mais complicada do que ele dá a entender na resposta que deu essa entrevista. E por isso também é um tema tão difícil que tem estado a ser tratado pela Igreja nos últimos anos. O papa já nomeou duas comissões para pensar sobre esse assunto e não há nenhuma decisão já a tomar no horizonte próximo, julgo eu.
O Filipe de Avilez já aqui falou no nome de Américo Aguiar. A verdade é que Américo Aguiar, em determinada altura, chegou a estar em destaque em algumas casas de apostas, se assim podemos dizer. O que o bispo auxiliar de Lisboa, que foi também o grande rosto da Jornada Mundial da Juventude, vai fazer daqui para a frente?
Esse é um dos grandes mistérios. Com base na informação que tinha e também no perfil da pessoa e no percurso que tem feito, eu presumia, e continuo a achar que o mais provável é que ele seja nomeado para um cargo em Roma, para trabalhar mais proximamente com o papa, eventualmente, mesmo no Dicastério dos Leigos, que é o ministério do Vaticano que organiza a Jornada Mundial da Juventude. Portanto, ele deu mostras de uma enorme capacidade-
Até porque o cardeal Farrel está de saída, não é?
Exatamente. Tem, se calhar, contra ele o facto de não dominar, julgo eu, outras línguas que não o português, mas se ele for para Roma e aprender rapidamente italiano, se é que não aprendeu já alguma coisa, porque tem ido lá com grande frequência, penso que ultrapassará essa debilidade e poderá eventualmente ter um cargo, se não mesmo o cargo de prefeito do Dicastério, e fazer o resto da sua carreira em Roma. Outro dia ouvi alguém avançar a possibilidade dele ser o próximo bispo de Setúbal, que Setúbal tem estado há dois anos, não é muito, mas é muito tempo para uma diocese estar sem bispo, à espera de uma nomeação e que a explicação para essa demora poderia estar no facto de se estar à espera que o Dom Américo estivesse livre desta incumbência da Jornada Mundial da Juventude e de haver um novo patriarca para ele ir para Setúbal. É possível, eu acho que é pouco provável. Portanto, dentro destas duas hipóteses, se isto fossem apostas, eu apostaria mais na ida para Roma.
Obrigado a Filipe de Avilez, jornalista, acompanha há vários anos a igreja e ajuda-nos com frequência aqui na Rádio Observador também a compreender melhor estes assuntos. E hoje estivemos a conversar sobre o novo patriarca de Lisboa, é Dom Rui Valério, até aqui bispo das Forças Armadas