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A nova de São Bento, plantada no meio do trigo, teu cantar-

Foi em 2014 que este gênero musical foi considerado patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO. Sete anos depois, há quem esteja preocupado com o rumo que estão a seguir muitos dos grupos que interpretam o Cante. Conosco nesta edição está Paulo Lima, foi uma das pessoas que participou no processo de candidatura do Cante Alentejano a patrimônio imaterial da humanidade. Paulo Lima, boa tarde.

Boa tarde.

Está o Cante Alentejano ameaçado?

Olha, nos traz prazer, e é uma prova que a ameaça não pode ser muito grande, foi esse exemplo que acabaram de mostrar do Cante do Rancho Cantadores de Alenova de São Bento, um excelente grupo e um excelente exemplo do que o Cante pode ser no seu cotidiano e no espetáculo. Mas claro que o Cante, neste momento, e devido à pandemia, pode correr sérios riscos numa parte dos seus grupos, infelizmente, não apenas pela paragem, mas também pelos efeitos da pandemia.

De que forma a pandemia está a influenciar de forma negativa estes grupos que interpretam o Cante Alentejano?

Olhe, daquilo que vamos percebendo, há algo evidente: os grupos estão parados. Não ensaiam, não se juntam. Isso em grupos, digamos, etariamente mais novos, pode ser um problema solucionável. Em grupos mais velhos, onde inclusive houve cantadores que já não estão entre nós, isso tem um efeito terrível, como deve imaginar. Estamos a falar de grupos que estão parados há dois verões, há dois Natais, e isso tem tido um peso imenso.

Porque as pessoas têm receio de se juntar?

Sabe, são várias coisas. Por um lado, deixou de haver eventos. Por outro, as pessoas não se deslocam e depois não se encontram. Por causa da pandemia, não podem estar juntos, houve todos aqueles momentos de paragem. Em muitos lugares, são ainda sociedades onde a tradição tem um grande peso e a morte de um familiar arrasta atrás de si um, dois anos de paragem. Dou-lhe um exemplo, por exemplo, na vila onde eu vivo, que é Alcácer, onde há três grupos, morreram dezenas de pessoas. Isso também tem um efeito terrível nos grupos corais, porque quem perde um familiar, as pessoas mais velhas, durante algum tempo, tem um período de luto e não vão. Mas acima de tudo é o não juntar-se, é o não haver essa oportunidade, e isso tem um efeito trágico, dramático.

Quando diz que morreram, morreu com Covid-19? Algumas destas pessoas.

Muitas sim. Ou então tiveram Covid e depois de terem se recuperado, morreram de outras patologias. E depois também a idade. Há aqui também muitos casos de cantadores que morreram pela idade que tinham.

E não tem acontecido uma renovação das gerações das pessoas que interpretam o Cante?

Sim, mas podemos falar aqui de dois tipos de grupos: os grupos jovens, que têm aparecido em projetos ligados ao Cante ou que utilizam o Cante, e depois estamos a falar de um determinado grupo, podemos falar de uns 100 grupos corais, onde, por diferentes razões, não há uma renovação muito visível. Porque são em locais onde não há jovens, são grupos pelas suas próprias características, um pouco mais fechados. Estamos a falar de um universo que tem muita diversidade. Uma coisa é o Cante em torno de Lisboa, outra coisa é o Cante em alguns lugares do Baixo Alentejo, no Alto ou no Centro do Alentejo, tem outra especificidade, depois varia de conselho para conselho por muitas razões. Estamos a falar de uma cartografia que em si é muito diversa e que enfrenta o grande problema, que basta ver os censos, de que não há renovação no Alentejo. É uma perda demográfica e isso ressensse depois em todas estas manifestações.

Paulo, esta é a percepção que tenho, mas julgo que no próximo mês de outubro vai ser feita uma avaliação mais precisa para perceber os reais impactos da Covid-19 nos diversos grupos da Canta Alentejano.

Sim, nós vamos fazer um encontro em outubro. Vamos esperar agora no verão para perceber exatamente o que se recupera ou não. E em setembro vamos fazer um inquérito presencial ou por telefone, não apenas ao movimento coral, porque os grupos corais fazem parte de uma grande família do patrimônio material para a qual nós temos que perceber realmente, quer os que estão inscritos como patrimônio mundial, quer não, o impacto que a pandemia teve. Era para termos feito há algum tempo atrás, mas não foi possível por diferentes razões, inclusive o surgimento da pandemia, que é um encontro onde vamos reunir os representantes do movimento coral e das bandas filarmônicas para perceber exatamente o que aconteceu, quais pararam, quais foram os que foram extintos e como é que se pode criar uma estratégia de reanimação e de apoio. Este é um encontro que é promovido pela Câmara Municipal de Alcácer, pela Fundação Inatel e pela DGPC, com os representantes de todo este patrimônio.

Paulo Lima, para terminarmos esta nossa conversa, julgo que é já no próximo sábado que é inaugurado o novo Museu do Cante.

Sim, vai ser inaugurado em Serpa, no local onde estava a Casa do Cante, ela foi reformulada e vai haver uma exposição permanente dedicada ao Cante Alentejano, para o qual ficam já todos convidados, e que tenta fazer duas coisas: contar uma história do Cante e depois também permitir a experienciação desta forma fantástica que é o Cante Alentejano e, como disse muito bem no princípio, é patrimônio da humanidade. E é uma iniciativa da autarquia de Serpa com o apoio da Direção Regional de Cultura do Alentejo.