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O governo aprova hoje medidas de apoio às famílias por causa da subida das taxas de juro no crédito à habitação. Isabel Jonet, as medidas que o Estado tem apresentado são suficientes para fazer face à situação de pobreza que invade o país?

As medidas todas que têm vindo a ser propostas são reativas em relação ao impacto das subidas das taxas de juro e também da subida da inflação e, portanto, do aumento do custo de vida nas famílias. Mas são só reativas e de nenhuma forma mudam aquela que é uma situação estrutural de pobreza que afeta muitas famílias portuguesas. E, portanto, essas medidas são obviamente positivas para quem tem hoje muito menos rendimento disponível, porque é mais absorvido pelo crédito à habitação. Estamos a falar de famílias mais novas que compraram casa, muitas vezes famílias com crianças. No entanto, eu não vejo que nada de muito estruturante venha a ser feito e, portanto, todas as medidas que dêem alívio às famílias são boas, mas são apenas medidas pontuais.

E esta necessidade de apoios pode de alguma forma ser um reflexo de que os portugueses precisam cada vez mais de ajudas exteriores para conseguir sobreviver?

Infelizmente, revelam a situação com a qual lidamos todos os dias, é que há muitas famílias portuguesas que não têm o nível de rendimentos suficientes para satisfazer todas as necessidades do seu agregado familiar. E isso hoje não se deve tanto às situações como no passado, mas é o reflexo, sobretudo, do aumento das taxas de juro.

E perante este cenário de maior vulnerabilidade das famílias portuguesas, pergunto-lhe se os pedidos no Banco Alimentar têm aumentado.

Temos registado uma manutenção do número de pedidos de apoio, seja por parte das famílias, seja também por parte das instituições, que elas próprias estão muito sobrecarregadas com esse aumento dos custos e com esta incapacidade do governo de dar resposta aos aumentos dos acordos de valência de que as instituições vêm reclamar já desde há vários anos. E aquilo que vemos é que a tipologia das pessoas que pedem agora apoio se alterou e temos agora pessoas mais novas, pessoas que nunca imaginaram que ficassem com a vida virada do avesso, por causa do peso do crédito no seu orçamento familiar, e ao contrário daquilo que prevíamos, que era que pudesse haver uma redução dos pedidos, não há redução de pedidos e, portanto, continuamos a registar um elevado número de pedidos de apoio alimentar.

Há valores em relação a essa subida?

Nós só revelamos valores na altura das campanhas de recolha do Banco Alimentar. Não podemos constantemente ir às estatísticas. E, portanto, no final do mês de novembro, teremos dados estatísticos do número de pedidos, mas também do apoio alimentar que é concedido.

Isabel, e as pessoas que procuram ajuda perto do Banco Alimentar costumam já ter apoios, já procurar outro tipo de ajuda para além de comida?

As famílias quando pedem ajuda alimentar é quando já estão no fim da linha dos pedidos de apoio, porque pedir ajuda para comer é algo que só em último recurso. E portanto, as famílias pedem todo o tipo de ajudas e recorrem a muitos dos mecanismos públicos que têm vindo a ser criados, obviamente. E nós sabemos que as famílias contraíram aquilo que eram as suas despesas, vão bastante menos ao restaurante. Muitas deixaram de inscrever os filhos em atividades pós-escolar e sabemos que vão cortando em despesas que eram habituais e que tinham uma expectativa de as poder ter e que não as têm. E, portanto, quando pedem apoio para comer, já recorreram a todas as outras fontes de apoio que conseguiram. E esse é o último reduto.