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Há uma nova regra no futebol português, em comunicado emitido hoje pela Liga Portugal: nenhum jogo de futebol vai poder ter início quando a equipa tiver um mínimo inferior a 13 jogadores, incluindo um guarda-redes. Esta medida surge no seguimento do que aconteceu no jogo do SAD com o Benfica. Pedro Henriques, antigo árbitro internacional e comentador do Observador. Boa tarde.
Boa tarde.
Pedro, faz sentido esta alteração?
Vamos lá ver. Em primeiro lugar, há um aspeto que é a lei do jogo do International Board, que é universal e que diz que um jogo, para que realmente tenha condições para se iniciar ou para continuar, tem que ter, de acordo com a lei três, que fala sobre jogadores, sete jogadores, que um deles tem que ser guarda-redes ou pelo menos estar equipado com guarda-redes e depois no regulamento até diz que alguém tem que estar identificado como capitão. A questão que se coloca é que estamos no futebol profissional e se, porventura, na parte dos amadores, isto poderá eventualmente fazer algum sentido aparecer uma equipa com nove, 10 ou 8, que o mais importante e relevante, embora seja a equidade, que aqui não acontece, é pelo menos que haja jogo, quando chega a um patamar do futebol profissional, em que tanto está envolvido os direitos de transmissão, a parte de direitos de imagem, a própria venda do produto para o exterior e próprio no mercado interno, faz sentido que haja equidade no início do jogo. E dentro dessa perspectiva, digamos que aquilo que acontece não é uma nova lei, porque a lei é do International Board e essa nenhuma confederação pode mexer, a não ser quando há autorização por parte do International Board e que tem que passar propriamente para o texto da lei. O que há é que pode haver adaptações àquilo que é a regulamentação interna das competições, desde que não fira, ou seja, que não vá ferir com nada que o International Board determine e que não permita que seja alterado. E dentro dessa perspectiva, e obviamente que para a liga estar a fazer isso é porque tem o consentimento superior do International Board, senão não podia fazer. Explico isso rapidamente.
Portanto, para sermos claros, esta medida enquadra-se nas regras internacionais.
Sim, dito de outra maneira, a regra internacional não é essa. Agora, para fazermos uma adaptação no nosso regulamento para que um jogo para se iniciar tenha que ter 13 jogadores, a tal questão da equidade, é preciso que não vá ferir com aquilo que é o texto universal, porque eu relembro que nas leis de jogo são muito claras quando o International Board diz uma coisa tão simples quanto isso. Há três competições em cada país que para se fazer alguma alteração, tem que ter o consentimento superior a nível internacional, que é o escalão mais alto do futebol masculino, neste caso, no português é a Liga, o escalão mais alto do futebol feminino, a nossa primeira liga, e a seleção principal A. O que significa que qualquer alteração regulamentar que a gente queira fazer numa liga de honra ou no futebol feminino, que não seja a primeira, ou qualquer outro escalão, a federação, no caso concreto, pode fazer sem ter que pedir autorização superior. Sempre que há uma alteração, mesmo no âmbito regulamentar, nestes três escalões, de acordo com as leis, tem que haver, pelo menos, uma autorização superior, no sentido que não vá ferir com aquilo que o International Board entende. E obviamente, que a liga para estar a fazer isso é porque não vai exatamente ferir com essa questão que está na própria lei. Portanto, dito de outra maneira, de forma muito rápida, acho muito bem que realmente uma questão de equidade ao nível do futebol profissional, que um jogo não comece sem que ambas equipas tenham o mesmo número de jogadores e que entenda-se 11 jogadores. Percebo que esta medida de ter 13 é também para dar, pelo menos, a possibilidade que haja, pelo menos, dois jogadores suplentes para durante o decurso do jogo, possa haver, pelo menos, as duas substituições daquelas que são assim permitidas. E dizer que a lei, não sendo essa, para entrar em regulamento, é porque obviamente que o International Board não fica chocado, entre aspas, com esta adaptação regulamentar que a liga faz. Porque eu relembro, embora esteja a me repetir, mas é importante dizer isto: não há alterações no futebol profissional, masculino, feminino e seleções A, sem que o International Board permita e entenda que isso não fere com o espírito da lei, com a letra da lei, etc.
E Pedro, esta medida não deveria ter sido tomada já há mais tempo?
Essa é outra questão, que eu sei que é muito fácil a gente criticar quando está de fora, mais difícil é quando está lá dentro. Mas isto, mal comparado, é como a questão das vacinas em Portugal. Foi preciso, de repente, pormos lá um vice-almirante para explicar, num determinado sítio, que se as vacinas abrem às 9h, convém que os funcionários cheguem lá às 8h30 e não cheguem às 9h. Por isso é que havia atrasos, por exemplo, como aconteceu na linha de Sintra, num dos centros de vacinação. Parece uma coisa muito complicada, mas não é. É só pôr um ser pensante e com capacidade de organização à frente das instituições. O problema é que muitas das nossas instituições, na liga, na federação, inclusivamente nos clubes, que se dizem todos muito profissionais, em vez de estarem preocupados em pôr lá os amigos dos amigos e em pôr os indivíduos que choram pelo Benfica ou pelo Porto ou pelo Sporting, deviam pôr pessoas que fossem competentes sob o ponto de vista profissional, com currículo provado e demonstrado, seja acadêmico, seja prático, para que irem para os sítios, para em vez de estarem preocupados com o resultado final, que o pênalti foi marcado ou não foi marcado, ou com o que quer que seja, estejam preocupados de forma proativa a pensar aquilo que vem aí no futuro. Ou seja, onde é que nós somos muito maus todos? É, de repente, temos um derby em Lisboa com 60 mil pessoas, supostamente, e temos uma medida que a partir de hoje, quarta-feira feriado, toda a gente tem que para entrar em espetáculos com mais de 5 mil pessoas, toda a gente tem que ter um teste negativo. E pensar com 15 dias de antecedência para arranjar esses testes disponíveis nas farmácias em Lisboa. Não. E por isso agora temos as farmácias entupidas. Este exemplo serve para mostrar a incompetência que nós temos na maior parte das nossas instituições, por uma razão muito simples, chama-se a isso organização. O que eu aconselho as pessoas é fazerem uma coisa simples, ou eletronicamente, ou então comprem uma coisa que é barata, custa €30, que é um filofax. Registem lá as coisinhas todas que é preciso fazer e pensem com antecipação, garantidamente que as coisas são simples. É tipo o vice-almirante das vacinas. E aqui é a mesma coisa. Portanto, faz algum sentido esperarmos por um bom elenco do Benfica, por uma questão de equidade, que não houve quando entrou 11 contra 9, para fazer uma medida tão básica e tão simples quando temos o Covid há dois anos? É simples, eu sei que é fácil falar à posterior das coisas, mas é só irem escutar o nosso podcast, o "E o Campeão É?", da Rádio Observador, para perceber que isto que estamos aqui a falar neste momento, nesta entrevista, já nós andamos a dizer há não sei quantos tempos atrás. É tão simples quanto isso.