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Em directo, junta-se agora a nós Miguel Correia, especialista em engenharia informática e professor do Instituto Superior Técnico. Muito boa tarde, professor.

Boa tarde.

Eu começava por lhe perguntar de que forma, se é que há alguma forma, é que estas falhas nestas redes sociais o afectam no seu dia a dia, no seu trabalho? Tem sentido?

Sim, por acaso hoje afectaram. Eu tenho uma reunião marcada com um aluno do 3º ano e com um colega, que combinamos à última hora, normalmente pelo WhatsApp, e hoje não aconteceu precisamente porque não consegui falar com eles. E não reparei que o WhatsApp estava em baixo. Só depois é que reparei.

São ferramentas de comunicação que estão amplamente disseminadas. Consegue já antecipar o que se passou? Que problema é que terá estado na origem destas falhas nas três redes sociais? Que são todas do mesmo grupo empresarial, não é?

Sim, são tudo sistemas de uma empresa chamada Facebook. Tem o Facebook propriamente dito, o WhatsApp, o Instagram, o Messenger, etc. Não se sabe o que aconteceu. Aliás, a Facebook não costuma dar muitos detalhes sobre o que aconteceu e ainda menos quando está a acontecer, eles estão a tentar consertar. Há o suspeito do costume, que é o sistema de nomes de domínio. É um sistema em que quase tudo na internet é baseado e que faz a tradução entre nomes como www.facebook.com ou www.observador.pt e endereços, que são números, que são usados depois para aceder aos sites na internet. E quando há problemas no DNS, geralmente estes problemas são catastróficos. Apesar de não impedirem a comunicação, impedem a forma normal como as pessoas utilizam os computadores, que é fornecendo esses nomes. Isso aparentemente não está a funcionar.

Esses endereços não são reconhecidos, é isso?

Sim.

Quando eu digito facebook.com, ele não reconhece e não consigo ir ao servidor onde deveria ir para que a página do Facebook me aparecesse.

Sim, isso seria um possível problema. Não é isso exactamente o que está a acontecer. Provavelmente é dentro da própria Facebook que eles não estão a conseguir fazer essas traduções. O observador.facebook.com está a funcionar, ele consegue fazer a tradução, lá dentro é que não. Mas as potenciais causas são inúmeras. Estes sistemas estão altamente complexos. O Facebook tem mais de um bilhão de utilizadores. Tem centenas de milhares de computadores, como se sabe, espalhados por todo o mundo. Houve alguma coisa que correu mal e é natural que não seja muito rápido. Eles preparam-se para que estas coisas não aconteçam, mas é normal que quando acontecem, demoram algum tempo a recuperar. São sistemas muito complicados.

Professor, quando diz algum tempo, vamos lá descansar os adolescentes que nesta altura estão preocupadíssimos com a impossibilidade de poderem aceder a estas redes sociais, essencialmente eles, mas outras gerações também, seguramente, quanto tempo até que este problema se possa vir a resolver?

Isto varia. Já passou uma hora, já nos demos muito bem. De facto, há casos em que a falha destes grandes sistemas, da Facebook, da Google, da Amazon, etc, da Microsoft, demoram minutos até horas e às vezes dias. Eu acho que aqui é improvável que demore dias. Houve um caso recente em que demoraram cerca de duas horas a recuperar. Eu diria que isso é uma estimativa razoável, cerca de duas horas. Mas, na verdade, são a inventar, não temos a menor ideia de quanto tempo.

Pois, quanto tempo é que irá, depende da dimensão do problema. Sendo que, pelo que eu percebo, isto não é problema virgem. Já aconteceu noutras ocasiões.

Sim, estes sistemas são muito complicados. São impossíveis de evitar que aconteçam em algum momento. Se for o DNS, de facto, aconteceu já em março e abril deste ano, já tinha acontecido um problema com o DNS do Facebook.

Nós também, quando isto acontece, pensamos imediatamente nos mauzões, nos piratas informáticos. É de descartar essa possibilidade de os servidores do grupo empresarial poderem ter sido alvo de um ataque de hackers?

Isso é uma boa pergunta. Eu acho que é improvável.

Improvável.

Tem acontecido muitos ataques ao DNS, em concreto. Aliás, isso tem ajudado o DNS a tornar-se um sistema altamente resiliente, porque é um sistema a nível mundial. Altamente resiliente, precisamente por haver muita gente a tentar quebrá-lo e a causar estragos na internet. Numa empresa como a Facebook, eu acho que é improvável que tenha sido um ataque, porque de facto eles são um grande alvo que estão sempre a ser atacados. Como tal, estão muito protegidos. Mas é possível, sim, nada é impossível. É possível que eles tenham arranjado maneira de atacar.

Sendo que as empresas, quando ocorrem estes ataques, vêm explicar, por norma, ficaremos a saber exatamente o que se passou ou por questões de segurança, é aconselhável que as empresas alvo do ataque ou do problema não o façam por forma a garantir essa mesma segurança?

Sim, isso é uma pergunta interessante. Bom, todas as perguntas são interessantes, mas de facto, nos Estados Unidos, nestas grandes empresas, há uma tradição de o fazer. A Facebook é um bocado exceção, mas, por exemplo, a Google, a Amazon, etc, quando têm problemas desta dimensão, ou a Microsoft, fazem um longo relatório a explicar o que é que aconteceu, porque é que aconteceu, porque é que para a próxima não vai voltar a acontecer. A Facebook não tem tanto essa tradição. E já agora, em Portugal também não há essa tradição. Quando há problemas de informática com as empresas, normalmente não dizem nada.