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Temos oportunidade de ouvir o antigo presidente do CDS, José Ribeiro e Castro, que se junta a nós para uma análise a esta crise interna do partido que liderou entre 2005 e 2007. Obrigado por se juntar a nós, José Ribeiro e Castro. Numa entrevista recente, ouvi-o pedir maturidade aos partidos políticos durante a crise política. Maturidade é a palavra que lhe vem à cabeça quando pensa no que aconteceu no CDS ao longo destes últimos dias?

É indiscutivelmente o que é necessário, mas o que infelizmente não está a acontecer. Isso deve-se a uma ofensiva absolutamente cega de um grupo que perdeu o congresso há dois anos e que não desiste de perturbar a vida interna do CDS, de derrubar a direção, violar o funcionamento dos órgãos, é isso que se passa. Infelizmente, eu vi ontem mais uma reação furiosa à decisão do Conselho Nacional e, portanto, o que eu creio que está em marcha, e é muito triste, como militante do CDS do tempo da fundação, deste partido que toda a gente gosta de dizer que é um partido fundador da democracia portuguesa, e é de facto, é um plano para a destruição do CDS. É isso que está em causa. Mesmo a saída dos militantes, que é um facto que me entristece, mas tinha sido anunciada. Basta ir à imprensa de há cerca de um mês, que já anunciava uma debandada geral se Francisco Rodrigues dos Santos ganhasse. Há uma semana, 15 dias, o Expresso ecoava que já havia conversas para integrarem as listas de Paulo Rangel. Eu creio que isso é falso. Não tenho dúvidas nenhumas que conheço Paulo Rangel.

Acha que há essa possibilidade de alguns destes membros que fomos ouvindo sair ao longo do dia de ontem se juntem a outros partidos, nomeadamente ao PSD?

Alguns já estão. Sejamos claros, Adolfo Mesquita Nunes era o candidato presidencial da Iniciativa Liberal. Um dos militantes que já saiu, Michel Lsoy, fartil lamento que o tenha feito, mas também lamento mais que ele fosse o mandatário nacional do candidato presidencial da Iniciativa Liberal. Portanto, essas movimentações entre partidos, que é uma violação de uma regra que era sagrada entre partidos portugueses, ninguém ingere no partido vizinho ou no partido ao lado, estão a ser violadas claramente no que concerne à Iniciativa Liberal. Quanto a outros, não sei. Mas o que há é uma intenção pré-declarada que se não vencessem iriam debandar. E existe uma tentativa desesperada de desmantelar o CDS, de impedir o seu funcionamento. O anúncio de mais uma impugnação do Conselho de Jurisdição.

Antes de irmos para o Conselho Nacional, José Ribeiro e Castro, deixe-me só perguntar-lhe se acha que ainda vamos ver mais militantes a abandonar o partido.

É natural, nestas alturas, a perturbação é tão grande e foi anunciada uma debandada geral. Portanto, eu creio que estamos no princípio. E não há nada que o possa impedir, se é uma predeterminação, não há nada que se é um plano. Eu acho que estamos a assistir à tentativa da segunda morte de Marmad Costa. É um plano que tem como palavra de ordem esta: se não é para nós, não é para ninguém. E portanto, isto é uma coisa completamente irracional, uma coisa completamente destituída de sentido e mascarada de democracia, quando se trata de pessoas que violam todos os dias as deliberações democráticas do partido. Enfim, houve uma deliberação do Conselho Nacional, houve outras deliberações do Conselho Nacional anterior. No princípio do ano, a seguir às eleições presidenciais, tinham procurado derrubar a direção com um parecer fabricado do Conselho de Jurisdição, teoricamente vinculativo, uma fraude jurídica completa. E perderam, mas não descansaram. Este é um grupo do partido.

Mas não acha que esse sinal de maturidade e essa vitalidade democrática não era mais evidente se Francisco Rodrigues dos Santos aceitasse ser legitimado num congresso eletivo antes das eleições antecipadas?

Mas ele está legitimado. Isso são decisões que os órgãos tomam. Eu nessa questão não me vou intrometer, não faço parte dos órgãos do partido, não conheço as suas dinâmicas, não conheço as distritais, os conselheiros nacionais, não conheço aquilo que é a realidade do partido hoje. Agora, faço confiança na liberdade e na dignidade de cada um deles para tomar as decisões que consideram mais avisadas. Não faço apelos a somes de dignidade e de liberdade, porque eu creio que todos eles têm opiniões diferentes.

O próprio Francisco Rodrigues dos Santos teve uma opinião diferente, porque numa primeira fase achou que era melhor o Congresso ser mais cedo e depois, agora quando se percebeu que há eleições à vista, decidiu adiá-lo. Não acha que este recuo aqui também o fragiliza?

Eu não vou pronunciar-me sobre isso. Já lhe disse, houve uma mudança de circunstância, que foi a abertura da crise política, que foi o chumbo do orçamento e, portanto, a precipitação da dissolução da Assembleia da República e indiscutivelmente o interesse nacional, e eu já me pronunciei sobre isso. O interesse nacional determina que as eleições sejam o mais depressa possível. Eu desejaria, aliás, e se fôssemos um país civilizado, era assim que aconteceria, que acontecessem antes do Natal. Se fosse em Inglaterra, essas eleições realizavam-se em 30 dias e em 31 dias tínhamos um novo governo, uma nova maioria, um novo governo. Uma nova maioria logo veremos, porque a direita está a dar tamanhos tiros nos pés que é o grande aliado do Bloco de Esquerda. E estas pessoas são os grandes aliados do Bloco de Esquerda, do Partido Socialista e do PCP. E portanto, é ao serviço disso que o ataque de Nuno Melo e dos que estão com ele está a fazer. E, portanto, o partido está no seu mandato. Tem que se respeitar os mandatos. E este grupo nunca o tem feito. Nunca o fez. Repetidamente, é um grupo que atua assim. Quando não ganhamos o Congresso, o Congresso nunca acaba. Todas as semanas há Congresso E, portanto, provocando uma instabilidade tremenda e o meu apoio à continuação da direção é por solidariedade com uma direção legítima, eleita pelos congressistas, eleita pelos militantes do partido e aqueles que têm mais responsabilidade no CDS, que são os seus deputados, a começar pelo doutor Nuno Melo, que é deputado ao Parlamento Europeu, já vai no terceiro mandato, não respeitam os órgãos eleitos do partido e fazem o possível para desgastá-los, denegri-los e atraí-los para armadilhas estratégicas. Não nos esqueçamos que este grupo defendeu que o CDS não fizesse coligação em Lisboa, que o candidato à Câmara fosse Francisco Rodrigues dos Santos, e que o CDS só aceitasse fazer uma coligação com o PSD se fosse ele a liderar a coligação. Portanto, são pessoas que dizem estes disparates, que dizem essas inamidades contra o interesse da cidade de Lisboa, contra o interesse dos cidadãos, contra o interesse do centro-direita e da direita, que se querem apoderar do partido, por quê? Sejamos claros, querem fazer as listas. Acham que o partido é deles e querem fazer as listas. É só isso, mais nada.

Deve haver algum tipo de sanção para essas pessoas. Para quem não decidir sair, acha que deve ser empurrado para fora do CDS?

Não. Eu, quando fui presidente do CDS, experimentei isto. As pessoas que viviam há 15, 17 anos sabem que isso aconteceu. E era este mesmo grupo. Foi o mesmo grupo que fez um Conselho Nacional selvagem em Óbidos, de péssima memória. São as pessoas que agrediram Maria José Nogueira Pinto, que a levaram a sair, mas eu nunca instaurarei um processo disciplinar. Eu acho que isto é uma questão política tristíssima. É uma coisa que, de fato, provoca um desgosto e uma repulsa extraordinária, mas a sanção deve ser política. E os órgãos do partido político estão lá para decidir.

Mas o que é uma sanção política? Devem ser afastados das listas?

Não são afastados das listas. Há listas novas que serão feitas de acordo com os regulamentos do partido. Eu espero que não aconteça como em 2015 e que o Conselho Nacional aprove um regulamento de feitura de listas e, portanto, as listas serão feitas de acordo com os mecanismos regulamentares estatutários do partido. É isso que eu espero que aconteça. E são listas novas. Eu não sou do Conselho Nacional, não sou da Comissão Política, não sou da Comissão Executiva.

Mas eu pergunto-lhe isto porque o Luís Nobre Guedes sugeriu recentemente que Francisco Rodrigues dos Santos devia convidar Nuno Melo para ser cabeça de lista pelo Porto, até como uma forma de pacificar o partido. Acha que isto é possível, isto faz sentido?

Não, acho que não faz sentido nenhum. Eu, por exemplo, como presidente do partido, procurei fazer isso, sem sucesso nenhum. Da minha experiência, não daria esse conselho, porque da minha experiência, são pessoas que não cumprem a palavra. E são pessoas que só têm uma determinação: apoderarem-se do poder se o perderam no Congresso. Não têm outro título e outra determinação. E é isso que eu tenho visto. Aliás, é o que agora vimos. O doutor Nuno Melo perde nos Conselhos Nacionais, retira-se e impugna. E procura objetivamente sabotar o funcionamento normal do partido. Eu gostava, obviamente, que houvesse paz, mas a paz faz-se quando os que fazem a guerra enterram o machado de guerra. É preciso que enterrem o machado de guerra e não é isso que estamos a ver. O que estamos a ver é o desenvolvimento de um plano, repito, que eu creio que tem como objetivo a destruição do CDS, mais nada.

José Ribeiro e Castro, já percebi que não vai ser um dos dissidentes do partido nas próximas horas, mas pergunto-lhe: se Nuno Melo ganhar o partido, continua no CDS?

Nesta altura, não vejo como é que isso possa acontecer. Mas eu saí uma vez do CDS e voltei. E eu até espero que alguns destes que saiam, aqueles que o façam de boa-fé e emocionados, que possam voltar, isso pode acontecer. Já aconteceu outras vezes, em crises muito difíceis do partido, isso possa acontecer. Agora, nesta altura, nós estamos manifestamente num quadro de conflito gravíssimo, de completo desrespeito pelas regras do partido, pelas regras de direito. O que o Conselho Nacional de Jurisdição fez agora, como fez no princípio do ano com o falso parecer vinculativo, é um atropelo às regras de direito mais básicas. A mim choca-me até como é que há advogados que fazem profissão do exercício do direito, que sabem que existe um dever de fundamentação das decisões, que sabem que existe o princípio do contraditório. Como é possível querer anular um ato de convocação do Conselho Nacional sem ouvir o presidente do partido e sem ouvir o presidente do Conselho Nacional? Isso mete-se pelos olhos dentro a qualquer pessoa. E são pessoas que são advogados, que põem em causa a sua honorabilidade jurídica e até um deles professor de Direito, ao subscreverem uma coisa destas que não tem fundamentação, que é emitida de uma forma completamente leviana. E portanto, isto é pior que uma RGA nos meus tempos de estudante. Eu nas RGAs do meu tempo de estudante, no Pré e Pré-Pré, via coisas mais organizadas do que isto.

Entretanto, acha que ao longo destes dois anos, quase, de mandato de Francisco Rodrigues dos Santos, tem sido feito o suficiente pela direção para tentar sanar estas feridas? Vimos que, por exemplo, Ana Rita Bessa saiu do grupo parlamentar também com queixas da atual direção.

A deputada Ana Rita Bessa terá as suas razões, não são de ter pessoais. Saiu porque quis. Se tem razões de queixa, provavelmente é do grupo parlamentar E a deputada Ana Rita Bessa também. Essas pessoas também são pessoas que têm as maiores responsabilidades na situação terrível em que o CDS foi afundado e que essa direção assumiu. A deputada Ana Rita Bessa foi das principais responsáveis pelo erro do CDS na crise dos professores, que perturbou muitas eleições e prejudicou, aliás, a sua amiga Assunção Cristas. E isso foi um primeiro tiro negativo num ano decisivo eleitoral pro CDS, que era o ano de 2019. Houve uma sucessão de erros feitos pela direção da Assunção Cristas, Nuno Melo, Adolfo Mesquita Nunes, Cecília Meireles e dos deputados de então, que explicam aquela rampa descendente em precipício até o resultado péssimo de 4,5% de outubro de 2019. Portanto, essas pessoas têm que explicar isso e não fazerem de conta que são os outros a seguir que têm culpa disso. Não, eles têm que responder por isso, e têm que explicar por que fizeram tantos erros políticos nesse ano. Por que Adolfo Mesquita Nunes, autor, qual mágico da lâmpada, gênio da lâmpada de Aladino, do programa eleitoral do partido, se retira quatro meses antes das eleições da direção do CDS por causa de uma questão pessoal, mas dando objetivamente uma demonstração de falta de confiança política no sucesso da candidatura. Por que Nuno Melo fez uma campanha desastrada pras eleições europeias e tem 6% dos votos, que quebra o feitiço, o encanto dos 20%?

Fez de propósito pra ter um mau resultado?

Não, não disse que fez de propósito. Fez o que foi capaz, por isso. E isso quebrou a rampa em que estava o partido, e o partido nunca mais recuperou desse resultado e ainda teve pior nas eleições legislativas, ao passo que o PSD ainda conseguiu recuperar e subir pra 29. Nós já não conseguimos. Portanto, é esta direção, são estes dirigentes que cometeram os erros políticos todos que colocaram o CDS numa situação dificílima. Eu creio que a direção eleita fez o possível para criar pontes, para estabelecer diálogo, etc. Mas eu sou testemunha disso, porque isso passou por mim, não querem isso.

Mas sem estes quadros que eram reconhecidos e que já tiveram, inclusivamente, funções governativas, Adolfo Mesquita Nunes ou António Pires de Lima, não teme que sem estes quadros o partido possa ser prejudicado nas eleições?

Ninguém os correu. Essas pessoas também têm que agir algo.

Mas o efeito pode ser esse? Pode ser um efeito negativo pro partido?

Eu não estou contente porque tenham saído. Acredito, é que estão ao abrigo de um plano de fazer mal ao CDS. Isso é o que eu acredito, pelo encadeamento das coisas, pelas notícias que saíram nos jornais. E portanto, eu lamento isso, mas tenho pena. Qualquer pessoa que saia do CDS, faz falta. E portanto, eu tenho pena, mas o que eu gostaria é que essas pessoas que de fato têm responsabilidades, têm algum crédito social, usem esse crédito social em favor do partido e contribuam pro seu engrandecimento. Não é isso que está a acontecer ao longo de todo este ano, com ataques consecutivos aos órgãos legítimos do partido. E isso não pode ser ignorado por qualquer militante do partido. Esse conflito está infelizmente em desenvolvimento. Além disso, deixe-me concluir.

Força.

Além disso, essa direção herdou uma situação financeira dificílima, com casos muito esquisitos, uma situação de quase insolência, isso é conhecido. E portanto, isso foi legado por estas pessoas. Portanto, as pessoas deviam ter um bocadinho de humildade. Peço um bocadinho de humildade, um bocado de dignidade, um bocado de decência, palavras que têm sido tanto usadas, pra ajudar o partido a sair das dificuldades em que foi colocado. Ora, não é isso que estão a fazer. E isso merece o mais firme repúdio e a mais forte condenação. Repito, eu não quero assistir à segunda morte da Marta Costa, que é o que eu julgo que está, infelizmente, a procurar que se faça.

Estávamos a falar precisamente sobre os resultados das próximas eleições legislativas. Qual é o resultado que entende que o partido pode ter? Acha que pode, de facto, haver um bom resultado do CDS ou aquilo que se pré-anuncia através de sondagens e dos analistas políticos, o CDS pode mesmo vir a desaparecer nas próximas eleições legislativas?

Eu acho que é dever de todos os militantes do partido combater isso e impedir que isso aconteça. Mas eu não sou paizinho das outras pessoas e, portanto, eu não sou capaz de impedir quem tenha essa determinação pré-determinada de o fazer. Lamento, combato, contradio, mas infelizmente, o CDS sofre com os atos dos seus membros. Isso é um facto indiscutível. Portanto, nós estamos no meio de uma crise profundíssima, lamentável, que faz o jogo da esquerda. Eu, aliás, outro dia escrevi, a propósito de um artigo que publiquei recentemente, até num post que publiquei, que esta crise vai ser ganha com quem meter menos gols na própria baliza. Porque, de fato, a crise foi aberta porque a esquerda resolveu atirar-se ao chão e nos partidos de centro-direita, assiste-se a gols consecutivos na própria baliza e uma grande perturbação. Eu gostava que o CDS estivesse fora disso e aproveitasse o tempo que falta pras eleições pra apresentar listas fortes, um programa credível e uma cara levantada. Mas infelizmente, há um grupo interno no partido, minoritário, mas com capacidade de intervenção e de provocar dano, que está a usar para causar dano ao partido. É isso que está a acontecer.

E no que diz respeito a coligações com o PSD, o partido deve coligar-se antes das eleições, fazer uma coligação pré-eleitoral nestas legislativas?

O que eu penso que deveria acontecer na crise que foi aberta é que o PSD, o CDS e o PPM concorressem em listas conjuntas É quando a imagem prestigiada do que foi a Aliança Democrática. E isso era uma forma airosa de levantar a cabeça depois destas cenas lamentáveis. E essa coligação poderia ser aberta à Iniciativa Liberal, se o quisessem e se as relações se normalizassem, porque nessa altura, de facto, passam-se aqui coisas muito esquisitas. Mas acho que isso seria o desejável e isso permitiria apresentar uma alternativa capaz às próximas eleições.

Essas coisas esquisitas de que fala e quando fala na Iniciativa Liberal, acha que há aqui alguma influência de outros partidos pro CDS acabar por sofrer todas estas saídas?

Eu creio que sim. Eu creio que há dados objetivos que demonstram que há aqui uma ligação, pelo menos com alguns setores da Iniciativa Liberal.

Quer concretizar?

Eu já referi, Michel Seufert, que foi mandatário da candidatura presidencial do Maian, portanto sendo militante do CDS e tendo o CDS apoiado outro candidato presidencial. Adolfo Mesquita Nunes foi apresentado antes do Maian como candidato desejado à Presidência da República pela Iniciativa Liberal e, portanto, há indícios, eu não posso dizer mais do que isso, que há aqui algumas ligações. E há notícias publicadas na imprensa, uma, salvo erro, no Sol ou no Dia há cerca de um mês, que anunciava esta desbandada, e outra mais recente no Expresso, que anunciava estes movimentos. Portanto, eu não sei, isso a acontecer é muito deplorável. A acontecerem são coisas por certo informais, mas, portanto, só pode haver relações sólidas entre os partidos quando se respeita uma regra fundamental que é de não ingerência nos outros partidos. Eu repito, eu acredito que não é uma coisa oficial, mas que há contactos. Os jornalistas não inventam estas coisas. Se as publicam é porque têm fontes que os levam a publicar.

Esta resposta à última pergunta fez-nos desviar aqui um pouquinho, mas estávamos a conversar sobre a possibilidade de uma coligação entre o CDS e o PSD. Referiu inclusivamente que esta era uma boa altura para reeditar a AD, porque isso podia trazer frutos, mas não podia também levar a esconder um possível mau resultado do CDS. Pergunto-lhe isto porque nas eleições autárquicas ficou particularmente evidente que o CDS, onde concorreu sozinho, teve resultados difíceis.

Isso é sempre um jogo que se faz, mas o partido tem uma prática de coligações autárquicas com o PSD desde antes de 2001 e depois são muito importantes. As de 2001 foram as coligações PSD e CDS que determinaram a queda do governo António Guterres. Nessa noite eleitoral, nós tiramos 16 câmaras importantíssimas ao PS e isso gerou o tal pântano que levou António Guterres a demitir-se. Aliás, o doutor Paulo Portas, que tinha tido um mau resultado em Lisboa, pensou demitir-se nessa noite e só não o fez, isso é uma história conhecida, porque António Guterres tencionava demitir-se, contra a opinião de toda a gente, incluindo a minha, mas só ficou, e depois houve um congresso do CDS, porque António Guterres se demitiu. Portanto, essas coligações são muito importantes, não desmerçamos. E teria sido um desastre se o CDS tivesse seguido os conselhos de Assunção Cristas e de outros que achavam que o CDS não devia fazer nenhuma coligação em Lisboa com o PSD e devia ir sozinho. Portanto, nós teríamos ainda o PS sem ter tido a derrota em Lisboa e não estaríamos agora no tempo de mudança. Agora, dito isso, eu acho que o CDS deve estar preparado para ir sozinho a eleições. E aliás, já o disse a quem de direito e, portanto, deve preparar listas para ir sozinho a eleições. Eu não respondi sequer à pergunta se vai ser assim. Eu não faço parte de quem decide a estratégia do partido e também não faço parte de quem decide a estratégia do PSD. Nem respondi à pergunta se é possível. Não sei. Tudo isto nesta altura está tudo muito estremido e isso é um grande frete que se faz ao Partido Socialista e à maioria de esquerda que nos governa desde 2015. O que eu disse é o que é desejável do ponto de vista de um eleitor de centro-direita, que é o que eu sou, é que se fosse formada uma alternativa poderosa, cara levantada, que apresentasse uma alternativa em que os portugueses possam confiar. E, portanto, obviamente, que esta guerrilha terrível que é feita, nomeadamente dentro do CDS, termine para estas pessoas se poderem concentrar no que é importante. Eu chamo a atenção do seguinte: por exemplo, na próxima quarta-feira vai ser votada outra vez uma manobra terrível, a lei da eutanásia. Então o CDS não devia estar preocupado com isso? Essas pessoas estão nestas guerrilhas, nestes jogos agarotados, quando estamos na iminência da votação de novo de uma lei que pra nós é fundamental. Mas que sentido de responsabilidade é este? Passam-se coisas seríssimas no país e os nossos eleitores que passam por essas dificuldades olham pra isso, de facto, de boca aberta.

Mas acha que esta é a altura certa pra se fazer essa votação?

Não, não é. Eu acho que este processo da eutanásia é ilegítimo desde o princípio. Este é o último ato da ilegitimidade do processo, porque é uma lei que foi carregada às costas de um partido que o escondeu dos olhos do eleitorado, o PS. O PS escondeu dos olhos do eleitorado esta lei e carrega às costas esta lei. Depois foi pedido um referendo pra que os cidadãos se pronunciassem e a maioria de esquerda chumbou. Chumbou o referendo. Não quis que os portugueses se pronunciassem. Depois é uma lei que foi aprovada, como nos recordamos, e votada debaixo do pico mais agudo da crise Covid em Portugal, quando morriam centenas Pessoas, às vezes mais de mil pessoas por dia de Covid, estava a Assembleia da República em gabinetes a aprovar esta lei. Depois foi vetado por inconstitucionalidade. Não se conformaram com o pronunciamento do Tribunal Constitucional, meteram na gaveta, ou melhor, meteram num gabinete, num caldeirão, onde têm andado a cozinhar umas alterações que ninguém sabe quais são. E agora à última da hora, à queima-roupa, porque a Assembleia da República está na iminência de dissolução e de facto já está dissolvida politicamente, porque a esquerda e a oposição à direita chumbaram o orçamento, já está politicamente dissolvida. É essa Assembleia politicamente dissolvida que tem o tupe e à pressa, em dois ou três dias, agendar a votação de uma lei desta seriedade e gravidade. Isso é que é um problema grave da sociedade portuguesa. Agora, não são essas guerras de alecrim e manjerona em que um grupo furioso do CDS está a querer demolir e estragar a vida do partido.

Uma última questão, José Ribeiro e Castro. Está disponível para fazer parte das listas de candidatos a deputado das próximas eleições legislativas?

Não sei. Eu estou muito preocupado com o estado a que chegou o CDS e a que foi levado e obviamente farei tudo o que estiver ao meu alcance, sem sacrifício desmedido da minha vida, que entretanto mudou. Eu saí da assembleia por virtude de outras questões, que também têm a ver com este grupo em 2015. A minha vida hoje organiza-se noutro domínio, não estou a pensar nisso, mas obviamente, se eu entender que é útil para levantar o CDS, eu farei o que estiver ao meu alcance. Eu gosto muito do CDS, apesar do que se passou, gosto muito do CDS. Tenho grandes memórias do tempo em que nós passávamos períodos mais difíceis do que este. Eu recordo-me que em 75 tivemos que refazer as listas para a Assembleia Constituinte em três dias. Imagine-se o que era fazer umas listas em três dias, porque não estávamos coligados com o PDC, que foi suspenso e tivemos que fazer em três dias. E isso foi feito, porque o partido lutava por um ideal, o partido todo lutava por Portugal, pela liberdade e pela democracia e não se entretinha com estas coisas. Tenho uma grande saudade desse tempo.

Mas acha que o partido está posto em causa neste momento?

Totalmente. E deliberadamente posto em causa por alguns dos seus principais responsáveis, por alguns dos seus principais representantes, porque são deputados que estão lá a representar os eleitores e os militantes do CDS e usam esse poder e essa credibilidade para fazer mal ao partido que lá está, pura e simplesmente porque acham que não vão estar nas próximas listas e querem ser eles a fazer as listas como se tivessem ganho o congresso, que não ganharam o congresso, perderam o congresso. E querem reconquistar o poder do congresso por meios completamente ilegítimos. E eu estive fazendo golpes de Estado institucional. Só houve na história do CDS um golpe de Estado institucional. Foi aquele que me derrubou a meio do mandato e construído uma forma de eleição completamente nova, como estava prevista nos estatutos. Eu sei o que isso é.

Acha que é essa ala que ainda está viva neste momento no partido?

Não tenho dúvida nenhuma. Eu vou ser o mais claro possível. São pessoas que estão 15 anos mais velhas e infelizmente 15 anos mais garotos. É uma pena