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Graça Freitas, o assunto na ordem do dia é os casos de Covid-19 na equipa do Belenenses. Por que as autoridades de saúde intervieram no jogo do Chaves na época passada e não neste?
Muito boa tarde e muito pertinente a pergunta. Nós interviemos no jogo do Chaves e, como disse, na época passada, porque estávamos num longo processo de aprendizagem. E com essa intervenção percebemos que não devia competir à autoridade de saúde decidir sobre se havia ou não havia um jogo, mas, sim, competia à autoridade de saúde fazer o isolamento de casos e contactos quando houvesse razão para isso. E, portanto, a parte desportiva devia ficar a cargo das entidades desportivas e foi por isso que fizemos isso uma vez e que depois dessa altura nunca mais aconteceu. Já tivemos inúmeras situações de jogos, de clubes, de pessoas infectadas nos clubes, jogadores, membros do staff. Já me esqueci até de quantas situações aconteceram e, de facto, não foi assim que foi o procedimento. Nós fizemos uma vez, percebemos que essa vez não tinha sido feito corretamente e separamos as águas a partir daí. E foi assim que procedemos sempre até à data e vamos continuar a proceder, porque achamos que é a forma correta. Às autoridades de saúde compete isolar doentes e isolar os seus contactos, ao desporto compete organizar as competições desportivas.
Mas não deixam de ser doentes. Eu pergunto lhe, na sua opinião, por que o plantel da B SAD, que esteve em contacto com os colegas infectados, não ficaram isolados quando numa escola, por exemplo, os colegas de uma criança infectada acabam por ser isolados? Por que não foi seguido o mesmo critério?
Olhe, porque numa escola são habitualmente crianças e é difícil nós distinguirmos o tipo de contacto que as crianças têm entre elas. Elas não dão uma boa história clínica, elas não dão uma boa história epidemiológica, porque têm uma limitação etária. Quando se trata de adultos, nós conseguimos diferenciar quem é que teve um contacto de alto risco ou quem é que teve um contacto de médio ou baixo risco. E depois isso complementado com o resultado dos testes, leva a que a autoridade de saúde decida que algumas pessoas carecem de isolamento e outras não carecem de isolamento. Portanto, isso tem a ver com a capacidade que as pessoas têm de participar e colaborar na investigação epidemiológica.
Doutora, acabou de nos dizer, a DGS também já tinha reforçado que não tem autoridade para decidir sobre questões desportivas. O que eu lhe pergunto é se as autoridades de saúde não deveriam ter mais competências nesta área.
Não, eu acho que as coisas estão muito bem feitas. Volto a dizer, à autoridade de saúde compete fazer a investigação epidemiológica. Essa investigação epidemiológica implica a recolha de uma história clínica e das ligações epidemiológicas que o doente tem com outros casos, identificar os seus contactos, ver também a relação dos contactos com o caso, promover a testagem e com essas informações todas, fazer um diagnóstico de saúde e isolar algumas pessoas. Isso é o que compete à autoridade de saúde. Depois, o que se passa com as pessoas que não estão isoladas e que pertencem, neste caso, àquele clube, isso será o próprio clube, serão as entidades desportivas que terão que decidir o que fazer. Nós não temos que ter essa competência tratando-se de entidades que têm conhecimento na matéria, que têm regulamentos próprios e que podem tomar decisões de acordo com a situação. Há doentes e contactos isolados por um período e a partir daí as decisões desportivas devem ser tomadas pelas entidades desportivas, não há outra forma. Eu acho que esta é a maneira correta. Aliás, funcionou durante este tempo todo. Tivemos muitas situações, eu já nem as sei contabilizar, de muitos clubes com muitos jogadores afetados em algumas circunstâncias, jogador de staff noutras circunstâncias, variadíssimas situações e sempre se resolveu com esta separação de intervenções. À saúde, o que é da saúde, ao desporto, o que é do desporto. Obviamente, em diálogo. Nós falamos com as estruturas médicas dos clubes quando fazemos estas investigações epidemiológicas, muitas vezes falamos com os próprios dirigentes dos clubes. Há aqui um diálogo que obviamente tem que se manter, mas as decisões são de caráter diferente.
E por exemplo, se um jogador do Benfica testar positivo depois do jogo com a B SAD, isto vai determinar o isolamento para o resto da equipa?
Voltamos à mesma questão. A minha colega que tem essa competência e a sua equipa de saúde pública terão que voltar a fazer toda a investigação epidemiológica à volta de um novo caso, se acontecer, não estou a dizer que aconteça, e depois verificar as ligações que outras pessoas tiveram a esse caso. Todas as investigações epidemiológicas começam com o caso de um doente e à volta desse caso vão ver os contactos que essa pessoa teve. Estabelece-se se o contacto é um contacto de risco ou não é um contacto de risco. Se é de risco, pode ser determinado o isolamento profilático. Se não é, segue a sua vida com as medidas que estão preconizadas de automonitorização, de vigilância passiva, de utilização de métodos de proteção, as coisas que sabemos todos que devemos adotar no dia a dia.
Mas um jogo de futebol, por exemplo, com aquela proximidade entre os jogadores não conta como contacto de risco?
Mas eles não tinham tido um jogo de futebol, eles faziam treinos. Isto passa-se tudo numa altura em que estamos a falar de treinos, balneários, refeições e portanto, todas essas questões são equacionadas Portanto, todos esses aspectos de contacto entre jogadores, de contacto de jogadores com a sua envolvente social, não estamos a falar apenas de jogadores com jogadores ou de jogadores com os elementos do clube. Estamos a falar de todas as relações e de todos os contactos dos jogadores com terceiras pessoas. Isso é tudo investigado dentro do possível, depois é complementado com a realização de testes e depois é determinado se as pessoas ficam ou não em isolamento profilático.
Mas há aqui uma diferença, não é? Ou seja, os jogadores do Benfica estavam infetados com Covid-19, foi detetada a nova variante, a variante Ômicron. O que eu lhe perguntava é se estão a ser estudadas medidas de isolamento específicas para esta nova realidade, uma vez que até a OMS já veio dizer que esta é uma variante mais contagiosa.
Pois, aqui a questão é que nós ainda sobre esta variante temos relativamente pouca informação científica. Portanto, temos que também saber um bocadinho mais do que sabemos sobre ela, um bocadinho bastante mais. Temos que saber mais sobre a sua transmissibilidade, temos que saber mais sobre a sua gravidade e temos que saber mais sobre como é que esta variante se comporta em relação à vacinação e ao estado imunitário da população, se consegue escapar ou não ao nosso sistema imunitário. Portanto, há aqui coisas que ainda temos que saber. Nesse sentido, o que estamos a fazer neste momento, e é uma medida cautelar apenas, é alargar o inquérito epidemiológico a outros contactos e eventualmente esses contactos ficarem em isolamento e serem submetidos também a um plano de testagem mais apertado, com um teste inicialmente, depois um teste ao quinto dia e um teste ao décimo dia. Volto a dizer, como medida cautelar perante uma variante da qual ainda se sabe pouco e, portanto, estas medidas dentro de pouco tempo podem ser diferentes à medida que vamos conhecendo melhor a nova variante.
Mas é uma variante que, para já, como nos estava a explicar, implica ou estão a ser estudadas medidas um pouco mais apertadas, por assim dizer, para garantir que não se espalha pela comunidade.
É o normal. Nós fazemos isso sempre quando há uma situação que é nova, que conhecemos pior. Portanto, podemos, nestas circunstâncias, alargar a rede de contactos a outras pessoas que inicialmente não pertenciam a um contacto de risco. Só, volto a dizer, por precaução em saúde pública, que é de facto um princípio que existe na saúde pública. Não quer dizer que haja mais risco, não quer dizer que exista maior probabilidade dessas pessoas virem a ter a doença, é apenas uma circunstância de cautela, uma vez que detetamos uma variante nova da qual ainda não se sabe muita coisa. Portanto, temos que ter esse tipo de cautela, mas não vamos também isolar indiscriminadamente todas as pessoas. Voltamos sempre à mesma questão: é feito um inquérito epidemiológico, é feita uma avaliação do risco e perante isso, tomam-se medidas.
Graça Freitas, deixe-me aproveitar para lhe perguntar enquanto a tenho. Hoje foi conhecido mais um boletim da Direção Geral da Saúde sobre a Covid-19 em Portugal. O aumento de internamentos a que temos assistido, é o 23º dia que os internamentos continuam a subir, este é um motivo de preocupação?
Tudo o que diz respeito a esta pandemia, obviamente, é motivo de preocupação. Preocupa-nos sempre, primeiro, o aumento dos casos e depois como é que esses casos têm impacto no serviço de saúde e no sofrimento das pessoas. Portanto, são duas coisas muito importantes. Obviamente que uma pessoa que é internada em enfermaria, à partida, tem uma situação mais grave que uma pessoa que fica em domicílio e uma pessoa que vai para a unidade de cuidados intensivos tem uma situação mais grave do que aquela que fica em enfermaria. E obviamente, algumas pessoas, infelizmente, acabam por morrer. Portanto, olhamos para estes dados dos internamentos com alguma preocupação, sim. Não posso dizer que não. Vamos monitorizando, acompanhando, ver qual é a carga de esforço que isto implica sobre o sistema de saúde em geral. Isso é muito importante para que nós continuemos a prestar cuidados a estas situações Covid e às situações que não são Covid. Portanto, sim, respondendo à sua pergunta, olhamos com preocupação, mas também com alguma margem ainda para perceber que não estamos já numa situação de saturação dos serviços por sobrecarga demasiado grande, mas preferíamos que os números estivessem mais estabilizados, é óbvio.
Claro. Doutora, como uma medida para combater a pandemia anunciada por António Costa na semana passada, vai ser a exigência de testes em mais situações, em mais locais. É uma exigência que vai arrancar na quarta-feira. O que eu lhe perguntava era se Portugal tem capacidade para dar resposta a este aumento de testagem.
Sim, Portugal tem capacidade, pois se nós já tivemos essa capacidade no passado, quando estaríamos mais imaturos em relação à evolução da pandemia, é óbvio que se tivemos, continuamos a ter e mais reforçada ainda. Portanto, não temos receios em relação a essa capacidade.
Doutora, só tenho mais uma questão, também está na ordem do dia desde a semana passada, aliás, bem antes, a vacinação das crianças depois da recomendação da EMA. Eu perguntava-lhe se há alguma decisão em vista.
Olhe, como sabe, o processo em Portugal e nos países todos da Europa passa por um processo que começa por ser técnico, em que há uma comissão técnica de vacinação. Em Portugal temos uma dedicada especialmente à Covid, portanto, é a Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid, CTVC, que estuda aprofundadamente a situação, consulta toda a documentação que existe, quer da Agência Europeia do Medicamento quer da própria firma, os ensaios clínicos, os estudos que são realizados em todo o mundo. Fala com os grupos técnicos, outras comissões técnicas de outros países, consulta grupos de especialistas dentro do nosso próprio país e depois essa comissão submete à diretora-geral, neste caso, um parecer. E é sobre esse parecer que eu própria, a diretora-geral, emito um parecer à tutela recomendando a vacinação ou não e dizendo, uma vez recomendada, em que moldes é que se vai realizar. Aquelas coisas que todos sabemos, quantas doses, o intervalo entre as doses, como é que se procede. Portanto, todas essas questões são decididas no âmbito da Comissão Técnica de Vacinação e depois são aprovadas superiormente pela tutela, mas eu terei que esperar, neste caso, como em todos os outros, pelo parecer da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid. Só a partir desse parecer é que me posso pronunciar.
E não tem ideia de quando é que esse parecer pode chegar à sua secretária?
Eu creio que será pra breve, mas de qualquer maneira, não tenho nenhuma pressão sobre isso, porque como sabe, as vacinas só começam a ser distribuídas pela Pfizer pra toda a Europa, de acordo com os mecanismos europeus, em dezembro. Portanto, nós temos ainda tempo para refletir e depois teremos tempo para ir recebendo as vacinas e tempo para planear a vacinação, se ela for aprovada. Portanto, neste momento, estamos absolutamente tranquilos em relação a tudo, porque a Pfizer, a empresa que é a única que tem a vacina aprovada para crianças deste grupo etário, entre os cinco e os 11 anos, a Pfizer tem de começar a distribuir as vacinas na Europa e só o fará a partir mais ou menos de 20 de dezembro, a primeira tranche. E é assim para todos os países na Europa, porque nós temos todos o mesmo mecanismo. E, portanto, creio que receberei o parecer dentro de poucos dias, mas estou tranquila em relação a isso, porque não estamos pressionados pelo tempo, uma vez que ainda vamos esperar para ter vacinas. Que vamos ter, Portugal já tem as suas vacinas reservadas e portanto vamos ser fornecidos como todos os outros países da União Europeia.
Doutora, e eu aproveito para lhe fazer aqui uma nova questão sobre a variante Ômicron, a nova variante da Covid-19. Para além dos casos que foram identificados no plantel da B SAD, há mais casos a serem investigados desta variante em Portugal?
É óbvio que as nossas autoridades de saúde têm a instrução que se acontecerem casos em pessoas que voltaram, nomeadamente da África Austral, ou que tiveram contato com alguém que esteve em contato com um doente, tenha voltado de um país com a nova variante, podem sinalizar e devem sinalizar esses casos ao Instituto de Saúde Ricardo Jorge, para que possa ser feita uma investigação laboratorial. Portanto, nesse sentido, há sempre pessoas que não estando suspeitas, podem estar a ser investigadas. São duas coisas diferentes. Investigação epidemiológica e laboratorial é uma coisa, depois encontrar casos suspeitos é a etapa seguinte. Portanto, isto são processos contínuos e há sempre pessoas que estão a ser alvo de investigação, não quer dizer que se venham a tornar suspeitas e muito menos confirmadas. É apenas uma metodologia que nós temos de vigilância epidemiológica e laboratorial, em que a parte clínica e epidemiológica trabalha com o laboratório e é assim que em todo o mundo se descobrem estas novas variantes de preocupação e outros nomes.
Mas não há até à data mais casos suspeitos, sendo que essa investigação, o rastreio, é uma prática habitual?
Não, até à data não tenho conhecimento, pelo menos.