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Junta-se agora a nós a Joana Ricardo, especialista em Relações Internacionais. Obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós na emissão especial da Rádio Observador. Eu começava pela influência externa. Há pouco, aqui também, o professor José Filipe Pinto e Francisco Pereira Coutinho davam conta de que a Síria é um país com muitos interesses, que a Rússia tem aqui uma influência grande ou tinha uma influência grande sobre o regime de Bashar al-Assad. Até que ponto países à volta e países com interesses na Síria podem intervir nesta fase do país? Estávamos chegar aqui, agora julgo que já em condições para ouvir a Joana Ricardo. Agora, sim.
Bom dia, Miguel. Agora está a me ouvir?
Sim, agora sim.
Bom dia a todos que nos escutam também. De facto, o regime sírio era um regime que estava apoiado por diversos atores da região. Então, só a começar pelo que se passava no Médio Oriente, o regime sírio tinha o apoio do Irão, tinha o apoio da Rússia e também tinha o apoio do Hezbollah, no Líbano. Portanto, estamos a falar de um regime que estava relacionado com diversos dos atuais conflitos que nós temos visto no Médio Oriente, nomeadamente o que se passa em Israel e com o Hamas, na Faixa de Gaza. A Síria garantia também, através das bases russas, passagem da Rússia à zona do Mediterrâneo e nesse momento está completamente impossibilitado, porque a tomada de Alepo, que é uma zona que fica numa faixa costeira a leste da Síria, impede esse acesso ao mar e também toda a descida que esse movimento rebelde fez de Alepo para Rama e de Rama para Holmes e depois posteriormente para Damasco, criou essa ligação. Damasco também tem proximidade com o Líbano e Israel também já tem agora movimentado tropas para a zona das Colinas de Golã, que é uma zona anexada por Israel, considerada ilegal pelo regime da Síria e, portanto, também há uma preocupação de que possa haver um alastramento do que quer que seja que vá se passar agora na Síria para a zona de Israel. Uma preocupação que fica também é que esses grupos, que nós estamos a chamar genericamente de rebeldes, são uma construção bastante heterogênea, ou seja, temos aqui um grupo principal, que é denominado Hayat Tahrir al-Sham. É um grupo sunita, que é a maioria religiosa na Síria. Esse grupo é o que provavelmente vai encabeçar um próximo governo através de Mohammad Al-Golani. No entanto, também outros grupos participaram, como por exemplo, o grupo apoiado pela Turquia, que tem uma ação anticurda e, portanto, temos também uma faixa de terra do futuro Curdistão, que tem impacto na Turquia. A Turquia também quer mandar de volta os refugiados sírios para a Síria, portanto, também apoia essa queda do regime por conta disso. Portanto, estamos a falar aqui de uma série de movimentações que podem levar, inclusive, dentro da Síria, uma nova guerra civil, porque vai haver também disputas de poder entre esses grupos rebeldes.
Era essa a minha pergunta, que agora a dificuldade ou dúvida maior é: como é que o regime se vai organizar? Ainda estamos nas primeiras horas em que há muito contentamento pela queda de Bashar al-Assad, mas há agora essa dúvida que é como é que a Síria se vai organizar do ponto de vista político, não é?
É importante referir o seguinte: o governo de Bashar al-Assad era um governo que era autocrático e de caráter sucessório do ponto de vista familiar. Bashar al-Assad assumiu o governo em 2000, depois da morte do seu pai. Portanto, estamos a falar de mais de 50 anos do que foi um governo de base familiar, era uma autocracia secular. Portanto, Bashar al-Assad, embora tenha ligações com grupos alawitas, que são da minoria xiita do país, ainda assim, era de um governo que era secular, portanto, deixava que houvesse liberdade de culto na Síria. A Síria tem cristãos, tem sunitas, tem xiitas, alawitas, é um caldeirão do ponto de vista cultural e de diversidade religiosa. O que vai se passar agora, provavelmente, vai ser uma disputa de poder. Essa disputa de poder tenderá a ser encabeçada pelo movimento Hayat Tahrir al-Sham. Esse movimento, que é um movimento sunita, portanto, de maioria dentro da Síria, é um movimento que já foi ligado à Al-Qaeda e que em 2016 estabeleceu uma espécie de corte de laços. No entanto, essa moderação parece ser uma moderação para inglês ver. Portanto, podemos ter aqui o estabelecimento de um regime, que é um regime com contato com o jihadismo islâmico e que provavelmente será um regime de repressão das minorias religiosas e também dos direitos civis e direitos das mulheres, como nós vimos no Afeganistão. Então estamos a falar de uma situação que por um lado é vantajosa, que é a queda de uma autocracia, mas por outro lado é perigosa, porque é a possível tomada do poder por uma teocracia.
E há pouco falávamos aqui da influência ou do impacto desta queda do regime na região do Médio Oriente, mas como é que o Ocidente pode influenciar ou não esta fase de transição? Ouvíamos Donald Trump dizer que esta não era a guerra dos Estados Unidos, mas vai existir uma tentativa do Ocidente de influenciar agora o próximo regime?
Bom, o governo de Donald Trump, já sabemos como é que vai se posicionar do ponto de vista da política externa. Uma política externa que é claramente isolacionista e que não é como tem sido até então os governos, tanto republicanos quanto democratas, de pensar os Estados Unidos como a polícia do mundo. O Donald Trump sempre foi muito claro na questão da projeção dos Estados Unidos, principalmente para zonas como o Médio Oriente, considera que os Estados Unidos não devem enviar tropas nem dinheiro, portanto, o envolvimento da administração Trump tenderá a ser marginal, a menos que Donald Trump perceba essa situação como uma ameaça geopolítica aos próprios Estados Unidos. A verdade é que estamos a falar aqui de uma instabilidade muito grande do que temos chamado de eixo da resistência, que é o grupo que é liderado pelo Irão e que inclui os seus proxies, inclusive na Síria, o Hamas, o Hezbollah, isso tudo está agora em causa e não é necessariamente boa notícia, porque a queda desses movimentos, que são movimentos de caráter Terrorista, claramente que sim, pelas suas ações, pelo menos, independentemente da motivação, como é o caso do Hamas, que também se posiciona como movimento de libertação nacional. E tudo isso tende a ser bom, mas quando é substituído por outros movimentos ainda mais radicais ou com outros interesses, claro que estamos a falar de uma questão que é disruptiva. No caso da Síria, por conta das relações que o Ocidente tem desde o fim da Primeira Guerra Mundial, na queda do Império Turco Otomano, em que foi estabelecida uma série de mandatos na região, mandatos britânicos, mandatos franceses, é por isso também que no Líbano se fala francês, é por isso também que a Palestina foi dividida da forma como foi, porque era mandato britânico. Tudo isso traz uma proximidade histórica com o Ocidente e é claro que aqui há uma preocupação que uma desestabilização maior possa levar a uma disrupção comercial, para começar, porque sabemos que é uma zona de comércio global intenso. Toda essa zona do Médio Oriente tem sido uma das zonas onde mais comércio marítimo global passa por ali, em torno de 15% de todo o comércio marítimo global. Portanto, há uma preocupação do Ocidente também com isso, com a questão também do petróleo, como é óbvio, a questão da energia e obviamente também com a estabilidade desses regimes. Tudo isso pode levar a um crescimento do extremismo na região, sendo que o Afeganistão já é uma zona em que nós temos visto uma disrupção profunda. Nesse momento, está o mundo inteiro de olhos fechados pro que se passa, pros direitos das mulheres e pra tudo que tem se passado no Afeganistão. Estamos a viver um momento de muita disrupção. A questão aqui é como que podemos fazer face a isso, visto que, por exemplo, a França, que é um dos países que já se manifestou considerando favorável essa queda do regime de Assad, também está a passar pelas suas próprias disrupções internas nesse momento, com a queda do governo e com todas as questões que estamos a ver. Portanto, temos aqui muitas frentes simultâneas, e isso tudo leva, obviamente, a uma dificuldade de coordenação. Resta saber como é que a própria União Europeia vai se posicionar e também face a uma mudança geoestratégica, junto também à sua ligação com o Atlântico Norte, por conta da tomada de poder de Donald Trump, que claramente pretende minar as relações da NATO com a União Europeia.
E só pra terminar, percebemos aqui que há ainda vários países que estão na expectativa para tomar uma posição sobre esta mudança de regime. Isto foi uma queda de Bashar al-Assad que apanhou de surpresa o mundo?
Sim, apanhou de surpresa o mundo, embora nós saibamos que já havia movimentações na zona da Síria. Tudo indica que essa tomada de poder já estava planejada pra em torno de um ano atrás, quando precisamente o Hamas fez a sua ação terrorista contra o território israelita no dia 7 de outubro. Portanto, isso teria adiado a ação desses rebeldes da Síria. Mas, como é óbvio, esse tipo de atuação não é feita da noite pro dia. Existe aqui uma ligação de oportunismo, claro que sim, por conta de tudo que se passa na região. É muito mais improvável que haja influência externa, é muito mais improvável que países ocidentais mandem tropas ou tentem fazer qualquer tipo de coisa, por conta das várias outras disrupções que nós estamos assistindo, do Médio Oriente à Ásia, passando pela própria Europa, pelos Estados Unidos, pela América Latina. Portanto, tudo isso leva que esses movimentos percebam uma janela de oportunidade de ação. No entanto, isso não quer dizer que não seja uma grande surpresa, porque essa ação foi muito rápida, foi em torno de 10 dias conseguiram tomar o poder, o que também mostra a fragilidade do próprio regime de Bashar al-Assad, que era um regime conotado também com corrupção, com privilégios das famílias que eram próximas à família de Bashar al-Assad. Também tinha uma relação muito desvantajosa com a sua própria população do ponto de vista econômico, dos direitos e tudo isso, também levava que a própria população síria esteja agora a comemorar. A questão aqui que fica, mais uma vez, é como que o futuro dessa região vai levar também a uma disrupção maior ou não no Médio Oriente, porque os conflitos não cessaram. O cessar-fogo do Líbano é temporário. O Hezbollah está também em reorganização. Agora o Hezbollah passa a ser um movimento hostil pro que vai ser um futuro governo na Síria, portanto, há uma alteração geopolítica drástica. O Irão também está a tentar se segurar num contexto em que Israel tem virado os olhos pro Irão. É importante também lembrar que no dia em que Benjamin Netanyahu declarou cessar-fogo com o Líbano, disse que um dos motivos era porque estava na hora de olhar pro Irão. Também parece haver um oportunismo por parte do governo de Israel, num contexto em que os Estados Unidos vão alterar sua administração e que Donald Trump considera o Irão o grande inimigo na região e o grande inimigo dos Estados Unidos. E pode haver uma tentativa também futura de Benjamin Netanyahu de arrumar questões antigas no Irão. Portanto, há aqui muita coisa que ainda pode vir a acontecer. E obviamente que isso é um momento em que tanta instabilidade não é nunca positiva e também pras pessoas que lá vivem, principalmente pras minorias, pode ser muito problemático, embora é sempre importante referir, Bashar al-Assad usou armas químicas contra a sua própria população. Então estamos a falar também aqui de um líder que não protegia a sua população e também violou direitos humanos, mas não parece que vamos ser substituídos por algo muito melhor.
Professora Joana Ricardo, obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós na emissão especial da Rádio Observador. Estamos a acompanhar a queda do regime de Bashar al-Assad