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Em média, usa-se mais o automóvel em Portugal do que em países como Espanha, França, Bélgica, Itália ou Alemanha. Os dados são da empresa Ipsos, uma gigante francesa que realiza estudos de mercado. Este estudo foi pedido pela seguradora Europa Assistance e conclui que depois do automóvel, andar a pé é a segunda forma de deslocação mais usada pelos portugueses. 37% dos portugueses usam o transporte individual por mais de uma hora por dia durante a semana. Ao fim de semana, esse valor sobe para 40%. Fernando Nunes é professor, especialista em mobilidade, foi vereador da mobilidade na Câmara de Lisboa. Os anos passam e sucedem-se as campanhas de promoção dos transportes públicos. Nos últimos anos temos adicionado a luta contra as alterações climáticas, que têm nos automóveis um dos principais adversários. Mesmo assim, as pessoas preferem andar de carro. O que andamos a fazer de errado?
O que estamos a fazer de errado é que, como é muito difícil criar alternativas à necessidade da utilização do automóvel, porque as deslocações tornaram-se cada vez mais complexas e deixaram há muito tempo de ser maioritariamente casa-trabalho e casa-escola e depois regresso. Passou a ter muitas outras coisas pelo meio. E o sistema de transportes não respondeu a isso. Portanto, a primeira coisa tem a ver com a parte do sistema de transportes. A segunda coisa tem a ver com o urbanismo e com a especialização monofuncional, digamos assim, de muitos dos nossos espaços urbanos, daquilo que vai sendo construído em torno da área metropolitana. As pessoas que vivem na área central de Lisboa têm muito pouca necessidade de utilizar o automóvel nas suas deslocações, pelos dois motivos principais. Digamos, da Segunda Circular para baixo. A maior parte dos bairros residenciais tem um conjunto de outras atividades, de outras funções, de outros serviços, etc. Bastante pessoas irem a Campo de Ourique, irem ao Bairro de Alvalade, irem à zona das Avenidas Novas, etc. As pessoas têm praticamente tudo aquilo que necessitam a uma distância percorrível a pé. Quando você salta para novos bairros, mesmo dentro da cidade de Lisboa, de facto, isso não acontece, porque praticamente não têm nada e portanto, qualquer coisa que necessitam, têm que utilizar um modo de qualquer mobilidade. Quando você passa para os concelhos à volta de Lisboa, a situação ainda é muito mais grave.
Mas isso é um problema ainda mais grave ou de maior difícil resolução, porque, na verdade, para se repensar esta utilização do transporte individual, é preciso repensar-se a forma como as cidades estão organizadas e se calhar aqui, até a forma como a habitação, que é um assunto que tem estado muito na ordem do dia nos últimos dias, é pensada, porque é preciso que as pessoas vivam perto do sítio onde trabalham.
Claro, é exatamente isso que está a dizer. Porque quando você expulsa da cidade de Lisboa, que é a cidade que tem uma rede de transportes mais organizada e mais densa, quando você expulsa mais 100 mil... Mais 100 mil, não. Quer dizer, Lisboa já tem 850 mil habitantes, portanto, neste momento tem 550 mil, foram 300 mil habitantes que se perderam nos últimos 40 anos. Quando você faz isso e esse crescimento se faz para periferias cada vez mais distantes, é um problema acrescido. Depois, tem o problema da mobilidade do ponto de vista residencial. Portugal é dos países com maior taxa de proprietários. As pessoas têm, de facto, um apego muito grande à propriedade. Não é que tenham uma ideologia mais pró propriedade do que outros países. Tem muito a ver com uma forma de investir poupanças de uma forma relativamente segura, chamemos assim.
E onde é que fica o meio ambiente no meio disto tudo?
O meio ambiente fica muito mal, coitado. Anda a ser super maltratado. Ainda por cima, porque depois com isso, como você disse, e bem, como é muito difícil resolver este problema, não só é difícil, como, por outro lado, não é de curto prazo. Isto é, os resultados só se veem a médio prazo, ou a longo prazo. E portanto, os países que estão a resolver isto melhor já começaram há muito tempo e perceberam qual era a tendência e começaram a atuar na tendência. Ora, em Portugal, nós temos uma política que vive essencialmente do curto prazo e do efêmero. O que é importante é aparecer nas notícias do dia ou no dia seguinte, e portanto, quando lá três ou quatro dias a falar-se do mesmo assunto, aparecem logo uns programas.
Sim, politicamente também é muito difícil de gerir, não é?
Claramente, é muito difícil de gerir. Exigiria, eu diria, uma certa consciencialização das forças políticas mais importantes, daquelas que podem criar soluções de governo, no sentido de estabelecerem um programa de atuação a médio prazo, que as pessoas se comprometessem a respeitá-lo e a não servirem disso como arma de arremesso. Assunto que tem três condições que são dramáticas para resolver isto. E isto leva a que, do ponto de vista político, você tenha visto grandes investimentos e grandes parangonas e grandes coisas sobre alguns temas da moda, que depois não têm qualquer correspondência com a realidade. Se você for ver o que foram os investimentos, quer na área metropolitana de Lisboa, quer ao nível do país, ao nível da mobilidade ciclável, fica assustado. São centenas de milhões de euros. O resultado do censamento de 2021 dá que não só o progresso da utilização das bicicletas foi mínimo nas deslocações principais, como nalguns casos até decresceu. Quer isto dizer que não se deve fazer nada a favor da mobilidade ciclável? Pelo contrário, acho que se deve continuar a fazer. Agora, deve-se ser muito mais seletivo naquilo que se faz. Deve-se começar por criar a rede estruturante e depois logo se vê o que é que se faz no intermédio. Agora, o que é espantoso é que não tem o mesmo nível de investimento, nem que se compare, em relação, por exemplo, à mobilidade pedonal