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Este é um estudo que mede a pobreza pela perspectiva da capacidade de fazer face às despesas essenciais. Contrariamente à forma como é habitualmente medida a pobreza em todos os países da Europa, pelas diretrizes do Eurostat, que é a partir de uma medida do rendimento. Nós olhamos para o rendimento mediano da população e dizemos que uma pessoa é pobre quando tem menos de 60% desse rendimento. Neste caso, nós utilizamos os dados do inquérito às despesas das famílias para analisarmos as despesas que as pessoas fazem e para vermos se as pessoas têm ou não o rendimento para fazer face às despesas essenciais. É uma medida de pobreza que adotamos, o método que é usado nos Estados Unidos para o cálculo oficial da linha de pobreza nos Estados Unidos, da taxa de pobreza nos Estados Unidos. Nós usamos o método que é aí aplicado, porque, de facto, esta é uma outra abordagem à pobreza alternativa e que não é usada na União Europeia, mas é usada em vários países como a Argentina, os Estados Unidos, a Rússia. É uma abordagem também que é mais conservadora. Uma pessoa pode ser pobre do ponto de vista de estar muito longe da tal mediana do rendimento e, portanto, ser considerada pobre pelo critério normal do Eurostat e do INE, mas ter recursos para fazer face às despesas essenciais. É uma abordagem mais conservadora que, por um lado, mostra que desse ponto de vista das despesas essenciais, a pobreza em Portugal é inferior à que é calculada habitualmente. Uma medida não é melhor do que a outra, são duas formas diferentes de olhar para o mesmo problema. E depois também tem algumas especificidades em alguns grupos da população, em algumas regiões, nas quais as conclusões que tiramos são diferentes com esta abordagem à pobreza do que com a abordagem à pobreza habitual, que é uma abordagem de pobreza relativa, que é a abordagem oficial, como eu já disse, do Eurostat.

E de acordo com este estudo, esta abordagem mais conservadora, quais são os grupos que apresentam um maior nível de pobreza?

Nós temos duas maneiras de estimar o custo do tal cabaz essencial das despesas essenciais, e é a partir dessa estimativa desse custo que nós classificamos as pessoas como pobres ou não pobres. Uma das metodologias é partindo do cabaz alimentar definido pela DGS para diferentes grupos etários. É o cabaz considerado que é nutritivo e adequado para uma dieta saudável para diferentes grupos etários. Nós depois vamos aos sites de diferentes cadeias de distribuição, calculamos o preço médio de cada um desses itens, mas estamos a falar de coisas mesmo muito específicas, estamos a falar de arroz e de atum. Estamos a esse nível de detalhe. E depois, como temos o perfil de cada família em termos da idade dos seus membros, dos elementos da família, nós conseguimos saber qual é que é o custo da dieta para cada família e depois fazemos uma correção, porque obviamente que as despesas essenciais não são apenas comida, são também vestuário, habitação. É a partir dessa base que depois vamos ver se as pessoas são ou não são pobres. Com essa forma de medir pobreza, nós chegamos a uma taxa de pobreza, em 2022, de 12,5%, que compara com a taxa de pobreza oficial nesse ano, que era 16,4%. O outro método que nós usamos, ambos são usados oficialmente pelo Census Bureau dos Estados Unidos. O outro método que nós vamos olhar para diferentes tipos de família numa matriz muito detalhada. Nós temos 105 tipos de famílias, consoante se vivem numa zona urbana ou rural, consoante a dimensão, o número de crianças, o número de adultos da família, consoante se são proprietários da casa ou se arrendam a casa, consoante a região NUTS2 em que vivem. Criamos então uma matriz desse tipo de famílias, vamos ver qual é a despesa mediana em vestuário, alimentação, habitação, para cada um desse tipo de famílias, e dizemos que todas as famílias que estão abaixo são pobres. São duas medidas alternativas. De acordo com esta medida, a pobreza é de 8,5%, praticamente baixa para metade da pobreza oficial. Por outro lado, estas abordagens da pobreza absoluta são muito sensíveis à presença de crianças. Nós sabemos que mesmo de acordo com a abordagem oficial relativa, as crianças são sempre um grupo com mais pobreza do que o resto da população. Neste caso, esta abordagem da pobreza absoluta, essa discrepância é maior. Esta abordagem das despesas essenciais dá mais peso à presença de crianças nas casas. Por exemplo, quando nós olhamos para o tal custo do cabaz alimentar, nós sabemos que as crianças, o tal cabaz alimentar da DGS, é um cabaz bastante exigente para as crianças e, portanto, as crianças e adolescentes têm um peso bastante elevado que faz com que nós encontremos mais pobreza nas crianças do que encontramos na abordagem habitual. Depois temos, por exemplo, a região de Lisboa, que é a única região do país onde a pobreza é superior de acordo com esta abordagem. Por quê? Porque esta abordagem, como lá está, vai a partir do custo do valor das despesas essenciais, é sensível às diferenças de custo de vida entre regiões e, portanto, Lisboa aparece como a única região na qual nós encontramos mais pobreza do que na abordagem oficial de acordo com o rendimento. Por outro lado, por exemplo, as ilhas, apesar de continuarem a ter maior pobreza do que o resto do país. No entanto, esta abordagem é menos penalizadora das ilhas, porque mais uma vez, como esta abordagem tem a questão do custo de vida em cada uma das regiões que é tida em conta. E tem também uma parte muito importante que é o rendimento não monetário, ou seja, as pessoas que são proprietárias da própria casa, as pessoas que têm uma horta para cultivar os seus alimentos, isso é tido em conta, e isso nas ilhas também tem uma importância, portanto, faz com que esta abordagem penalize menos as ilhas. Também temos uma análise de uma medida muito extrema de pobreza, que é: como nós fizemos estes cálculos bastante detalhados, família a família, para saber quanto é que essas famílias tinham que gastar para terem as suas necessidades alimentícias preenchidas, respeitadas, nós conseguimos ver quantas famílias é que não têm rendimento suficiente para fazer face a essa dieta adequada, ao custo dessa dieta adequada para a família, de acordo com o perfil etário de cada um dos membros da família, e chegamos ao número de 0,7%. E depois, por exemplo, nas famílias numerosas, é de 4%. Há ainda famílias em Portugal que nem para esta abordagem muito minimalista, muito estrita de despesas essenciais, que é apenas uma dieta adequada, que não têm rendimento suficiente para tal.