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Infelizmente, por razões horríveis, aquela canção transformou-se num hino. Começou a ser o som do direito à autodeterminação.

João Monge recorda aquele tempo como quem não queria ter vivido, mas também como quem não pode esquecer.

Eu lembro-me do espírito do nosso povo, que indignou Portugal, porque estávamos praticamente sozinhos no mundo a defender o direito à autodeterminação do povo de Timor-Leste. Estávamos praticamente sozinhos, como se deve lembrar.

E quem se lembra, não esquece. Foi uma união que ligou Lisboa a Dili, que ficou imortalizada nas mentes de quem a viveu, nos livros da história e num tema em específico.

Muita gente pegou naquela canção por necessidade. Havia uma necessidade de pegar numa canção qualquer que ilustrasse o nosso sentimento perante o que estava a passar em Timor-Leste. E sucedeu ser aquela.

Aquela é "Timor". Originalmente feita para um filme de Margarida Gil chamado "Flores Amargas", a música é de João Gil, a letra de João Monge.

Seria sempre sobre Timor que eu escreveria a letra, nem passou outra coisa pela cabeça. Pronto, eu fiz a letra, o trovante gravou a letra. A canção foi gravada, muito bem cantada pelo Luís, como é costume.

Eu não fui mais que um emissor, que um porta-voz, um alto-falante, onde estava ligado todo um coração e toda uma alma de um povo inteiro, que era o povo português, que esteve com os timorenses e continua a estar. Ou seja, não esteve, está.

Para o músico Luís Represas, prova disso mesmo é a intemporalidade do tema "Timor".

Foi legitimada pelas pessoas que quiseram, com essa canção, mostrar a sua solidariedade, mostrar o seu empenho em ver livre o povo de Timor-Leste independente, o país.

E Luís Represas não esquece um episódio em particular, quando o então presidente Xanana Gusmão o convidou para ir cantar a música de um dia para o outro no primeiro aniversário do referendo da independência.

Foi muito engraçado, porque ele veio para o palco, pôs os braços no ar e disse às pessoas que estavam a assistir, que eram muitas: "Ponham os braços no ar, façam como aquelas imagens que nós vimos na televisão." E eram as imagens do Pavilhão Atlântico com o presidente Sampaio. São pessoas que, de facto, fazem história. Estão e ficarão na história.

O autor da letra, João Monge, concorda e admite que são imagens e memórias que vai guardar para sempre.

É uma coisa que, enquanto autor, me arrepia, é evidente que me arrepia. E há de arrepiar até o fim da vida, quer dizer, não há hipótese.