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Sim, em competição. Pelo menos que eu tenha conhecimento, numa grande competição, foi a primeira vez que tomei conhecimento de uma situação desta natureza, que a estrela, digamos assim, alegando problemas de natureza mais emocional e mental, tenha abandonado a competição. Sabemos que, e isto dos estudos que vêm de fora, muito em particular porque aqui em Portugal há muito pouco. Tenho efetivamente eu um ou dois estudos efetuados, mas uma das questões que às vezes os atletas reportam, muitas vezes depois do abandono da prática, é serem sujeitos a elevadas pressões de natureza psicológica, emocional, alegando às vezes mesmo algum tipo de violência de natureza psicológica. Portanto, é algo que se vai falando, mas ainda está tudo muito silenciado, ainda está tudo muito oculto. No nosso país muito mais. Portanto, em relação a uma pressão psicológica, fala-se nisso e aquilo que eu diria de ontem da Simone Biles é que efetivamente uma pressão daquela terá sido sujeita brutal.
Com esta ideia que teria de bater o recorde, ter cinco medalhas.
Exato. E acho que é aquela expressão que ela coloca, que parece que tem o mundo nos ombros dela. E eu acredito que sim, que aquilo deveria estar a ser sujeito a uma tensão enormíssima, não só para a equipa, mas todo o mundo, toda a comunidade gimna e o mundo inteiro estava de olhos postos nela, porque efetivamente ela era apontada como uma das estrelas destes jogos. Tudo isto deve ter tido a sua quota parte de responsabilidade na situação pela qual passou. E chega a um ponto, apesar de nós conhecermos a Simone Biles como sendo um sinónimo de perseverança, de resiliência, de uma determinação brutal. Há momentos em que inexplicavelmente eles quebram. Não posso especular muito mais, não posso dizer muito mais que não conheço, naturalmente, mas terá sido alguma coisa de natureza psicológica, sim, que estará por trás. Não sabemos. Presumo que muito vai ser estudado e muito vai ser falado e acredito que gente mais dos Estados Unidos que estarão mais próximos ou pelo menos quem consiga estar mais próximo, vai tentar perceber exatamente o que se passou. A esperança, efetivamente, é das questões psicológicas. Aliás, ainda hoje vi também um Twitter do Michael Phelps que diz que compreende perfeitamente a questão psicológica e que está extraordinariamente solidário com a Simone Biles, porque realmente a pressão a que estes atletas, verdadeiras estrelas, são sujeitos. Eu nem consigo sequer imaginar o que possa ser. E pode haver um momento em que efetivamente não consigam gerir.
E ainda bem que falou do caso Michael Phelps, porque eu ia precisamente perguntar, tendo em conta o trabalho que fez na ginástica e suponho que acompanhe obviamente estudos de outras modalidades. A ginástica artística é uma modalidade onde se sente particularmente mais esta pressão psicológica ou não? Isto é uma coisa inerente à alta competição.
Eu acho que isso é inerente à alta competição. Esta pressão psicológica, todos estes atletas que estão ao mais alto nível, sem exceção, são sujeitos a estas pressões. Acredito que nas modalidades individuais se possa fazer sentir mais, mas isto é uma mera especulação, porque são eles sozinhos. Ainda que haja uma equipa, mas é a prestação deles, e eles têm os títulos individuais também. Portanto, nestas modalidades individuais, o fator equipa não é exatamente a mesma coisa que se passa no andebol ou no basquete, porque temos o colega. Se há uma pequena falha, há um colega ao lado que pode dar algum suporte, algum apoio.
A responsabilidade também é partilhada, não é?
Exatamente. Enquanto que aqui são eles e se falham, são eles.
Não há mais ninguém.
E não há mais ninguém, exatamente. Ainda que depois tenham a equipa. E acho que a Simone, por exemplo, ontem acusou muito o não ter conseguido concluir o salto, já ter tido as qualificações anteriores também ter tido algumas falhas, ontem ter voltado a ter uma falha logo no aparelho de abertura. E terá contribuído também para isso. Mas a pressão psicológica é inerente à alta competição e a este nível penso que é inerente à alta competição, sem dúvida nenhuma.
Eu queria perguntar-lhe em relação, obviamente também ao caso Biles, mas ligado um pouco à modalidade da ginástica artística no geral. Tem havido muito debate ultimamente, que foi um pouquinho provocado por causa do escândalo sexual do Larry Nassar, mas que depois abriu a porta para este olhar com mais atenção de algumas federações, sobretudo de países ocidentais, sobre os métodos de treino aplicados na ginástica artística e o fato de serem muitas vezes sobre raparigas muito novas. Que é coisa que, por exemplo, não acontece tanto na ginástica masculina, em que a puberdade não é vista como um problema tão grande, como é vista na feminina. Até que ponto é que isso pode contribuir para afetar psicologicamente as atletas, o fato de elas próprias serem tão jovens?
Pode contribuir para quê? Desculpa.
Para afetar psicologicamente as atletas, o fato de elas serem tão jovens e estarem sujeitas a um regime de treino tão rigoroso.
Primeiro de tudo, elas são sempre mais jovens do que eles. Se bem que nestes jogos, por exemplo, estamos a assistir a uma pequena mudança nesse paradigma. Efetivamente estamos a conseguir ver ginastas, diria, pelo menos daquilo que me tem sido possível ver, já de 20, 21, 22 anos. Ginastas algo mais velhas do que era habitual há uns anos. Há aqui uma mudança de paradigma. Mostrando que é possível, efetivamente, também mulheres fazerem ginástica.
E conseguirem o ouro.
E conseguirem o ouro com o nível de exigência e de dificuldade que nós conseguimos observar. Naturalmente, na ginástica, mesmo estas atletas, tanto homens como mulheres, mesmo a competirem até mais tarde, e ainda bem que temos uma maior longevidade dos ginastas, naturalmente que eles iniciam a sua prática desportiva extraordinariamente cedo, para conseguirem chegar também ao nível a que chegam nestas idades. A pressão psicológica sobre estes atletas é enormíssima sempre. E há vários estudos a falarem, e não é só as pressões psicológicas, como falou, da violência sexual, que tem vindo um bocadinho a público com alguns escândalos. A violência acontece, infelizmente. Acontece a violência sexual, a violência psicológica, a violência social, ela acontece na ginástica. A nível internacional há efetivamente muitos estudos e mesmo no âmbito da ginástica, e eu faço parte inclusivamente de um grupo de investigadoras a nível internacional que se dedica ao estudo dos aspetos de natureza sociocultural na ginástica artística. E uma das coisas que algumas investigadoras vão vendo, por exemplo, é que alguns destes atletas ao mais alto nível, quando depois, de uma forma mais retrospetiva, olham para as suas carreiras, dizem que por terem iniciado as suas carreiras desportivas em idades bastante baixas, naturalmente, durante a infância e adolescência, parece que tudo gira em torno do ginásio e alguns ex-atletas e mesmo investigadores a dizerem que fala-se numa espécie de adolescência que fica em standby, que fica em modo de pausa, porque tudo gira em torno do ginásio, a vida deles é tudo a ginástica, tudo o que fazem é em função da ginástica. Parece que fazem uma pausa no resto das suas vidas para conseguirem atingir os resultados que atingem. Fala-se disto e de estudos que têm vindo a ser feitos. Naturalmente que isto ao fim de algum tempo, pode haver ginastas que conseguem gerir melhor, uns melhor do que outros, essas questões das cargas enormíssimas de treino, das intensidades de treino, das pressões a que são sujeitos. Uns gerem melhor, outros gerem pior. Gerem isto de uma forma menos boa. Mas eu diria que isto é algo que faz parte da ginástica, mas é algo que nós temos que começar a falar e começar a verificar se outros modos de treino, outras metodologias de treino, que não as antigas metodologias que nós costumávamos ver e ouvir falar. Presumo que já esteja a haver aqui alterações para termos atletas a competirem por mais tempo, porque está a haver alterações nas próprias metodologias, naturalmente. E é isto que precisamos começar a perceber exatamente, essas metodologias, começar-se a falar sobre essas situações de alguma violência de maior nível que possa existir nesta modalidade, porque essa violência vai existindo, infelizmente vai existindo, mas precisamos de falar sobre ela e apontar os exemplos bons daquilo que é possível fazer, atingir bons resultados, usando metodologias mais adequadas.
E professora, tendo em conta a investigação que fez em Portugal, o que é que encontrou? Que essa violência também existe ou, no geral, há metodologias diferentes, ou porque o próprio país não tem o nível de competitividade tão alto como, por exemplo, os Estados Unidos, no caso de Biles, a questão não se coloca tão bem assim. O que encontrou nos ginásios portugueses?
Os estudos que eu fiz foram centrados na nossa ginástica e um desses estudos já tem mais de uma década. Há um outro um bocadinho mais recente que nunca foi publicado, que foi uma tese de doutoramento. Naturalmente, nós não temos o nível de competitividade que tem o Japão, os Estados Unidos ou uma Rússia. Vamos conseguindo ter um ou outro atleta que lá vai conseguindo, como tivemos a Filipa Martins, a mostrar que também somos capazes de ter bons ginastas, mas ainda nos falta um caminho, naturalmente. Nos estudos que eu fiz, principalmente nesse estudo, posso falar mais é desse estudo que está publicado, mas é de uma década ou de décadas que já vão bem lá para trás, século passado, em que a metodologia, que entretanto alguma coisa já terá mudado, porque acredito que mudou, e daquilo que eu vou conhecendo da Filipa Martins e do treino da Filipa Martins Mais uma vez, é uma ginasta com 25 anos, é uma mulher, já não é uma criança, já não é uma adolescente, é uma mulher a fazer ginástica. Portanto, alguma coisa mudou na metodologia de treino e ainda bem, para ela estar e continuar e, presumo eu, ainda para continuar. Portanto, alguma coisa terá mudado, mas não posso pôr as mãos no fogo, porque o estudo que eu fiz veio trazer ao de cima algumas situações de violência que ocorriam na ginástica. Hoje em dia, no trabalho mais recente que eu co-orientei, também me foi dado a conhecer algumas situações muito pontuais de um ou outro tipo de violência, mas tudo muito oculto, tudo muito silenciado, que toda a gente tem algum receio em falar, com medo de represálias, o que é que poderá acontecer. E até porque muitas vezes todas estas situações de maior intensidade, maior pressão, maior violência que possam ocorrer, é muitas vezes encarado por alguns ginastas como sendo algo perfeitamente natural. Faz parte, só assim é que lá chegamos. Precisamos de outras metodologias diferentes para lá chegarmos.
Claro, mas em Portugal também houve, pelo menos na época em que estudou, também havia essa certa cultura do medo de contestar métodos mais agressivos.
Sim, exatamente. Havia esse receio e neste momento eu faço parte de uma equipa de investigação aqui da Universidade da Maia, em que estamos a tentar perceber exatamente, não só na ginástica, mas também noutras modalidades, precisamente se ocultar estas questões da violência, este fenómeno. Estamos a falar da ginástica, mas isto acontece nas outras modalidades também e na maioria dos casos, atletas não falam, como eu disse, porque tendem a considerar isto como algo absolutamente normal para se conseguir atingir resultados. Aqui o grande problema em todas as modalidades, e no caso da ginástica, é tentarmos perceber quais são os limites, até onde é que nós podemos ir, porque todos nós sabemos que efetivamente, no âmbito, por exemplo, da ginástica, é preciso às vezes superarem-se os atletas e realmente ultrapassarem muitos obstáculos. Mas qual é o limite, até onde é que está o limite, o que é considerado normal e a partir de que limite é que nós podemos dizer: "Não, isto não é normal, isto não pode acontecer."
É como se esse fosse o grande debate agora, que Biles deu aqui o mote para ser mais discutido. O que acha das pessoas que têm dito, já surgiram algumas reações, por exemplo, online, pessoas que dizem: "Simone Biles está a usar a questão da saúde mental porque está na moda" e que esta é uma situação em que no fundo ela falhou e portanto agora quer monopolizar a atenção mudando a narrativa. O que pensa destas críticas de que Biles tem sido alvo?
Eu acho que sendo ela a atleta que é, não fará muito sentido estar a querer chamar a atenção usando este tipo de estratégia, digamos assim. Eu acho que ela não necessita disso. Ela já provou o tipo de ginasta que é, daquilo que é capaz, portanto, eu acho que ela não necessita. Ela se efetivamente tomou a decisão de não competir, é porque efetivamente alguma coisa com ela não estará bem, ela não se sentirá nas melhores condições. A única coisa que eu acho é mesmo isso, ela não se deve ter sentido efetivamente nas melhores condições, porque eu acho que não faria sentido ela estar a chamar a atenção, porque ela já provou aquilo que é e acho que não tem nada a provar já mais, porque efetivamente é uma ginasta de eleição. Haverá aqui efetivamente as questões da saúde mental. Poderá haver uma questão de saúde mental e de certa forma, ela ao tomar também esta decisão, chama um bocadinho a atenção para essas questões da saúde. Sem dúvida nenhuma, chama a atenção para as questões da saúde mental ao nível dos atletas, que os atletas necessitam de um forte apoio a nível psicológico, mas que estes atletas de mais alto nível, na maioria dos casos, terão esse apoio. Mas também é algo que precisa de outro tipo de violência, que como eu disse, tem que começar a ser falada e ser discutida. Também estas questões da saúde mental têm que ser faladas e têm que ser trabalhadas, e os atletas necessitam desse enorme apoio para conseguirem gerir todas as emoções, todos os sentimentos, quando estão nestes palcos, digamos assim, mundiais a representarem os países. Como eu disse, eu faço parte de uma equipa aqui da Universidade da Maia, que para estudarmos estas questões da violência, quando eu falo da violência, estou a falar da violência de natureza física, sexual e psicológica também. Para tentarmos perceber o que é que se passa no nosso país, em todas as modalidades. Nós lançamos há um ano, em setembro de 2020, o Observatório Nacional da Violência contra Atletas, onde precisamente aquilo que nós queremos é que atletas atuais, ex-atletas ou pessoas que tomem conhecimento ou que tenham testemunhado algum tipo de situação que percecionem como violenta, possam usar esta plataforma online que existe e reportar essas situações. Porque precisamos de começar a fazer o levantamento deste tipo de situações também para podermos depois atuar de forma diferente e tomar as medidas mais adequadas e em conjunto com instituições superiores, entidades superiores, podermos ajudar em políticas de proteção de atletas.
E começa por perceber precisamente a prevalência desses casos no país.
Exatamente. E neste momento, porque todos falamos, mas não há dados, não há grandes indicadores, então foi com esse intuito mesmo de tentar perceber. Isto existe, vamos começar a falar sobre estas questões, vamos ver a prevalência disto, modalidades, género, idades, tudo isso. Está há um ano aberto este Observatório Nacional da Violência contra Atletas, agora em setembro vai fazer um ano.