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Partimos para a análise. Junta-se a nós em direto o major-general Isidro Morais Pereira. Senhor major-general, bem-vindo ao "Jornal da Seta", Rádio Observador. Falamos de desenvolvimentos conhecidos há minutos. Que reação lhe merece? Podemos mesmo confiar nesta aparente suspensão da rebelião e deste movimento rumo a Moscovo?
O que me parece é que, de facto, Lukashenko negociou, conseguiu chegar a acordo com Prigozhin em nome, naturalmente, de Vladimir Putin, porque ele não faz estes contactos com o financiador do grupo Wagner por mote próprio. Há aqui um conjunto de condições que nós neste momento desconhecemos. Uma delas é já conhecida, que é garantias de segurança, de que não vai haver represálias, nem procedimento judicial, nem criminal perante todos os mercenários do grupo Wagner. Isso é algo que neste momento parece ser óbvio. No restante, relativamente às condições que Prigozhin terá colocado em cima da mesa para dar por finda esta rebelião ou por desistir de continuar o seu avanço com as suas tropas sobre Moscovo, deverá haver aqui um conjunto de elementos que neste momento desconhecemos. Não sabemos que consequências é que isto poderá ter, porque uma das exigências que Prigozhin fazia, entre outras, era a substituição do ministro da Defesa, inclusivamente o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o general Valery Gerasimov, que os acusava de incompetência e de corrupção, e ultimamente inclusivamente até chegou a dizer que brevemente estaríamos perante uma mudança de regime, uma mudança pelo menos de presidente na Federação Russa.
E até tendo pego nessa sua última declaração, senhor major-general, como é que fica Vladimir Putin no meio de isto tudo? Podemos dizer que ganhou este braço de ferro? E também como é que fica Yevgeny Prigozhin?
Não, não podemos dizer que Vladimir ganhou este braço de ferro, porque este braço de ferro teria sido ganho por Vladimir Putin se ele tivesse, de facto, esmagado esta rebelião, perdoem-me a expressão, e tivesse metido na ordem os revoltosos. Não foi isso que aconteceu. Parece que estamos perante um negócio, estamos perante um acordo cujos termos não conhecemos ainda na sua plenitude. Agora, na minha opinião, Vladimir Putin sai desta novela, chamemos-lhe assim, enfraquecido, como é óbvio. Ele porque não sei se ainda durante o dia de hoje, durante o dia de amanhã, mas nos próximos dias, naturalmente que teremos conhecimento das condições que Prigozhin colocou para dar por finda esta sua rebelião e ter ordenado aos seus mercenários, aos seus combatentes, que regressem às suas nasdades, às bases onde eles estavam aquartelados.
Só mesmo para terminar, senhor Major-General Isidro Morais Pereira, como é que fica a Ucrânia? Posso lhe dizer que há instantes Zelensky reagiu a este alegado recuo do grupo Wagner. Afirma o presidente da Ucrânia que hoje o mundo viu que os chefes da Rússia não controlam nada. Como é que fica a Ucrânia no meio disto tudo?
A Ucrânia, neste momento, este frisquinho, chamemos-lhe assim para não estar a repetir o termo novela, vem moralizar naturalmente a Ucrânia e a causa pela qual luta. Aquilo que o próprio presidente ucraniano tem vindo a afirmar, e muitos outros ucranianos pertencentes ao governo de Zelensky, têm dito muitas vezes que a Rússia é um tigre de papel, no fundo. E veio-se a verificar que tudo aquilo que eu inclusivamente tenho vindo a afirmar é que não existe unidade de comando no campo de batalha, existe indisciplina nas tropas, há baixas que não têm sido reportadas e que têm sido camufladas do público em geral e que são aos milhares. Tudo isto nos parece que aquele mito que de alguma forma se espalhou no mundo ocidental de que o exército russo era um exército digno herdeiro do exército invencível da União Soviética, que ganhou este cognome, é um verdadeiro mito, assim como é os mísseis Kinzhal, que são imbatíveis e que não são interceptáveis por nenhuma arma, também é outro mito, e muitos outros. A Ucrânia e o executivo ucraniano, perante esta peripécia, chamamos-lhe assim, que durou cerca de 24 horas, olha para isto e diz: "Bom, é contra esta gente que nós temos que lutar". Temos um inimigo que está completamente desunido, onde não há unidade de comando, onde não há disciplina. Isto penso que vai acabar por se traduzir para o lado ucraniano como um verdadeiro fator de moralização das suas tropas e da causa pela qual lutam. Eu tenho dito muitas vezes e perdoe-me de tomar mais algum tempo.
Temos mesmo de terminar porque infelizmente o nosso tempo é mesmo muito curto.
Quando Vladimir Putin decidiu invadir a Ucrânia, ele estava a invadir um Estado. O resultado a que estamos a assistir é à construção em acelerado de uma verdadeira nação, que é isso que está a acontecer na Ucrânia.