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Sem falta na Rádio Observador, como sempre com a análise do Pedro Henriques, o nosso audioárbitro. Pedro C., muito bem-vindo. Boa noite. Vamos falar sobre o trabalho do árbitro António Nobre, da Associação de Futebol de Leiria. Esteve no comando deste jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Moreirense, quinta jornada da Primeira Liga. E vamos, sem perder mais tempo, analisar os lances escolhidos por ti, sendo que o primeiro lance que queres destacar, Pedro, é ao minuto 11, um canto que trocou para pontapé de baliza. É uma das novas regras.
Exato. É uma alteração às leis de jogo, já tínhamos visto no mundial. As pessoas ainda não estão muito familiarizadas, ficam um pouquinho surpreendidas. Ou seja, sempre que há um pontapé de canto atribuído incorretamente, essa decisão pode ser alterada imediatamente pelo VAR, o que significa que tem que ser uma imagem muito clara e óbvia. O árbitro não vai ao monitor, informa e diz: "Não é canto, é pontapé de baliza". Foi o caso, o Maracas desviou a bola pela linha de baliza, a bola bateu no Francisco Moura, o árbitro deu pontapé de canto, mas era pontapé de baliza, porque a bola tinha batido em último lugar no jogador do FCdo Porto e, portanto, alteração. Só pra relembrar que é uma das alterações e ainda faz sentido irmos falando nisso.
Ora bem, Pedro, avançamos até ao minuto 17, em que, no teu entender, faltou um cartão amarelo mostrado ao William Gomes.
Sim. Os jogadores, e hoje tivemos um caso mais grave, já vamos falar sobre ele, têm que perceber que, e o IFAB, que é quem regula as leis de jogo, já há muito tempo colocou esta questão da cabeça, incluindo nuca, rosto, pescoço, é uma zona de proteção, e que a utilização daquilo que é a mão, o braço, o cotovelo acaba por ser quase uma arma. O que isso significa? Que estas entradas, todas elas, mãos, braços e cotovelos ao nível da cabeça, aqui incluí tudo que já tinha dito, são perigosas e são passivas sempre de livre direto. Conforme a entrada em si, a gravidade da entrada ou nada, que é muito raro, ou cartão amarelo, que é o mais normal, ou no limite, cartão vermelho. Neste caso concreto, o W líam Gomes acaba por atingir não com o cotovelo, porque normalmente quando é o cotovelo as coisas são mais graves, porque até o osso é mais duro, mas com o antebraço esquerdo, foi meio mais à cara do Kike, é uma atitude incorrecta, antidesportiva, e a entrada que é negligente e era passível de cartão amarelo. Dizer que foi mesmo de frente pro árbitro assistente, porventura mais focado na questão do fora de jogo, mas podia ter ajudado, porque realmente a entrada é negligente e era pra cartão amarelo. O VAR não pode intervir, obviamente.
Vamos avançar, minuto 41, o jogador do Moreirense, Guilherme Librato, que no teu entender ficou também com um amarelo por mostrar.
Sim, e aqui é a questão do agarrar. Uma coisa é aquele garrão rápido na disputa de bola, tão corpo a corpo. Outra coisa é tu não teres hipótese, estás por trás, como foi o caso, e de forma completamente consciente e desportiva, sem qualquer possibilidade de chegar à bola, a bola está à frente, tu estás por trás e a única coisa que fazes é destruir e parar a jogada, mesmo que seja numa zona mais neutral como é esta, que foi de certa forma a saída do meio-campo. puxou a camisola do Alberto Costa, comportamento incorrecto. Ao árbitro estava a escapar-lhe o jogo, já tinha havido inclusive expulsões a elementos do banco, o jogo tava durinho. E este tipo de faltas, que às vezes eu tento perceber porque é que os árbitros, de uma maneira geral, não querem mostrar o cartão amarelo para não carregar o jogo cartões amarelos, mas quando o jogo te está a fugir e os comportamentos vão persistindo e sendo frequentes, é puxar pelo cartão pra segurar o jogo. Aqui faltou também cartão amarelo por mostrar.
Vamos então avançar para o primeiro cartão amarelo mostrado no jogo a João Veloso.
Sim, cartão amarelo ao minuto 44, João Veloso com o jogo interrompido. Lá está, um daqueles sururus de banco, e houve vários. O árbitro até assinalou uma falta a favor do Moreirense, mas entretanto o João Veloso mais à frente, completamente fora daquele lance, teve um comprimento incoerentemente desportivo, só se viu numa repetição em plano aberto, foi na direção do Alberto Costa, por ventura alguma boca teria havido, não sabemos, isso não conseguimos comprovar, e acaba por empurrar com as mãos e vai contra ele e depois empurra no peito. Automaticamente, sem bola, longe da ação, foi o sururu ali perto do banco, saiu o banco do Flamengo e do Porto em direção a esse lance e foi o caos. Mas de qualquer maneira, cartão amarelo bem mostrado ao João Veloso.
Vamos avançar agora já para a segunda parte. Francisco Moura, que aos 63 minutos vê cartão amarelo.
Sim, cartão amarelo aos 63 minutos por uma falta tática, parou a saída em contra-ataque, neste caso do Francisco Moura em relação ao Manuel Mendonça. Estava aqui a ver que ahora é o João Mendonça. É aquela situação também de dupla possibilidade de mostrar o cartão amarelo. Não se mostram dois cartões amarelos, mas há a dupla possibilidade. Uma é falta táctica, parar a chegada, o contra-ataque. E depois, uma vez mais, como é que ele pára? Braço esquerdo, aberto, uma vez mais com o antebraço, não foi de cotovelo, porque isso é sempre mais perigoso, a acertar na cara do Mendonça. Também tínhamos aqui a questão da negligência pela entrada, mas sobretudo pela falta tática, cartão amarelo bem mostrando.
E o próximo lance é também um lance de cartão amarelo, Pedro.
Sim, ao minuto 67, o Dinis Pinto acaba por ser bem advertido por testar com o árbitro. O árbitro assinala uma falta e é uma falta bem assinalada porque ele, Dinis Pinta puxa o Martim Fernandes, agarra e puxa e manda. E eu até na altura pensei que fosse por essa falta, que era já próxima da área, que ele tinha mostrado o cartão amarelo, mas depois no plano aberto quando deram mais à frente a repetição é que se percebeu que não. O árbitro marcou falta e não ia mostrar amarelo. Só que o Diniz Pinto chuta a bola para fora das quatro linhas e com o braço levantado, aquele levantar o braço para protestar. E é este desacordo por gestos, pontapé na bola para fora e este braço no ar, que leva o árbitro, por este complemento desportivo, de forma correta, a mostrar o cartão amarelo ao Dinis Pinto.
Ora vamos então ao minuto 86, lance capital da partida e o cartão vermelho mostrado a Guilherme Librato com ajuda do VAR, envolveu esta lesão grave de Victor Forolto. Vamos escutar então a tua análise, Pedro.
Sim, em primeiro lugar, ao contrário das outras entradas que eu falei à cara, que foram com o antebraço, estas foram mesmo com o cotovelo e acaba por ser uma imagem um bocadinho dura, até porque na repetição, e eles também não dão muitas repetições a este lance, percebe-se o porquê. Na repetição percebe-se que é uma cotovelada à boca, portanto à zona da boca, e a maneira como vai a cara do Frahol e após esta pancada fortíssima, percebe-se que ele fica quase tipo desmaiado, portanto a cara dele fica completamente alterada. É uma entrada de cotovelo à boca que não é a utilização do braço ou do antebraço, que normalmente não é tão agressiva. O cotovelo acaba por ser sempre uma arma de arremesso, até por ser uma zona de osso e que torna-se mais contundente. É claramente enquadrado naquilo que é o uso excessivo de força, que põe em risco a segurança e integridade física do adversário, isso não há dúvidas. E relembrar o seguinte, que já há uns anos a esta parte, no meu tempo não era muito falado isto, mas depois a UEFA vai sempre avançando, vai sempre evoluindo, não importa se a decisão é boa ou má, mas é chamar a atenção dos árbitros pra aquilo que são as consequências. Ou seja, quando o árbitro está ali numa dúvida, percebe que é uma entrada mais dura e depois chega lá, vê sangue, vê uma perna partida, etc. E hoje com o VAR isso torna-se mais simples, Portanto, o árbitro não tem que inventar. Ter em consideração a consequência para também carregar, desculpem lá a expressão, naquilo que possa ser a cor do cartão. O que significa que a entrada em si, se já deixa dúvidas, porque é uma entrada dura, se o jogador rasgou, partiu, está a sangrar, desmaiou, é porque realmente há muita contundência na maneira como aquela entrada acabou por acontecer. E é também esta consequência que leva o árbitro acarretar no cartão vermelho. Mas é um cartão vermelho que com as repetições não há dúvidas, é só verem, é mesmo uma entrada de cotovelo, conduta violenta. E por que se chama conduta violenta? Porque quando é uma entrada na disputa de bola, tens a bola nos pés e vais lá a pé e acertas de forma mais violenta, estamos a falar de falta grosseira, que é passível também de cartão vermelho. A conduta violenta é quando não estás a disputar a bola, podes estar a disputar a bola nos pés, mas dás a falta cá em cima no braço. E quando o árbitro escrever no relatório "não falta grosseira", mas sim conduta violenta, e bem, aquilo que é o castigo ao jogador será sempre superior em relação à falta grosseira, porque a falta grosseira pressupõe uma disputa de bola, é o mais normal. A conduta violenta pressupõe a tal agressão, a não disputa de bola, e por isso deduz-se que o castigo seja superior, claramente, a mais de um jogo. De qualquer maneira, não é isso que agora importa. Cartão vermelho muito bem mostrado. Há mesmo uma conduta violenta e, portanto, nada a dizer. Bem o VAR, porque eu deduzo tenha sido o VAR a chamar o árbitro, embora o árbitro, quando tem dúvidas, as pessoas acham que é só o VAR pode chamar o árbitro. O protocolo permite ao árbitro, se tiver uma dúvida qualquer, encontrada no protocolo, como é o caso de um cartão vermelho, pode por sua iniciativa pedir ao VAR para lhe mostrar no monitor. Eu deduzo tendo sido o VAR a chamar, mas também pode ter sido o árbitro a ter tido essa iniciativa.
E Pedro, o último lance que queres destacar é o minuto 90, acaba por estar ligado também a este cartão vermelho, até porque o Futebol Clube do Porto faz seis substituições.
E o Moreirense também.
E o Moreirense também, ao contrário das cinco habituais, mas isso está previsto no regulamento.
Exatamente. O regulamento fala numa coisa que é concussão cerebral. É o segundo ano que está no futebol profissional, porque só o ano passado é que isto aconteceu, e curiosamente foi logo na primeira jornada num jogo do Estoril com o Estrela da Amadora que isso aconteceu. Basicamente para dizer o seguinte: sempre que há um jogador que se lesiona por uma situação de lesão na cabeça, levou uma cotovelada, como foi o caso, foi contra o oposto, levou um pontapé, chocou de cabeça com o colega, com o adversário, e esse jogador tem que sair em função dessa lesão na cabeça. Lá está a importância que a UEFA deu ao abordão à zona da cabeça. Imaginemos que estávamos no primeiro minuto de jogo, fazia essa sugestão por concessão cerebral ainda tinha mais cinco para fazer. Ou seja, esta substituição é completamente à parte das cinco substituições, estejam feitas, estejam ao meio, ainda não tenha sido feita nenhuma. Então e como é que as pessoas sabem que há aqui uma substituição que é esta, que é especial? Isto é, como é que o público, como é que as equipes de arbitragem, como é que a equipe adversária sabe, até porque depois também vai tirar partido disso. Noutro sítio onde eu também falo e coloco imagens, está lá a imagem, o delegado da equipa do Flaco do Porto, porque é obrigatório, faz parte do elemento, no momento da substituição, levanta na mão um cartão roxo, que é dado pelo quarto árbitro. E é esse cartão roxo, parece azul, mas é roxo, é que mostra publicamente a toda a gente que aquele jogador que já saiu, claramente, neste caso, o colega que vai entrar, vai entrar em função de uma substituição extra. Posto isto, dizer o seguinte, isto acontece ao minuto 90. Aí 90 para 91, automaticamente, a equipe adversária Faz essa substituição extra, ganha também por direito uma substituição além das cinco. Da mesma maneira, não tenha feito nenhuma, já tinha feito. O caso concreto do Muriense já tinha feito as cinco também, curiosamente. E então o que é que o Muriense faz? Se calhar só se apercebeu na altura, ou não faço ideia, ao minuto 90 mais três, fez a sua sexta substituição. Na altura sai o Dinis Pinto, que era o capitão de equipa, que é o 76, e entrou o número dois para o seu lugar. Para as pessoas perceberem que o Muriense também ganha direito a essa substituição e ninguém tem que se lesionar na cabeça para ganhar esse direito. Última notinha mesmo pra terminar, que também não deixa de ser curioso. Eu penso que foi também por causa do momento. Ao minuto 90 mais três, quando o Dinis Pinto sai nesta sexta substituição, ele tem a braçadeira no braço esquerdo e sai com a braçadeira para fora. O jogo recomeça e o Muriense ficou a jogar uns minutos sem capitão. E é aí que alguém reparou, desatenção para já também aos responsáveis, os Mirko Kosns têm que saber isso, sobretudo para a equipe da arbitragem. Passado um bocadinho, alguém se lembrou. E quando digo um bocadinho, já tinham passado uns minutos, porque o jogo teve oito minutos de tempo extra. O Maracas assume a braçadeira de capitão. Aqui uma desatenção que não sendo nada de especial, nem muito importante, nem muito grave, diz bem também às vezes da qualidade e do jogo de equipa que a equipa de arbitragem tem que ter. É aqui que os assistentes que estão mais tranquilos nas linhas e soprattutto o quarto árbitro, têm um papel muito importante, porque o árbitro já tem tanta coisa para fazer lá dentro, o quarto árbitro não pode escapar a este tipo de situação. Não é irrelevante, mas é isto que mostra a qualidade de uma equipa de arbitragem. Para mim, será sempre nestes pequenos pormenores.
Pedro Henriques, analisados os lances, falta-nos conhecer a nota. António Nobre, num minuto e meio passa na tua avaliação?
Sim, nota seis. Vou ser rápido, porque repara, mesmo com auxílio naturalmente do vídeo-árbitro, eu também incluo sempre aqui a videoarbitragem, o lance capital, como disseste muito bem, é a questão da expulsão e a equipa de arbitragem, não forma direta, mas depois corrida ao monitor, esteve bem. Falhou sobretudo em dois cartões amarelos que foram aquí assinalados e aqueles pormenores que eu falei da braçadeira. Aqui não há culpa do árbitro, pelo comportamento dos bancos, para variar, mas gostei das poucas faltas assinaladas, mostra que a equipa de arbitragem quis deixar jogar. O tempo útil de jogo, que agora já começa a ser normal, quase 60%, e também o tempo de recuperação, os oito minutos que foram dados. Portanto, nota positiva, com falhas na parte disciplinar, mas sobretudo com o lance principal a ser bem decidido pela equipa da arbitragem com o VAR a ajudar. Nota seis.
Nota seis dada pelo Pedro Henriques ao trabalho de Antônio Nobre, o árbitro que esteve no comando deste encontro entre o Futebol Clube do Porto e o Murinense, vitória portista por 2 x 1.