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A trilha não engana, é o início de mais um Sem Falta, o podcast da Rádio Observador em que contamos, como sempre, com o Pedro Henriques. Pedro, viva, boa noite.
Boa noite.
Hoje tivemos a primeira meia-final, foi só um jogo entre Espanha e França, com os espanhóis a avançarem pra essa final do Campeonato da Europa 2024. Uma vitória por duas bolas a uma sobre os franceses. E nós, neste primeiro segmento aqui do teu podcast, começamos com o destaque do dia. Pedro, qual pra ti o destaque?
Eu hoje o destaque, e normalmente aqui coloco sempre um lance de algum jogo que se tenha realizado no dia, hoje só tivemos um, uma meia-final, e vou destacar um lance ao minuto 14. A Espanha já estava um bocadinho sob fogo, claro, que a arbitragem, especificamente por causa daquele jogo contra a Alemanha, da tal mão, do tal penalti que não foi assinalado, no momento que podia dar um 2 x 1 pra Alemanha e depois se transformou num 2 x 1 pra Espanha. E hoje também os olhos estavam apontados pra isso. E já aqui alguma conversa em relação a um lance ao minuto 14, em que o aumentado do Navas a deslizar o chamado "take", que não acerta na bola e depois com os pitons e com um dos pés e de sola, acaba no final do seu movimento, o deslize, acertar ali no tornozelo do Rabiot. O Rabiot depois foi assistido, fica ali naquela, quase o cartão cor-de-laranja, aquela situação entre o amarelo e o vermelho. E, portanto, fala-se um bocadinho por isso. Eu queria dizer que o lance em movimento normal, e pra mim como árbitro em terreno de jogo, eu diria também cartão amarelo. Falta qualquer coisa pra ser vermelho, como se costuma dizer. Como VAR, e de acordo com o protocolo, em que a intervenção tem que ser de um lance muito claro e óbvio pra eu dizer não é amarelo e é vermelho, eu tinha que ter ali mais fatores, tinha que ver, por exemplo, aquela entrada direta ao tornozelo, com o pé apoiado no solo. E o que acontece é que há ali um meio-termo, no fundo ele não toca na bola, vai a deslizar só no final do seu movimento, parece que até já com um pouquinho de impetuosidade, é que acaba por acertar, embora com o solo e com os pitons dentro dos pés, mas com o tornozelo já também, com o pé já levantado, com o tornozelo do Rabiot no ar.
É, dá até que foi ali meio escorregão, não é?
Meio escorregar. E, portanto, falta ali, como a gente costuma dizer em termos de arbitragem, falta ali qualquer coisa pra eu poder dar o vermelho. Tanto eu entendo claramente o amarelo do árbitro no campo, entendo a não reversão do lance por parte do VAR, de acordo com o protocolo, mas honestamente, eu acho que este tipo de entradas, se fossem penalizadas por cima, digamos assim, com o cartão vermelho, mesmo com a consequência que é depois uma equipe ficar 11 contra 10, se calhar iria retirar alguma impetuosidade que muitas vezes é utilizada nestes lances e que muitas vezes traduzem em lesões. Percebo, entendo o lance, percebo e entendo a decisão, mas é um dos tais lances em que se calhar aquele cartão azul dos-
Seria pra ir uns minutos fora.
Poderia eventualmente fazer aqui algum sentido, porque claramente aquele cartão que a gente diz é cor-de-laranja, nem é amarelo, nem é vermelho. De qualquer maneira, este é o destaque com este lance, que é muito interessante sob o ponto de vista de arbitragem também de análise.
Esse é o destaque aqui trazido pelo Pedro Henriques. Rezo os Navas e aqui falamos de um árbitro esloveno, o Slavko Vincić, que apitou esta meia-final entre a Espanha e a França. De facto, já introduzias aí, Pedro, uma nova possibilidade que estará a ser estudada, o cartão azul, como já acontece noutras modalidades, efetivamente o jogador ficar X minutos fora de campo e depois reentrar mais à frente, não uma expulsão, mas uma ausência temporária. E é nessa linha de pensamento que seguimos para o segundo segmento, que é a lei traduzida. Qual a tua lei pra hoje, Pedro?
Olha, eu hoje vou falar daquilo que é o tempo útil de jogo. Nós, o que assistimos neste jogo hoje, como temos assistido em outros jogos, é que muitas vezes as equipes, isto é um jogo decisivo, uma entrada direta pra uma final, etc, que as equipes quando se veem a ganhar, acabam por arranjar todos os meios e todos os expedientes pra dar uma maneira e ir quebrando os ritmos, aproveitando tudo e mais alguma coisa pra ir quebrando o ritmo e depois a sensação que se fica é que por vezes nos últimos X minutos não há jogo, há muito pouco jogo. E depois vai entroncar naquilo que nós tínhamos visto no Mundial do Qatar, jogos com 12, 14 minutos. Na altura, as pessoas ficaram surpreendidas, mas aceitaram. Depois houve um trazer disso para os jogos das competições nacionais. Portugal foi um desses países que começava a dizer. E depois, de repente, os treinadores começaram ali também a dizer: "bem, isto é um bocadinho complicado, já não conseguimos controlar".
É, gerou alguma polêmica na altura. Nós aqui em Portugal chegávamos a ter prolongamentos de quase 20 minutos.
Tivemos uns 17 minutos. Portanto, resumindo e concluindo, digamos que houve aqui um regresso ao passado, a uma certa normalidade. Mas na prática e na realidade, um futebol que está altamente tecnológico, altamente profissional, temos tudo e mais alguma coisa a este nível, os europeus, os mundiais, não faz muito sentido colocar nas mãos do árbitro o tempo de decisão de quantos minutos é que é pra dar ou não, porque normalmente nunca coloca de acordo com a realidade e basta ver o que aconteceu hoje. Tivemos cinco substituições, só aí a 45 segundos cada um. Portanto, tínhamos só aqui quase quatro minutos, tivemos três cartões amarelos e tivemos aquele jogador espanhol que se aleijou ao minuto 82. Teve três minutos no chão.
Sim, o Laporte, o central.
Exatamente, o Laporte, a ser assistido por causa do nariz e claramente tinha que ser assistido. Ora, tudo isto somado não podia dar só cinco minutos. Também claro, depois deu mais um minuto, depois houve uma substituição. E depois vimos o banco espanhol todo a pressionar o quarto árbitro, porque ao minuto 95, que era os tais cinco minutos de desconto, o árbitro não estava a acabar, e bem, porque tinha que dar mais, em função da substituição. Isto tudo acabava, tudo isto de colocar o ónus, porque depois isto tira a credibilidade, no meu ponto de vista, à competição, e tira a verdade, se tivéssemos tempo útil de jogo. Já estão feitos os estudos, já se sabe que no futebol 11 é 30 minutos de tempo útil, no futsal são 20, aqui são 30, vai dar os tais 45, 50 minutos. Mesmo que os jogadores quebrem o ritmo, ou porque são assistidos, ou porque há substituições, o que quer que seja, há uma coisa que nós sabemos, podem quebrar o ritmo, mas a realidade, todos os jogos têm 30 minutos cada parte, porque esse é o vai jogar. E já não há mais pressão sobre as equipes de arbitragem, não vale a pena os bancos estarem se a levantar, porque há um cronômetro, esse é que vai ditar onde é que é o fim do jogo. E eu acho que isso ia ajudar, não só os árbitrosA arbitragem aliviada deste ónus, porque muitas vezes os árbitros dão descontos e depois há um gol.
Sim, e no fundo, Pedro, acabas por beneficiar quem pratica esse quebrar de jogo.
Exatamente. E este jogo é um exemplo típico que tinha que ter um tempo útil, se calhar a Espanha até metia mais um gol, mas claramente a Espanha fez, e bem, o papel deles, que é quebrou completamente. Do minuto 82 para frente, praticamente não se jogou, quebrou várias vezes com as substituições, com as lesões, com tudo o que aconteceu. E portanto, é uma reflexão, sobretudo para esta questão do tempo útil do nosso segmento da lei traduzida.
Ora bem, depois dessa nossa conversa acerca do possível cartão azul, também essa sugestão para implementarmos, tal como existe no futsal e em outras modalidades, o cronômetro, para que haja mesmo tempo de útil certo e ninguém proteste, porque terá que acabar sempre ao cronômetro. Finalizamos com a nota, sendo que a nota é de 0 a 10, com o cinco a ser a positiva mínima. Pedro, de 0 a 10, quem é e qual a tua nota?
Vou dar nota 3 ao presidente da UEFA, o senhor Ceferin. É lógico que eu não tenho a certeza absoluta de tudo aquilo que neste momento consta, obviamente, não estou lá dentro, mas o senhor Ceferin já tinha no passado feito uma interferência, e não foi pela positiva, em relação ao árbitro turco muito conhecido, o Cüneyt Çakır, e que terá ditado o seu afastamento. Consta também que desta vez, ele, que é esloveno, ficou muito chateado com a arbitragem do Daniel Orsat no Portugal-Eslovénia, e que terá sido ele o influenciador junto do Roberto Rosetti, que é o chefe da comissão de arbitragem, no sentido de afastar um árbitro com 48 anos e que era um dos fortes candidatos, até pela sua qualidade, a arbitrar a final. Não tendo a certeza que realmente isto é mesmo assim, mas conhecendo os meandros, se vocês quiserem comparar para Portugal, é como, por exemplo, o presidente da federação ou da liga tivesse uma intervenção direta junto do presidente do Conselho de Arbitragem para nomeações ou para não nomeações, etc. Isso é completamente impensável. Estes órgãos têm que funcionar. Eu sei que há dependências, normalmente financeiras, obviamente, porque os árbitros não geram dinheiro e dependem disso, mas este tipo de interferências não pode acontecer. É pelas cores das camisolas dos países, ou desculpe-se, isso não pode acontecer.
Ainda por cima o Rosetti também é italiano, não é? O Daniel Orsat é italiano.
Pronto. Tem que haver aqui um tipo de independência que me parece que é mais do mesmo. Eles quando chegam todos lá acima, às cadeiras do poder, parece que não conseguem mesmo, é como os governantes, parece que não conseguem cumprir com aquilo que prometeram no momento em que estão para lá chegar. E portanto, a ser tudo isto verdade, em relação ao turco foi verdade, é algo que não é bom, que não é positivo, este tipo de pressão externa. A arbitragem tem que ser claramente independente, funcionar de forma claramente independente e por isso é que de vez em quando tem mesmo que haver eleições, os mandatos serem limitados, as pessoas darem lugar a outros, porque senão entra-se aqui em vícios. Com isto tudo, eu acho que entre o Simon Marciniak, o árbitro polaco, e uma vez que a França foi eliminada, o Clément Turpin, podemos estar eventualmente a ter um dos dois árbitros apontados à final de domingo, entre a Espanha e quem sair amanhã do jogo entre Inglaterra com os Países Baixos. Portanto, de qualquer maneira, nota 3 para o Ceferin, porque não me admira, já não é a primeira vez que se consta e que se fala, e a certeza que se tem é que se ele fez isso com o árbitro turco, e essa foi mesmo, porventura estará a fazer com o Daniel Orsat.
Ora bem, essa nota 3 para o esloveno Ceferin, aqui nesse centro de uma possível polêmica, ainda por cima a envolver um italiano, Rosetti, com esse possível afastamento do árbitro italiano, que podia ser apontado à final, mas ficam aqui esses dois nomes do Pedro Henriques. Sem falta, por hoje é tudo. Pedro, grande abraço. Até amanhã.
Grande abraço, até amanhã. Obrigado.