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Sem mais demoras, Bruno, do que nos vais falar?
Eu vou falar dos salários dos portugueses. É um tema desagradável. Os portugueses sabem bem quando veem o recibo ao final de cada mês e de acordo com os dados da Segurança Social, mais de 50% dos portugueses recebem até € 1000 brutos. É uma percentagem muito elevada e dentro destes portugueses que recebem até € 1000, a maior parte recebe menos do que isso, até € 800. E são cerca de 1,5 milhão de portugueses a receber. E isto mostra que algumas vezes, em certas situações, olharmos só para a taxa de desemprego pode ser enganador, porque eu imagino que seja muito difícil viver, já nem falo no centro das cidades, independentemente de onde se viva, com estes valores. Estamos a falar de pessoas em idade ativa a trabalharem e é isto que recebem.
Até tendo como referência o preço da habitação.
Claro. Se nós pegarmos só aí e o valor médio, ainda por cima num contexto de taxas de juro bastante elevadas e com a maioria dos portugueses a terem crédito à habitação, conseguimos imaginar que a vida não está mesmo nada fácil. E quando ouvimos os políticos a falar da questão dos salários, parece que vivem numa outra realidade. Por quê? Eu ouvi ainda hoje a Mariana Mortágua dizer que Portugal é um país pobre porque paga salários pobres, e não o contrário. Em Portugal paga-se salários pobres porque o país é pobre ou não produz riqueza suficiente, não há índices suficientes de produtividade para que os salários aumentem. E também temos ouvido Paulo Raimundo insistir na questão do aumento salarial. Podiam começar pelo PCP e pelo valor que paga aos funcionários, incluindo o próprio Paulo Raimundo, que já veio dizer que tinha um vencimento de € 750 líquidos. E isto, no caso dos salários que excedam o salário mínimo, não se resolve por decreto, não se pode dizer: "Vamos aumentar". Todos nós gostaríamos de ter essa possibilidade, mas mesmo à direita, que tem de fato insistido na questão da baixa de impostos, não é isso que aumenta os salários, aumenta o rendimento se houver uma baixa de impostos, mas não aumenta os salários. E temos perante esta situação, isto é apenas um quadro que ilustra a situação em que o país vive. Não vale a pena desenhar cenários cor-de-rosa, porque esta é a realidade. Mais de metade dos trabalhadores portugueses por conta de outrem recebem até € 1000. Não há soluções, como agora diz o Pedro Nuno Santos, não há uma bala de prata, mas os políticos têm, de fato, que pensar muito bem nas razões, nas explicações para que isto aconteça, porque falar em salários dignos e depois nós termos esta realidade, não resolve, de fato, o problema.
Não é uma situação que se colore com cor-de-rosa. Que cor queres atribuir?
Preto. Um semáforo preto.
Judite de França, e tu, o que nos trazes?
Eu quero falar de uma notícia que saiu no jornal Público, em que a Parque Escolar mudou para construir habitação, mas até agora só lançou um concurso e está sem presidente. Eu recordo que a Parque Escolar foi uma empresa pública criada no tempo do governo de José Sócrates. Quem não se lembra de Maria de Lurdes Rodrigues no Parlamento a dizer que foi uma festa o que se fez na Parque Escolar? E foi.
É algo que se diz.
Foi uma festa, porque só em 2016 a dívida era de € 2 bilhões. Portanto, foi de fato uma festa. Claro que conseguiram modernizar e requalificar escolas, em alguns casos com um despesismo inacreditável. Eu ainda me lembro de quando a Parque Escolar foi criada e foram esvaziadas as direções regionais de educação, que tinham os equipamentos educativos a seu cargo e, portanto, deixaram de tratar e de reabilitar escolas, que bem precisavam de um impulso, algumas delas até de raiz. Mas eu lembro-me de um pormenor que eu sempre achei muito curioso, que foi-
Dos candeeiros? É isso que vais falar ou não?
Havia os candeeiros do Sisa. Não, de umas porcas e parafusos que foram escolhidas por uma empresa muito específica, que tinha aquele tipo de porcas e parafusos, e que não era compatível com o standard deste tipo de material. E, portanto, quando a empresa não conseguiu suprir as necessidades, houve durante um tempo que ficou tudo parado, porque não havia porcas e parafusos. Acho que é um pormenor interessante da maneira como se pensa estas coisas. Bom, a ideia era que a Parque Escolar agora, sendo reformulada, trabalhasse no setor da habitação. Mudou de nome pra isso, mas continua a funcionar com administradores em regime de substituição, não tem presidente e lançou apenas um concurso neste momento na área de habitação. E, portanto, aquilo que António Costa tinha prometido, que era apostar no setor da habitação, sobretudo no que diz respeito à habitação pública, e a ideia era alcançar, no parque habitacional público, o equivalente a 5% do parque habitacional total em Portugal, e neste momento a proporção é de 2%, que é uma das mais baixas da Europa.
E que é igual à que existia na altura em que foi feita essa promessa.
Exato, que é a mesma. Exatamente. Sim, não mudou. Bom, resumindo, o último presidente abandonou o cargo no início de 2022 porque se reformou, portanto, por uma questão de aposentação. Até agora não foi apresentado nenhum nome à CRESAP, que é o órgão responsável pela emissão de pareceres para cargos de gestão da administração pública, e, portanto, a empresa que era suposto ter um papel ativo, estou a citar, na área da habitação, lançou um único concurso nesta área em novembro do ano passado para sete lotes habitacionais. O concurso ainda por cima escorregou no tempo e está agora na fase da apresentação de propostas. Até que algo concreto seja construído vai demorar ainda muito tempo.
E que cor te merece?
Isto me merece um semáforo avariado, porque não está a funcionar.
Um preto e um semáforo avariado no semáforo político desta segunda-feira.