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Estamos parados, como sempre, a esta hora no Semáforo Político da Rádio Observador e estamos hoje de olho na viagem de Volodymyr Zelenskyy aos Estados Unidos. Também nos avisos de hoje feitos por Vladimir Putin. Era-nos convidado o ex-embaixador António Monteiro, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros. Vai aqui sinalizar a atualidade com a ajuda da Judite França e do Bruno Vieira Amaral. Eu lanço um primeiro sinal verde para a Vanessa Cruz.
A conferência de imprensa de Zelenskyy e Joe Biden está prevista só lá para as 21:30, mas já podemos dizer que esta é uma viagem importante. É a primeira vez que o presidente ucraniano sai da Ucrânia e isto acontece a poucos dias de começar um novo ano com uma ameaça de uma nova grande ofensiva russa. Mas agora connosco no Semáforo Político, claro, o embaixador António Monteiro, muito obrigada por estar connosco.
Nada, é um prazer.
Eu queria dizer que esta viagem de Zelenskyy é muito mais do que ir buscar os chamados mísseis Patriot. É muito mais do que isto. Se quiser até recorrer aqui às cores de semáforo para sinalizar o peso e a importância desta viagem, esteja à vontade.
Está bem. A primeira nota que eu queria dar é que evidente que esta viagem é muito importante, porque para Zelenskyy poderá significar a conquista de novos apoios, de gente que possa estar mais resistente nesta causa ou no próximo futuro, ou que o imagine no próximo futuro. E também tem um valor altamente simbólico, porque é evidente que saindo ele do país para atravessar a Europa toda para ir aos Estados Unidos, é também um ato de afirmação, de quem está, de facto, com o controle da situação e que pode abandonar o seu posto de comando para ir talvez encontrar apoios suplementares naquilo que tem sido para os ucranianos, provavelmente, o principal aliado.
E agora, o que é que, senhor embaixador, podemos esperar desta conferência de imprensa?
Isso não sei o que é que podemos esperar, mas eu penso que Zelenskyy levará para a América todos aqueles argumentos com que têm praticamente todos os dias imposto uma ordem de ideias ucraniana e uma exposição e uma visibilidade para aquilo que tem sido o esforço de guerra dos ucranianos e que lhe tem merecido e valido praticamente este estatuto, quase diria, de rockstar, porque é evidente que é completamente inesperado um presidente como o presidente Zelenskyy, de um país como a Ucrânia, ter-se transformado possivelmente na principal personagem dos nossos dias. E isso, claro, para Zelenskyy é importante e ele também sabe que na América muito também se joga com uma presença, com propaganda e com a difusão do produto que se quer vender, que neste caso, para Zelenskyy, é o apoio permanente a fazer face ao Golias que é a Rússia e que se tem revelado, no fundo, um monstro de pés de barro.
Senhor Embaixador, e poderá esta deslocação do presidente Zelenskyy aos Estados Unidos ser vista pelo Kremlin como uma provocação? Nós sabemos que os russos têm alguma facilidade em ver tudo como uma provocação, mas haverá aqui razões para embarcarem nessa narrativa?
Eu acho que poderão utilizar e certamente que utilizarão, que a Rússia apontará até internamente, mais uma vez, esta espécie de coligação entre a Ucrânia e Estados Unidos para destruir o poderio russo, com a certeza que manterá essa via, mas o que ele não poderá esconder é que, de facto, há uma aliança objetiva entre não apenas Ucrânia e Estados Unidos, mas Ucrânia e a NATO, e que naturalmente isso também levantará questões da ordem interna, espero eu. E por isso, esta viagem também tem a importância de provocar do lado russo uma reação que Putin também terá de controlar, porque quanto mais atacar e considerar este um ato de agressão, mais revelará a fraqueza em que está a cair e o isolamento que progressivamente se vai registando à sua volta. E que não é uma viagem e uma visita a Lukashenko e conversações com o seu parceiro subordinado Bielorrússia que lhe darão qualquer maior peso internacional.
E Putin, de resto, até já jogou aqui um pouco na antecipação, embaixador António Monteiro, porque fez esse discurso hoje e acenou logo com as forças nucleares em estado de prontidão. Joe Biden terá ficado aqui intimidado com isso ou não?
Eu penso que não, e que, pelo contrário, com isso alienará até, eventualmente, outras, não digo simpatias, até neutralidade de outros países. A China tem sido clara na recusa das ameaças nucleares e da manutenção da ordem internacional, por exemplo, e por isso a própria Índia não verá com bons olhos este tipo de ameaças a que Putin tem recorrido e que têm, de facto, sido uns dos pontos mais fracos e um dos pontos que eu acho que os países ocidentais deviam utilizar mais nas conversações com outros parceiros internacionais, porque de facto a ameaça militar é flagrante e cabe-nos a nós denunciar isso e ao mesmo tempo pressionar para que a Rússia razoavelmente possa voltar a uma mesa de negociações, possa iniciar negociações com alguma validade. Aliás, eu queria até referir e também isto poderá ter a ver com a viagem de Zelenskyy, também há na América vozes autorizadas que preconizam que estamos na altura de começar já o caminho para a paz. Por exemplo, o último artigo do Henry Kissinger no The Spectator há uns dias atrás, é um notável artigo em que, mais uma vez, Kissinger vem defender que só a diplomacia pode resolver esta situação e poderá evitar perigos maiores para o futuro da humanidade. Isto poderá servir também para levar a que alguma parte dos americanos comecem a pensar que vale a pena também aqui se dar com o que ele diz, as novas estruturas para se poder alcançar a paz através de negociações, mas ao mesmo tempo, com uma firmeza muito grande no que respeita à questão militar. Não se pode permitir que livremente a Rússia continue a destruir as infraestruturas ucranianas sem qualquer respeito pelos direitos humanos.
Deixe-me só aqui regressar um pouco ao início. O que é a importância dos Patriots e da defesa aérea, se há coisa que temos ouvido Volodymyr Zelenskyy falar desde o início é dessa questão da defesa aérea. Isto é uma grande vitória para a Ucrânia?
Eu penso que sim. É mais um passo do envolvimento americano e também mais uma garantia de que a Ucrânia terá meios de se defender desta destruição irracional que está a ser levada a cabo pelos militares russos. Isso poderá levar os próprios militares russos a interrogarem-se sobre a oportunidade e a viabilidade de manterem esta linha de destruição que têm vindo a praticar. É, de facto, um fator novo e positivo para aquilo que é a defesa da Ucrânia em relação à questão russa.
Embaixador António Monteiro, deixe-me só dar aqui a nota já agora de que Volodymyr Zelenskyy acaba de chegar à Casa Branca. Já está por lá com Joe Biden, vai ser agora recebido pelo presidente norte-americano. E isto leva-me a perguntar-lhe também aqui, é algum fator de curiosidade: como é este tipo de viagens? O senhor foi embaixador, se calhar consegue dar-nos aqui uma visão de como é que estas coisas se processam. É uma viagem que foi programada de forma secreta há uma semana. Que contornos é que estão envolvidos neste tipo de situações, ainda para mais com uma guerra em curso?
É evidente que isto é um daqueles casos extremos, que esta viagem deverá ter sido preparada até ao pormenor, sobretudo tendo em conta os problemas de segurança que ela impõe. A questão securitária foi com certeza muito bem estudada e trabalhada pelos dois países e o conteúdo das conversas também, porque é evidente que só se fica uma deslocação destas de Zelenskyy com o aparato e a repercussão que isto tem no mundo, só se fica sabendo que vai haver e dessas conversações vão sair novas manifestações de apoio americano à causa ucraniana. E eu espero que isso também vá de mão dada com o apoio da NATO em geral, porque na verdade, o que está aqui a haver é evidência da unidade de ação entre a Ucrânia e os Estados Unidos, mas não podemos esquecer também que os principais aliados dos Estados Unidos nesta questão são os países, nomeadamente aqueles que fazem parte da NATO.
Entretanto, também, pelo que parece, os Estados Unidos estão a considerar declarar formalmente a Rússia como um Estado agressor. Que efeitos práticos é que isto pode ter, embaixador António Monteiro?
Eu creio que constituirá mais uma pressão para isolar e para dar ideia da condenação internacional de Putin. Isso é cada vez mais pessoalizar esta guerra como a guerra de Putin. O resto não terá grandes consequências. Poderá depois também servir em futuras negociações para ser uma moeda de troca eventual naquilo que estiver colocado em cima de uma mesa que já orientada para a paz futura. Mas isso não alterará grandemente aquilo que já está declarado. Praticamente toda a gente e todo o Ocidente considera que o que os russos estão a fazer na Ucrânia são atos de terrorismo.
E esta viagem para eventuais negociações de paz, para um desfecho desta guerra, se tivesse que recorrer à nossa terminologia do semáforo, que cor é que daria para os próximos capítulos? Pode haver aqui algum tipo de viragem? Vai um sinal verde, amarelo, vermelho? O que é que podemos ver?
Eu penso que por enquanto estamos com o sinal vermelho. Não há possibilidade de passar por essa via, por enquanto. Mas penso que já há muita gente, eu não apenas me chamava a atenção para esse artigo do Kissinger, não apenas este artigo, mas muita gente que pensa também que ao mesmo tempo que se tem que fortalecer a Ucrânia na sua defesa militar, também se tem de começar a pensar as vias que poderão levar a uma paz que é absolutamente necessária e que é inevitável. É uma questão de tempo.
Embaixador António Monteiro, a Judite França também trouxe aqui um sinal que não tem cor. É um sinal averiado para outro tema.
É para outro tema.
Marcelo Rebelo de Sousa falou há pouco nos cumprimentos de boas festas que o governo foi apresentar a Belém, e falou sobre a inflação.
Falou sobre a inflação e sobre a forma como vai ser difícil para o ano o governo explicar que a inflação não é culpa sua. E eu, quando ouço isso, também só me apetece fazer aquele coraçãozinho com as mãos, porque quando o PR aproveita o momento para falar ao lado de António Costa nesta apresentação de cumprimentos, para dizer que a sua preocupação é que a inflação não seja percepcionada como culpa do governo, e dizer a António Costa para não se esquecer de explicar aos portugueses que a subida dos preços não é culpa sua. É pá, batatas. É o que me apetece dizer sobre isso, porque eu acho que a preocupação do presidente da República deve ser como os portugueses têm dificuldade em ir ao supermercado e não a percepção que o país tem de António Costa. Portanto, mega coração e selfie para os dois e acho que como prenda de Natal podia ser essa foto trocada entre os dois, cada um para pôr na sua mesinha de cabeceira.
Ouvi um ligeiro sorriso, embaixador António Monteiro, se quiser comentar este semáforo da Judite França.
Não vou comentar, simplesmente porque eu não assisti. Ouvi agora este comentário e respeito a opinião.
Bruno Vieira Amaral, no teu caso, há cor. É um sinal vermelho para o caso de João Gomes Cravinho, ministro dos Negócios Estrangeiros.
Eu tenho que fazer um mea-culpa, porque este caso da tempestade perfeita, com suspeitas de corrupção por parte de altos quadros do Ministério da Defesa, passou um pouco ao lado. Passou entre os pingos da chuva, chuva literal, e da chuva de casos e casinhos que têm afetado o governo. E se calhar, a minha situação não é única. A maior parte dos portugueses, como pediu António Costa, estão a habituar-se a estes casos e prova que a corrupção está completamente enraizada. Não está nas margens do poder, nem é uma coisa do passado. Este caso aconteceu em 2020, já com a Covid em força, e honestamente, porque tem de haver alguém honesto no meio disto tudo, eu creio que o menos importante até é apurar a responsabilidade do ministro depois nas nomeações que foram feitas ou não foram feitas. Claro que essa responsabilidade tem de ser determinada, mas o caso em si, e para quem não se apercebeu do que era o caso, teve que ver com a reconversão do Hospital Militar de Belém, que deveria custar €750.000, e foi feito um ajuste direto, e que em quatro meses, teve uma derrapagem de €2,5 milhões. Para se ter ideia do que é que está aqui em causa. Eu creio que o caso em si é suficientemente grave, e o que o governo faz é lançar areia, e já não é chuva, para os olhos dos portugueses ontem, com a ida do João Gomes Cravinho, do ministro dos Negócios Estrangeiros, ao Parlamento. O PS defende-se, ou o governo defende-se, dizendo que o que está aqui em causa é uma tentativa de aproveitamento político e que está a haver uma guerra pela liderança da direita, que faz com que se aproveitem deste caso. Mas isto é o mesmo quase que dizer de outra forma, a culpa é do Passos, a culpa é da direita, a direita é que está mal. Não, o que está mal são estes casos, que não são casinhos, infelizmente, e que se têm vindo a repetir.
Vamos voltar aqui a outra guerra, a guerra da Rússia na Ucrânia. Embaixador António Monteiro, temos aqui só 30 segundinhos, mas gostava ainda de abordar consigo. A administração de Joe Biden, entretanto, já confirmou o novo pacote de ajuda, o valor são 2 mil milhões de dólares, é muito dinheiro. Pode de facto fazer aqui a diferença para acelerar, pelo menos, o desfecho desta guerra?
Eu acho que sim, e pode fazer a diferença porque é também uma garantia de que possivelmente não é a última ajuda que os americanos darão e por isso também poderá pôr em sentido Moscovo, ou pelo menos Putin, e começar a pensar que de facto esta guerra, quanto mais longa seja, é demasiado cara para as possibilidades que ele tem.
Sim, e não pode arrastar-se ad eternum. Muito obrigada por ter estado no Semáforo Político. Embaixador António Monteiro, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros. E nós voltamos amanhã.